Lucro da Latam avança, mas combustível muda cenário de 2026

Companhia mantém crescimento e margens, mas revisa projeções com alta do QAV

Valeria Bursztein

(A Latam Airlines Group iniciou 2026 com resultado robusto, mas já sob pressão de custos. A companhia reportou lucro líquido de US$ 576 milhões no primeiro trimestre, com margem operacional ajustada de 19,8% e EBITDA de US$ 1,3 bilhão, alta de 36,7% na comparação anual.

A operação cresceu em ritmo consistente. A capacidade avançou 10,4%, enquanto o volume de passageiros chegou a 22,9 milhões, alta de 9,1% em relação ao mesmo período de 2025. A taxa de ocupação consolidada atingiu 85,3%.

“Quando olhamos o desempenho histórico recente, temos plena confiança na estratégia colocada em prática pela companhia. Mas, olhando para frente, para o futuro próximo, o momento exige cautela, especialmente por fatores externos como o combustível”, afirmou o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier.

O CFO do grupo, Ricardo Bottas, disse que o trimestre foi o melhor da história para um primeiro trimestre, sustentado por disciplina financeira e avanço das receitas de maior valor agregado.

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Receita premium sustenta margens

O resultado não veio apenas de volume. Houve ganho de qualidade na receita. A Latam registrou alta de 12,7% na receita unitária (PRASK), impulsionada principalmente pelo segmento premium. As receitas dessas cabines cresceram 28% e já respondem por cerca de 27% da receita total de passageiros. A combinação de demanda mais qualificada e gestão ativa de preços tem sido central para sustentar margens, mesmo com custos em alta.

O mercado brasileiro voltou a se destacar. No doméstico, a capacidade cresceu 11,9%, com aumento de 13,2% no número de passageiros, para 9,9 milhões. A taxa de ocupação ficou em 82,5%, enquanto a receita unitária avançou 17,1% em dólar. No internacional, a expansão foi semelhante: capacidade em alta de 13,3%, demanda 12,9% maior e ocupação de 86,8%.

Combustível no centro da equação

Se o primeiro trimestre mostrou força operacional, o restante do ano será definido pelo custo do combustível. O impacto já começou a aparecer: cerca de US$ 40 milhões no período. Para frente, a pressão aumenta. “Com o combustível na faixa de US$ 170 por barril, projetamos um impacto adicional superior a US$ 700 milhões no segundo trimestre”, afirmou Bottas.

A revisão de cenário é significativa. A premissa anterior, de US$ 90 por barril, foi substituída por um intervalo entre US$ 150 e US$ 170. No Brasil, a situação é ainda mais desafiadora. Segundo executivos, o querosene de aviação pode custar até o dobro do observado em outros mercados. 

Parte dessa pressão não é conjuntural. O QAV representa entre 30% e 40% dos custos das aéreas no Brasil e segue a política de paridade internacional, mesmo com produção majoritariamente doméstica. Na prática, o preço acompanha o mercado externo, refletindo dólar e petróleo.

A equação é agravada por limitações de refino, gargalos logísticos e concentração de mercado. Em abril, a Petrobras aplicou reajustes superiores a 50%, em linha com a alta do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio.

Mesmo com o governo federal tendo zerado temporariamente o PIS/Cofins sobre o QAV em abril de 2026, temporariamente para aliviar o setor, o custo do combustível no país segue mais caro do que em mercados como os Estados Unidos — um diferencial que pressiona tarifas e, potencialmente, a oferta de voos.

Caixa com fôlego e guidance enxuto

Apesar do ambiente mais desafiador, a Latam mantém uma posição financeira sólida. A liquidez encerrou o trimestre em US$ 4,1 bilhões, equivalente a 27% da receita dos últimos 12 meses. A alavancagem líquida está em 1,3 vez, e a companhia gerou US$ 391 milhões em caixa no período. As agências de rating mantêm a empresa em nível BB/Ba2, com perspectiva positiva.

Com a volatilidade elevada, a companhia revisou seu guidance e passou a focar em indicadores centrais. A Latam projeta CASK – sigla para Cost per Available Seat Kilometer (Custo por Assento-Quilômetro Disponível) – sem combustível entre 4,50 e 4,70 centavos de dólar, EBITDA ajustado entre US$ 3,8 bilhões e US$ 4,2 bilhões, alavancagem de até 1,8 vez e liquidez mínima de US$ 4,5 bilhões. As premissas incluem câmbio médio de R$ 5,15 por dólar e preços elevados de combustível ao longo do ano.

Risco sob monitoramento

De acordo com os executivos da Latam, até agora, o impacto sobre a demanda foi limitado. Houve uma leve redução, entre 2% e 3% no fim de março, sem cancelamentos relevantes.

A companhia afirma que não há risco imediato de desabastecimento de combustível nos mercados em que opera. Ainda assim, reconhece um cenário aberto, que pode exigir ajustes adicionais.

Revisões mais estruturais, como cortes de rotas e voos, não estão no radar no curto prazo — mas também não são descartadas. “São decisões que demandam uma análise criteriosa do impacto no fluxo operacional”, avaliou Cadier.

Expansão com ajuste fino

Questionado sobre o destino das novas aeronaves adquiridas da Embraer, Cadier comentou que os primeiros dos 24 jatos Embraer E195-E2 previstos para o segundo semestre de 2026 serão direcionados prioritariamente ao mercado brasileiro até o fim de 2027 e devem reforçar a estratégia de expansão regional da companhia. 

O plano não altera de forma estrutural a malha, mas busca ganhos de eficiência, com melhor adequação de capacidade, aumento de frequências e maior flexibilidade operacional, inclusive em aeroportos menores. Com esse movimento, a Latam estima a possibilidade de adicionar até 35 novos destinos no país. O anúncio foi feito em março de 2026, no centro de manutenção da empresa em São Carlos (SP).

A Latam entra em 2026 com operação sólida e receita mais qualificada. Mas o foco já mudou. O crescimento segue, mas agora condicionado ao custo. O que está em jogo é o ponto de equilíbrio entre demanda ainda resiliente e um combustível que voltou a ditar o ritmo do setor.

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