Em um mercado de caminhões pressionado por juros elevados, crédito restrito e desaceleração das vendas, o programa Move Brasil alterou a dinâmica do financiamento de veículos pesados no país e recolocou o Finame no centro das operações. A avaliação é de Oscar Jaern, presidente da Scania Serviços Financeiros, que afirma que a iniciativa do governo federal “virou protagonista” no setor.
“O Move Brasil está acelerando negócios e puxando a renovação de frota que o país precisa”, afirmou o executivo em entrevista ao videocast Transporte Moderno. Segundo Jaern, antes do programa, cerca de 70% das operações de financiamento da companhia eram feitas via CDC e apenas 30% via Finame — movimento inverso ao observado há cerca de 15 anos. Com o subsídio embutido no Move Brasil, o cenário mudou rapidamente.
“Hoje, aproximadamente 80% do nosso financiamento está ligado ao Move”, disse. O executivo afirma que a diferença nas taxas explica a migração. “Existe uma diferença muito substancial no custo financeiro. Estamos falando de cerca de 5,5 pontos percentuais ao ano em relação a linhas tradicionais.”
Na primeira fase do programa, a Scania Serviços Financeiros conquistou cerca de R$ 1 bilhão em operações, o equivalente a aproximadamente 10% do volume total disponibilizado pelo governo. Agora, com a segunda etapa prestes a começar, a expectativa da companhia é ampliar participação. Embora evite divulgar metas, Jaern afirma que já existe uma “gaveta bastante cheia” de propostas aguardando o início oficial das operações.
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Renovação de frota ganha urgência
Para o executivo, o impacto do Move Brasil vai além do estímulo comercial. Ele afirma que o programa cria uma oportunidade rara de acelerar a renovação da envelhecida frota brasileira. “O Move 2 só financia caminhões Euro 6. Trocar um veículo Euro 0, 1 ou 2 por um Euro 6 reduz emissões em até 90%, dependendo do poluente analisado”, afirmou.
Jaern também destaca ganhos em segurança e eficiência operacional. “Os caminhões novos incorporam sistemas ADAS, mais conforto para o motorista e tecnologias que tornam as rodovias mais seguras.” Apesar do entusiasmo, o executivo evita especular sobre uma eventual continuidade permanente do programa. Segundo ele, a perenidade dependerá do cenário macroeconômico e da trajetória dos juros no país.
“O Move foi concebido como uma ponte para um período de juros altos. O futuro dependerá das condições econômicas daqui para frente.”
Consórcio cresce como ferramenta de planejamento
Mesmo com o protagonismo recente do Move Brasil, o consórcio continua avançando dentro da estratégia da Scania. Segundo Jaern, o produto registrou crescimento substancial nos últimos anos, especialmente em um ambiente de crédito caro.
A companhia atingiu média de 3,5 mil cotas vendidas, recorde histórico para a operação. “O consórcio funciona muito bem para quem consegue planejar a renovação da frota. É uma ferramenta estratégica para transportadores que não precisam do caminhão imediatamente”, disse.
Na visão do executivo, financiamento e consórcio deixaram de competir diretamente e passaram a atuar de forma complementar dentro das transportadoras. “Grandes clientes utilizam financiamento para caminhões novos e consórcio para apoiar a revenda de usados ou até complementar expansão de frota.”
Segundo ele, muitos transportadores transferem cotas contempladas para compradores de seminovos, reduzindo o valor das parcelas em comparação ao financiamento tradicional.
Locação perde ritmo
Outro segmento impactado pelo novo ambiente de crédito é a locação de caminhões, que ganhou força em 2024, mas perdeu tração neste ano. Para Jaern, o principal fator é justamente o Move Brasil.
“Quem tem acesso ao Move encontra hoje uma condição financeira muito mais vantajosa”, afirmou. Além disso, a desaceleração do mercado de pesados também afeta diretamente a demanda. Segundo ele, o segmento acima de 16 toneladas acumula retração próxima de 17% neste ano.
A queda no valor dos seminovos também pressiona as operações de locação, já que altera o cálculo residual dos contratos. “Com mais oferta de usados no mercado, os preços caem e isso impacta diretamente a composição das parcelas.”
Mesmo assim, Jaern afirma que a locação continua relevante para nichos específicos, principalmente empresas que não têm o transporte como atividade principal. “Uma mineradora, por exemplo, não quer administrar revenda, manutenção ou valor residual. Ela quer um pacote fechado de operação.”
Segundo dados citados pelo executivo, aproximadamente 10% dos caminhões vendidos no Brasil em 2025 foram destinados a locadoras em 2025.
Crédito para autônomos ainda enfrenta barreiras
Embora o programa Move Brasil tenha como objetivo ampliar o acesso ao crédito, os caminhoneiros autônomos ainda representam parcela pequena das operações. Jaern afirma que o principal desafio continua sendo a formalização exigida pelo sistema financeiro e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
“Hoje o autônomo já possui histórico financeiro muito mais estruturado do que há dez anos, mas ainda existe dificuldade no cumprimento de exigências formais, especialmente certidões.” Segundo ele, mais de 60% dos clientes da Scania Serviços Financeiros possuem menos de dois caminhões, mas a participação de pessoas físicas continua limitada.
Além dos produtos financeiros, a Scania vem ampliando programas de relacionamento voltados à formação de clientes e sucessores familiares. Entre as iniciativas está um programa voltado à capacitação de herdeiros de transportadoras familiares, com módulos sobre gestão, inovação e finanças, incluindo imersões no Vale do Silício. A empresa também mantém uma iniciativa focada na formação de lideranças femininas no transporte. “Nós queremos inserir e prestigiar as mulheres que batalham todos os dias dentro do setor”, afirmou Jaern.
A estratégia faz parte da agenda de sustentabilidade da montadora, que inclui metas relacionadas à diversidade e renovação geracional do setor. Na Fenatran, marcada para novembro, a companhia prepara novas ações comerciais e eventos voltados ao consórcio. Um dos destaques será o sorteio de quatro caminhões entre clientes, iniciativa que já distribuiu cerca de 75 veículos em edições anteriores.
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