Fuga de indústrias para o Paraguai já muda logística do Sul

Avanço do regime do modelo de maquilas amplia fluxo de caminhões, pressiona infraestrutura e reposiciona portos brasileiros

Valeria Bursztein

A transferência de indústrias brasileiras para o Paraguai começa a produzir efeitos sobre a logística do Sul do país. O aumento das operações ligadas ao regime de maquila tem ampliado o fluxo de cargas em corredores rodoviários conectados à fronteira, pressionado a infraestrutura regional e levado operadores logísticos a rever estratégias de transporte e distribuição.

Nos últimos anos, o Paraguai consolidou-se como um dos principais destinos de empresas brasileiras interessadas em reduzir custos tributários, despesas operacionais e burocracia. Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai mostram crescimento contínuo do regime de maquila — modelo industrial criado para atrair empresas estrangeiras ao Paraguai por meio de incentivos fiscais e operacionais.

Na prática, o modelo permite que empresas importem insumos, componentes e matérias-primas com tributação reduzida ou suspensa, realizem a industrialização no país e depois exportem os produtos acabados. O modelo vem sendo impulsionado principalmente por empresas dos setores de autopeças, têxtil, eletroeletrônicos, alimentos e bens de consumo.

Ainda segundo dados do ministério, 223 das 332 indústrias enquadradas no regime de maquila em 2024 têm origem brasileira, o equivalente a 69% do total. O modelo registrou recorde histórico de exportações em 2025, superando US$ 1,3 bilhão, com o Brasil absorvendo 67% das vendas externas do programa.

Jean Carlos Rocha, CEO da ELO e Transporte Moderno / Divulgação

O reflexo desse crescimento começa a aparecer também no transporte de cargas. Segundo Jean Carlos Rocha, CEO da ELO, empresa de logística sediada em Itajaí (SC), houve aumento da demanda em rotas que conectam o Paraguai aos portos e centros logísticos do Sul do Brasil.

“Percebemos um aumento na demanda por corredores que ligam o Paraguai ao Sul do Brasil, especialmente em rotas de importação e exportação. Corredores como Foz do Iguaçu e a conexão com portos do Sul ganham mais relevância”, afirma.

Para Rocha, o avanço industrial do Paraguai modifica a dinâmica logística regional e exige maior integração operacional entre os países do Mercosul. “A logística deixa de ser só nacional e passa a ser mais integrada regionalmente, exigindo planejamento e inteligência operacional”, diz.

BR-277 e os gargalos operacionais

O principal eixo rodoviário desse fluxo é a BR-277, responsável pela ligação entre o Porto de Paranaguá e a fronteira com o Paraguai. A rodovia enfrenta problemas estruturais em um momento de aumento da circulação de veículos pesados. Dados da Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostram que 42,5% das estradas paranaenses apresentam condição regular e outros 8,3% foram classificados como ruins. Segundo a CNT, as condições das rodovias elevam em 24% o custo operacional do frete no estado.

Levantamento do SETCEPAR aponta ainda que a BR-277 concentrou 28% dos acidentes e 25% das mortes registradas nas rodovias federais do Paraná em 2025.

Rocha afirma que o corredor possui importância crescente para as operações ligadas ao Paraguai, mas já opera com limitações relevantes. “A BR-277 é hoje uma das principais artérias desse corredor, mas possui pontos críticos relevantes. Existem gargalos em trechos urbanos, limitações operacionais em períodos de alta demanda e desgaste estrutural causado pelo fluxo intenso de veículos pesados”, afirma.

Segundo ele, os impactos atingem toda a cadeia logística da região. “Filas em praças de pedágio, acidentes e paralisações geram impactos imediatos em toda a cadeia”, diz. O aumento das operações cross-border também tem levado empresas de transporte e logística a ampliar estruturas próximas à fronteira e reforçar operações aduaneiras.

O crescimento das maquilas paraguaias também altera a estratégia das transportadoras brasileiras que operam no Sul. Empresas do setor ampliam operações ligadas ao transporte internacional rodoviário, armazenagem e distribuição regional. Operadores logísticos observam ainda aumento da procura por serviços aduaneiros e estruturas voltadas ao comércio exterior.

Portos do Sul entram na disputa pelas cargas

O avanço das operações ligadas ao Paraguai também aumenta a concorrência entre os portos do Sul do país. Na visão de Rocha, terminais com maior eficiência operacional e melhor conexão rodoviária tendem a ganhar espaço na movimentação regional de cargas.

“Itajaí, pela sua localização e agilidade, pode se beneficiar bastante. O mesmo vale para Navegantes e Itapoá, que vêm ganhando relevância pela eficiência operacional e forte atuação no segmento de contêineres”, afirma. Já o Porto de Paranaguá mantém posição estratégica pela escala operacional e pela forte ligação com o agronegócio e o comércio exterior.

Para o executivo, a competitividade portuária depende cada vez mais da eficiência integrada da cadeia logística. “Porto competitivo hoje não é só cais. É toda a cadeia logística funcionando de forma integrada, com previsibilidade, velocidade e capacidade de atender a nova dinâmica regional”, afirma. O executivo acrescenta que este cenário de reorganização das rotas também reforça a importância dos corredores bioceânicos e da integração logística sul-americana em operações voltadas ao Pacífico e ao mercado asiático.

Perda industrial preocupa

Na avaliação de Rocha, o crescimento industrial do Paraguai evidencia problemas estruturais do ambiente de negócios brasileiro. “As empresas olham carga tributária, custo de energia, burocracia, legislação trabalhista e previsibilidade para investir. O Paraguai vem atraindo por esse pacote”, afirma.

O executivo avalia que a perda de operações industriais provoca a redução da movimentação logística e afeta a competitividade brasileira. “Se perde indústria, também perde movimentação logística, empregos e competitividade”, diz. Além da carga tributária, operadores do setor apontam custo energético menor e maior previsibilidade regulatória entre os fatores que ampliam a atratividade do Paraguai.

Para o CEO da ELO, o aumento das operações regionais exigirá investimentos em infraestrutura rodoviária, acessos portuários e digitalização dos processos logísticos e aduaneiros. “Hoje não basta ter caminhão rodando. Precisa ter fluxo inteligente. O Brasil precisa investir para ganhar eficiência, porque logística cara acaba tirando competitividade de toda a economia”, afirma.

O avanço industrial do Paraguai começa a deslocar não apenas fábricas, mas também fluxos logísticos estratégicos do Sul do Brasil, ampliando a disputa regional por infraestrutura, eficiência operacional e competitividade no transporte de cargas.

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