Mulheres conquistam hangares da Latam em área crítica da aviação

Companhia amplia formação técnica feminina enquanto mercado aéreo enfrenta dificuldade para contratar mecânicos especializados.

Valeria Bursztein

A presença feminina em áreas técnicas da aviação começa a ganhar espaço em um dos segmentos mais estratégicos para as companhias aéreas: a manutenção de aeronaves. A tendência toma corpo em paralelo a outro desafio enfrentado pelo setor aéreo brasileiro — a dificuldade crescente de formar e contratar mecânicos aeronáuticos em um mercado pressionado pela expansão das operações e pela necessidade de renovação da mão de obra especializada.

Segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Brasil possui cerca de 15 mil mecânicos de manutenção aeronáutica. Desse total, apenas 835 são mulheres, o equivalente a pouco mais de 5% dos profissionais do setor. A baixa participação feminina ajuda a dimensionar a transformação gradual observada nos hangares e centros de manutenção da aviação comercial.

Escassez de profissionais

O avanço da demanda por mecânicos acompanha o crescimento das operações aéreas e da necessidade de manutenção das frotas comerciais. O tema passou a ocupar espaço crescente nas discussões do mercado de MRO (Maintenance, Repair and Overhaul), segmento que reúne serviços de manutenção, reparo e revisão de aeronaves.

Empresas do setor afirmam que a escassez de profissionais especializados já afeta a cadeia aeronáutica e pode se tornar um gargalo para a expansão da aviação nos próximos anos. Frente à situação, companhias aéreas passaram a ampliar programas próprios de formação técnica para reduzir a dependência do mercado e acelerar a qualificação de novos profissionais.

Um exemplo é a Latam, que investe na formação interna de mecânicos aeronáuticos e mantém atualmente a única escola de mecânicos certificada pela Anac instalada dentro de uma companhia aérea no Brasil. Na companhia, mulheres vêm assumindo funções ligadas diretamente à manutenção de aeronaves comerciais, atividade considerada crítica para a segurança operacional e disponibilidade da frota.

Peso estratégico para formação técnica

O avanço da demanda por profissionais especializados levou a Latam a ampliar a estrutura da Escola Latam de Mecânicos, criada inicialmente em São Carlos e expandida neste ano para o Centro de Manutenção de Linha de Guarulhos.

A companhia informa que a escola já soma mais de 200 alunos em formação nas duas unidades. Atualmente, 32% dos estudantes matriculados são mulheres. O curso inclui formação básica em manutenção aeronáutica e especializações em célula, grupo motopropulsor e aviônicos — áreas consideradas essenciais para certificação técnica dos profissionais pela ANAC. Com duração de 18 meses, a formação combina atividades práticas e conteúdos técnicos ministrados por especialistas da companhia.

O Latam MRO de São Carlos completa 25 anos em 2026 consolidado como um dos principais polos de manutenção aeronáutica do país. A estrutura possui 95 mil metros quadrados, nove hangares e 22 oficinas especializadas, com capacidade para atender simultaneamente até 16 aeronaves. A unidade concentra aproximadamente 60% das manutenções programadas da frota do grupo Latam.

O complexo também possui certificações internacionais de órgãos como FAA, EASA e DGAC e vem ampliando o uso de processos digitais e inspeções apoiadas por drones e inteligência artificial em atividades de manutenção. A LATAM opera atualmente uma frota superior a 150 aeronaves no Brasil, incluindo modelos Airbus A320, A321, Boeing 777 e Boeing 787.

Dos hangares de Guarulhos à manutenção internacional

Natural da Paraíba e moradora de Guarulhos (SP), Marivalda Cardoso começou a trajetória na aviação na área de segurança aeroportuária. O contato diário com aeronaves despertou o interesse pela manutenção técnica e a levou a concluir a formação em mecânica aeronáutica em 2019.

Valeria Bursztein Marivalda Cardoso / Foto: Divulgação / Latam

Dois anos depois, ingressou na LATAM como auxiliar técnica. Atualmente, trabalha na manutenção programada de aeronaves Boeing 777 e 787 no Centro de Manutenção da LATAM (CML), em Guarulhos. Entre as experiências mais relevantes da carreira, ela destaca a participação, em 2025, em uma operação de troca de trem de pouso em Nova York, realizada pela equipe técnica da companhia.

Mudança de carreira aos 46 anos

A trajetória de Luciene da Silva mostra outro movimento observado na aviação: profissionais migrando de outros setores para suprir a demanda crescente por mão de obra técnica. Natural do Tocantins e moradora de Brasília, Luciene trabalhou durante anos como operadora de máquinas agrícolas até decidir ingressar na manutenção aeronáutica em 2020.

Valeria Bursztein Luciene da Silva / Foto: Divulgação / Latam

Ela entrou na LATAM em 2023 como auxiliar de manutenção e, dois anos depois, foi promovida a mecânica aeronáutica. Hoje, atua na manutenção de linha dos Airbus A319, A320 e A321 em Brasília, realizando inspeções e verificações operacionais das aeronaves entre voos.

Além da atuação em linha, Luciene concluiu recentemente certificação técnica no Latam MRO de São Carlos (SP), considerado um dos principais centros de manutenção aeronáutica da América do Sul.

Nova geração chega à manutenção

A renovação geracional também aparece no caso de Tainá Souza, de 22 anos. Ela ingressou na Latam em 2022 pelo programa Jovem Aprendiz, inicialmente na área administrativa. O contato com a operação despertou interesse pela manutenção aeronáutica e motivou a migração para a área técnica.

Tainá Souza / Foto: Divulgação / Latam

Hoje, atua como mecânica de pista da frota Airbus A320 em Congonhas, realizando atividades ligadas à preparação das aeronaves para voo. Segundo a profissional, a primeira troca de rodas e a participação na liberação operacional de uma aeronave estão entre os momentos mais marcantes da carreira.

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