Portos brasileiros levam sete dias para liberar contêineres importados; veja os impactos

Tempo de permanência supera China, Estados Unidos e Austrália; entre as consequência está o aumento de custos logísticos para empresas

Aline Feltrin

Os portos brasileiros continuam enfrentando desafios de eficiência operacional que impactam diretamente a competitividade das empresas. Dados recentes levantados pelo Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) mostram que o tempo médio de permanência dos contêineres de importação nos terminais portuários do país é de 7,3 dias, período superior ao registrado em importantes economias globais, como China (5,9 dias), Estados Unidos (4,2 dias) e Austrália (2,2 dias).

Entre os países analisados, apenas México, com média de 9,3 dias, e Argentina e Japão, ambos com 8 dias, apresentam desempenho inferior ao brasileiro. O indicador mede o intervalo entre a descarga do contêiner do navio e sua efetiva saída do terminal portuário. Trata-se de um dos principais parâmetros utilizados para avaliar a fluidez das operações portuárias e a eficiência da logística internacional.

Impacto nos custos

Segundo a análise do ILOS, períodos mais longos de permanência geram efeitos em cadeia sobre toda a operação logística. Entre os principais impactos estão o aumento dos custos de armazenagem nos terminais, despesas com sobre-estadia de contêineres (demurrage) e maior volume de capital imobilizado em estoque. “Além disso, a demora na liberação das cargas reduz a capacidade de resposta das empresas às oscilações da demanda, compromete o planejamento da produção e pode afetar os níveis de serviço ao cliente”, apontam especialistas do Instituto de Logística e Supply Chain.

Na prática, cada dia adicional que um contêiner permanece no porto representa custos extras para importadores, que acabam sendo incorporados ao preço final dos produtos ou absorvidos pelas margens das empresas.

Em um cenário de cadeias de suprimentos cada vez mais globalizadas, a eficiência portuária tornou-se um fator estratégico para a competitividade dos países. Portos mais ágeis contribuem para reduzir custos logísticos, acelerar o abastecimento das indústrias e aumentar a previsibilidade das operações de comércio exterior.

Segundo o levantamento do ILOS, no caso brasileiro, o resultado evidencia gargalos que vão além da infraestrutura física dos terminais. Questões relacionadas a processos aduaneiros, integração entre modais de transporte, disponibilidade de equipamentos e burocracia também influenciam o tempo de permanência das cargas.

O desempenho contrasta com o observado em mercados considerados referência em logística internacional. Na Austrália, por exemplo, os contêineres permanecem, em média, apenas 2,2 dias nos portos antes de seguirem para seus destinos finais. Nos Estados Unidos, o tempo médio é de 4,2 dias, enquanto a China registra 5,9 dias.

Pressão sobre a cadeia logística

A lentidão na movimentação de contêineres ganha relevância em um momento de crescimento das importações e aumento da complexidade das cadeias globais de suprimentos. Setores industriais dependentes de componentes importados tendem a sentir mais fortemente os efeitos da demora na liberação das cargas.

Para operadores logísticos, transportadoras e embarcadores, a redução do tempo de permanência dos contêineres é vista como uma das principais oportunidades para elevar a eficiência do sistema logístico nacional e melhorar a posição do Brasil nos rankings internacionais de desempenho logístico.

Para Paulo Resende, professor e diretor do Núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral, o desempenho brasileiro reflete uma combinação de gargalos históricos que vão muito além da operação dentro dos terminais.

Segundo o especialista, o primeiro obstáculo está na burocracia aduaneira. A complexidade tributária brasileira e a atuação de diversos órgãos fiscalizadores, como Receita Federal, Anvisa e Vigiagro, tornam os processos de desembaraço mais lentos e sujeitos a inspeções físicas demoradas.

“Os processos poderiam ser muito mais rápidos se houvesse uma integração maior entre as instituições e uma redução da burocracia aduaneira”, afirma.

Outro fator relevante é a deficiência dos acessos terrestres aos portos. Como o transporte rodoviário ainda predomina na matriz logística brasileira, a falta de investimentos em rodovias, ferrovias e retroáreas gera congestionamentos frequentes e filas de caminhões nos principais complexos portuários.

“No Porto de Santos, por exemplo, ainda existem limitações na infraestrutura rodoferroviária para receber e escoar contêineres com mais rapidez. Quando há necessidade de integração entre caminhões e trens, os atrasos tendem a aumentar”, explica.

Resende também destaca problemas históricos na infraestrutura aquaviária. Segundo ele, a falta de dragagem contínua em diversos portos limita a entrada de navios de grande porte, obrigando as cadeias logísticas a operarem com embarcações menores e um número maior de escalas.

“A ausência de aprofundamento permanente dos canais de acesso impede a plena utilização de navios maiores, reduzindo ganhos de escala e aumentando a complexidade operacional”, diz.

Além disso, o professor aponta que muitos portos brasileiros ainda dependem de processos pouco digitalizados e baixa integração entre os diferentes agentes da cadeia logística.

“Em vários casos ainda existem procedimentos manuais e troca de informações por planilhas. A integração entre a chegada dos navios e a retirada das cargas pelos importadores ainda é insuficiente”, afirma.

Custo bilionário para a economia

Na avaliação do especialista, os sete dias médios de permanência dos contêineres representam muito mais do que uma questão operacional. “Isso tudo aumenta muito o custo. Não é apenas uma questão de ineficiência. Esses sete dias custam muito caro para o Brasil. Embora seja difícil mensurar exatamente, estamos falando de um impacto que certamente alcança bilhões de dólares por ano”, afirma.

Para Resende, o quadro atual é resultado de décadas de investimentos insuficientes em infraestrutura logística e da forte dependência do setor público na gestão portuária. Apesar dos avanços observados nos últimos anos com a expansão dos terminais privados, ele avalia que ainda existem grandes disparidades entre os portos brasileiros.

“Há terminais com desempenho próximo ao de países desenvolvidos, liberando contêineres em dois ou três dias. Em outros, a operação pode levar mais de duas semanas. A média nacional acaba escondendo diferenças muito significativas entre os portos”, conclui.

Esse trecho ajuda a transformar a reportagem de uma simples divulgação de estatísticas em uma análise das causas e dos impactos econômicos do problema, algo que costuma agregar valor para leitores de negócios e logística.

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