“Hoje transportamos produtos que nunca imaginei ver no aéreo”, diz diretora da Azul Logística

Executiva detalha como e-commerce, perecíveis e multimodalidade estão mudando a operação de cargas da companhia

De Mogi das Cruzes, São Paulo,

De Mogi das Cruzes, São Paulo

A Azul Linhas Aéreas decidiu transformar sua operação de cargas em algo maior do que uma unidade aérea tradicional. A mudança da Azul Cargo para Azul Logística, anunciada hoje para o mercado, representa uma tentativa de ocupar um espaço mais amplo dentro da cadeia logística, integrando transporte aéreo, rodoviário e marítimo em uma estrutura capaz de operar desde a coleta até a entrega final.

O movimento ocorre em um momento em que o setor aéreo convive simultaneamente com pressão de custos, volatilidade geopolítica e necessidade de novas fontes de receita após a saída da companhia do Chapter 11 nos Estados Unidos.

Na prática, a Azul passa a estruturar um modelo mais próximo de operador logístico integrado, usando sua malha regional, parceiros rodoviários, terminais de carga e rede de representantes para oferecer soluções adaptadas ao perfil de cada cliente. “O que queremos é realmente oferecer uma solução. Seja ela rodoviária, aérea, na cabotagem ou na combianção entre os modais”, afirmou Izabel Reis, diretora da Azul Logística.

Segundo a executiva, a mudança de posicionamento não surgiu apenas da reorganização financeira recente da companhia, mas de uma percepção interna de que a estrutura construída pela Azul ao longo dos anos permitia avançar para operações mais complexas. “Começamos a perceber dentro da própria operação que a unidade de cargas tinha potencial para ir além do transporte aéreo”, afirmou.

Valeria Bursztein Foto: Divulgação / Guilherme Ramos

Hoje, a Azul Logística atende mais de 5.100 municípios, cobrindo cerca de 96% do território nacional, além de presença em 47 países. A estrutura combina duas aeronaves cargueiras Airbus A321F dedicadas — com capacidade aproximada de 25 toneladas por voo —, mais de 200 aeronaves de passageiros utilizadas para transporte de cargas nos porões e uma rede de cerca de 350 lojas e 80 terminais de carga aeroportuários.

A companhia prevê ampliar a frota cargueira para duas aeronaves até o final de 2027, totalizando quatro cargueiros.

Carga aérea deixa de ser nicho

A estratégia da Azul parte de uma mudança que vem ocorrendo silenciosamente no perfil do transporte de cargas no Brasil. Segundo Izabel, o crescimento do e-commerce, da reposição rápida e dos modelos omnichannel começou a levar para o modal aéreo produtos que historicamente jamais utilizariam avião.

“Hoje a gente transporta produtos que eu nunca imaginei ver no aéreo”, afirmou. “Salsinha, por exemplo.”.  O caso citado pela executiva envolve rotas entre Recife e cidades do Norte do país. Embora seja um produto perecível e de baixo valor agregado, a necessidade de reposição rápida passou a justificar o transporte aéreo em determinadas situações.

A mesma lógica vem impulsionando cargas farmacêuticas, termolábeis e até ovos férteis, segmento que também registrou aumento relevante de demanda. “São produtos que não conseguem esperar o tempo do rodoviário”, afirmou.

Segundo ela, a pressão por estoques menores também mudou o comportamento das empresas. “Muitos clientes nos procuram porque querem reduzir o capital parado em estoque. Eles querem transportar mais rápido e ter menos investimento imobilizado”, disse.

Esse movimento ajuda a explicar por que a Azul decidiu ampliar a integração entre modais. A ideia é usar o aéreo como eixo de velocidade e complementar a operação com transporte rodoviário ou marítimo em trechos nos quais prazo e custo permitam maior flexibilidade. “O cliente quer rapidez? Quer mais prazo? Quer um serviço standard ou expresso? A gente consegue desenhar isso”, afirmou a executiva.

Long haul rodoviário entra na estratégia

Embora a Azul já utilizasse transporte rodoviário para coleta e distribuição, a companhia agora passa a estruturar também operações de long haul terrestre como produto comercial.

A estratégia inclui integração com parceiros como Láuto Cargo e Combo Logística, entre outros que têm frota prórpia, além da utilização da própria rede regional da companhia, viabilizando operações de longa distância conectando Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. “Essa logística já existe. O que estamos fazendo agora é integrar e abrir isso para toda a rede comercial”, afirmou Izabel Reis.

Segundo ela, a Azul também pretende usar sua escala para negociar contratos compartilhados de pneus, serviços e insumos logísticos junto aos parceiros regionais. “Quanto maior a rede integrada, maior também é o poder de negociação”, disse.

Geopolítica favorece parte da carga aérea

A companhia também vê oportunidades surgindo a partir das recentes tensões internacionais. Segundo a executiva, gargalos no transporte marítimo e os riscos em corredores globais passaram a favorecer parte da migração de cargas para o modal aéreo. “O que vinha no marítimo muitas vezes está preso no estreito de Ormuz”, afirmou.

A executiva disse que a Azul vem observando crescimento especialmente em operações internacionais ligadas à América Latina. A empresa prepara o início de voos para Lima, no Peru, mirando cargas que chegam da Ásia através do novo porto peruano e precisam ser redistribuídas na América do Sul. “Existe um mercado reprimido que precisa dessa distribuição regional”, afirmou.

Ela também avalia que um eventual avanço do acordo Mercosul-União Europeia pode ampliar o fluxo de cargas de maior valor agregado, especialmente alimentos perecíveis, têxteis, vinhos e produtos farmacêuticos.

Infraestrutura começa a ficar pressionada

O avanço do e-commerce e da carga expressa também começa a pressionar a infraestrutura logística da companhia. Segundo Izabel Reis, hubs como Campinas, Confins e Guarulhos já operam próximos do limite em alguns segmentos. “Em Campinas, por exemplo, já temos clientes de e-commerce em que estamos limitados em capacidade”, afirmou.

A Azul avalia ampliar áreas operacionais, expandir sistemas de sorter e avançar em modelos de cross docking para acelerar o processamento das cargas. “A ideia é que parte da carga já chegue mais preparada pelos representantes, reduzindo tempo dentro do terminal”, disse.

Segundo a executiva, apenas neste ano a companhia prevê ao menos R$ 5 milhões em investimentos em infraestrutura e adequações operacionais.  

Pressão do combustível exige cautela

Apesar da expansão, a operação cargueira também enfrenta um cenário delicado de custos. Segundo ela, os cargueiros são particularmente sensíveis ao aumento do combustível porque operam de forma independente, sem compartilhar receita com voos de passageiros. “No cargueiro eu estou standalone. Então eu preciso olhar custo praticamente todos os dias”, afirmou.

A executiva reconhece que o querosene de aviação no Brasil já era um dos mais caros do mundo e voltou a subir diante das tensões recentes no Oriente Médio. Mesmo assim, a Azul avalia que ainda existe amplo espaço de crescimento para operações logísticas integradas. “O mercado aéreo de carga ainda é muito pequeno perto do mercado rodoviário. Tem muita oportunidade para crescer”, afirmou.

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