Fim da escala 6X1 aprovada na CCJ; veja os impactos no transporte

Proposta pode elevar custos, ampliar escassez de mão de obra e acelerar automação no setor

Valeria Bursztein

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade de propostas de emenda à Constituição (PECs) que preveem o fim da escala de trabalho 6×1 e a redução da jornada semanal para até 36 horas. A medida ainda precisa avançar na tramitação, mas já mobiliza setores intensivos em mão de obra, como transporte, logística e indústria.

A eventual mudança tende a exigir reconfiguração de turnos e aumento de equipes para manter o nível de operação, especialmente em atividades contínuas como transporte rodoviário e centros de distribuição.

Pressão sobre custos e operação

Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) indicam que a mão de obra representa entre 30% e 40% dos custos no transporte rodoviário de cargas. Nesse cenário, a redução da jornada sem ganhos de produtividade pode pressionar margens e elevar o custo do frete.

“A preservação da qualidade de vida e da saúde do trabalhador é fundamental, mas não se pode alterar um modelo produtivo tão complexo sem avaliar as contrapartidas e os efeitos sobre toda a cadeia econômica. O risco é que o aumento de custos volte para o bolso do próprio trabalhador, com desemprego e perda de poder de compra”, afirma Anderson Festa, presidente executivo da Associação Av. Henry Ford Mooca e Região, entidade empresarial dedicada à defesa da atividade produtiva, que representa mais de 220 empresas, 70 mil empregos e faturamento superior a R$ 12 bilhões por ano.

Escassez de mão de obra pode se agravar

Conforme antecipou a Agência Transporte Moderno, o impacto tende a ser mais crítico em nichos já pressionados pela falta de profissionais qualificados. No transporte de produtos perigosos, por exemplo, empresas operam com déficit de motoristas, o que limita a capacidade operacional. Veja matéria completa aqui.

“Há transportadoras que hoje estão com 50 motoristas a menos do que o necessário para completar o quadro. Se você altera a escala sem planejamento, esse número pode crescer ainda mais”, afirma Oswaldo Caixeta, presidente da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos.

Segundo o executivo, a necessidade de ampliar equipes para compensar a redução da jornada esbarra na dificuldade de encontrar profissionais habilitados para operações especializadas. “Se hoje já faltam 50, vai faltar muito mais. Isso é fato. E alguém vai pagar essa conta”, diz.

Modais de transporte impactados

A mudança na jornada tende a afetar de forma distinta os modais. No transporte rodoviário, responsável por cerca de 65% da movimentação de cargas no país, a redução da jornada pode exigir ampliação de equipes e reconfiguração de turnos, com impacto direto sobre custos e disponibilidade de motoristas.

No transporte aéreo de cargas, operações em terminais e centros logísticos dependem de jornadas contínuas, o que pode elevar a necessidade de mão de obra em solo e pressionar custos operacionais, especialmente em hubs urbanos.

Já no setor portuário, atividades como estufagem, desova e movimentação em pátio também operam em regime intensivo de turnos. A eventual redução da jornada pode afetar a produtividade dos terminais e aumentar o tempo de permanência das cargas.

Última milha e pressão operacional

Na logística urbana, especialmente em operações de e-commerce, a redução da jornada pode impactar a última milha, que depende de alta capilaridade e flexibilidade operacional. A necessidade de mais equipes pode pressionar custos e prazos de entrega, em um segmento já marcado por margens estreitas.

Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) indicam que cerca de 49 mil transportadoras atuam no transporte de produtos perigosos, dentro de um universo de aproximadamente 153 mil empresas — o que reforça o alcance sistêmico das mudanças.

Inflação no radar

O debate ocorre em um país com desafios estruturais de produtividade, o que amplia a sensibilidade a mudanças na jornada sem ganhos equivalentes de eficiência. Nesse contexto, a tendência é de aceleração de investimentos em automação, digitalização e reorganização operacional.

Com a logística presente em praticamente todas as cadeias produtivas, aumentos de custo no transporte tendem a se espalhar pela economia, com potencial impacto sobre inflação e competitividade industrial.

Para representantes do setor produtivo, a mudança exige abordagem segmentada e maior diálogo com as empresas. “Não dá para impor uma regra única para atividades tão diferentes. Existem operações em que simplesmente não é viável”, afirma Caixeta.

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