Grupo Maersk vê nova política de piso do frete acelerar migração para cabotagem

Obrigatoriedade do piso mínimo no transporte rodoviário leva embarcadores a rever custos e buscar alternativas logísticas mais baratas

Aline Feltrin

A política de frete mínimo no transporte rodoviário começa a produzir efeitos relevantes sobre a matriz logística brasileira — e já se reflete diretamente no avanço da cabotagem. Na avaliação da Aliança Navegação e Logística, braço de cabotagem do Grupo Maersk, a mudança tem acelerado a migração de clientes para o modal marítimo.

Segundo José Roberto Duque, head comercial da companhia, o cumprimento mais rigoroso da tabela de frete mínimo — definida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres — eliminou distorções históricas no transporte rodoviário e abriu espaço para a cabotagem ganhar competitividade.

“Antes, muitos embarcadores operavam com fretes abaixo do mínimo, especialmente em rotas de retorno, quando caminhões voltavam vazios e aceitavam cargas apenas para cobrir custos básicos. Isso acabou. Agora, com o piso obrigatório, o cliente precisa rever a conta — e a cabotagem entra como alternativa mais competitiva”, afirma.

Fim do “frete de retorno” muda a lógica

Na prática, a tabela mínima encareceu principalmente as chamadas rotas de descida — quando o caminhão retorna sem carga ou com baixa ocupação. Esse movimento elevou o custo total do transporte rodoviário e levou empresas a recalcular suas operações logísticas.

“Esse cliente que antes pagava abaixo do piso agora é obrigado a pagar o mínimo também na volta. Isso muda completamente a equação. Ele começa a colocar na ponta do lápis e a cabotagem passa a fazer mais sentido”, diz Duque.

A mudança ocorre em paralelo à alta do diesel, que também pressiona o custo do frete rodoviário. Segundo o executivo, há relatos de reajustes de até 25% no transporte terrestre, reforçando o movimento de busca por alternativas.

Crescimento pode chegar a 20% no ano

O impacto já começa a aparecer na demanda. Embora ainda recente — com cerca de dois meses de implementação mais efetiva —, a expectativa da companhia é de que a migração ganhe força ao longo do ano. “É cedo para cravar números, mas esse movimento deve ter um peso relevante. Eu diria que pode contribuir para algo próximo de 20% de crescimento ao longo do ano”, afirma Duque, ressaltando que a estimativa ainda é preliminar.

Setores com rotas mais curtas e maior sensibilidade a custos estão entre os primeiros a reagir. Entre eles, destacam-se materiais de construção, alimentos — como arroz — e cargas industriais com forte presença nas regiões Norte e Nordeste.

Apesar do cenário favorável no médio prazo, o desempenho da cabotagem no primeiro trimestre ficou aquém das expectativas da companhia, ainda que tenha registrado crescimento na comparação anual. Segundo Duque, o resultado foi impactado por efeitos pontuais de base de comparação. Em 2025, o início do ano foi atípico, impulsionado por uma forte seca em 2024 que represou cargas, especialmente na região de Manaus, e concentrou volumes no primeiro trimestre.

“Crescemos na comparação anual, com alta de dois dígitos, mas ficamos cerca de 10% abaixo do que esperávamos. O primeiro trimestre do ano passado foi muito forte, o que elevou a base de comparação”, explica. Além disso, embarcadores anteciparam volumes em 2025, temendo novas restrições logísticas no período de estiagem, o que reduziu a demanda no início de 2026.o

Historicamente, segundo o executivo, a cabotagem tende a ganhar tração em períodos de pressão nos custos logísticos — cenário que se repete agora com a combinação de frete mínimo e alta do diesel. “Em momentos de crise, a cabotagem cresce mais. Isso é histórico. Quando o cliente precisa reduzir custo, ele começa a olhar alternativas — e nós somos uma delas”, afirma.

Além do preço, a companhia destaca vantagens como menor emissão de CO₂, maior segurança contra roubos de carga e redução de avarias no transporte. Apesar do avanço, a cabotagem ainda representa uma parcela pequena da matriz de transporte brasileira — cerca de 3% a 4%, segundo o executivo, bem abaixo de países desenvolvidos, onde o índice chega a 30% ou mais. Para Duque, o crescimento do modal depende de uma mudança cultural e de maior integração entre empresas e políticas públicas.

“O navio ainda nem entra na lista de opções de muitos embarcadores no Brasil. Precisamos mudar isso. A diversificação de modais é positiva para todo o sistema logístico”, afirma. Ele também defende maior estímulo ao setor. “Quando houve crise no diesel, vimos medidas de incentivo ao rodoviário. Para a cabotagem, não houve nada. Todos os atores precisam olhar o modal como solução.”

Investimentos em infraestrutura

Para sustentar o crescimento, a Aliança tem ampliado investimentos em infraestrutura. Um dos destaques é a abertura de um novo depósito em Porto de Rio Grande, voltado a operações de cross docking e armazenagem de contêineres. A empresa também prepara a inauguração de um terminal no Porto de Suape com operação totalmente eletrificada, eliminando o uso de diesel em equipamentos internos.

Segundo Duque, a cabotagem já reduz em cerca de 90% as emissões de CO₂ em rotas como Santos–Manaus em comparação ao transporte rodoviário. A eletrificação dos terminais pode ampliar ainda mais esse ganho ambiental. Mesmo assim, ele reconhece que o custo ainda é o principal fator de decisão dos clientes. “Sustentabilidade é importante, mas ainda não é o primeiro critério. Quando custo e serviço se equivalem, aí sim ela passa a pesar.”

Na avaliação da Aliança, o conjunto de mudanças em curso — regulatórias, econômicas e operacionais — pode marcar um ponto de inflexão para a cabotagem no Brasil. A combinação entre frete mínimo, aumento de custos no rodoviário e maior oferta de soluções integradas tende a acelerar a participação do modal marítimo, ainda que de forma gradual.

“É uma mudança de cultura. A dor faz o cliente pensar diferente. E quando ele testa, percebe que a cabotagem pode ser parte relevante da operação”, afirma Duque. Para a empresa, o momento atual abre uma janela rara para reposicionar a cabotagem não apenas como alternativa, mas como elemento central na estratégia logística de grandes embarcadores no país.

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