A busca por recursos para reduzir uma dívida estimada em R$ 700 milhões levou o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Suape (PE), a avançar com um projeto de implantação de terminais de uso privado (TUPs) em uma área de 16 hectares pertencente à companhia. A informação foi divulgada inicialmente pelo portal Movimento Econômico, especializado na cobertura de economia e negócios do Nordeste.
A iniciativa integra a estratégia de recuperação judicial do estaleiro, iniciada em 2020, e reacendeu o debate sobre a expansão dos terminais privados em áreas próximas ao porto organizado de Suape. O projeto prevê a implantação de dois empreendimentos: um terminal destinado à movimentação de granéis líquidos, especialmente combustíveis, e outro voltado para cargas gerais.
Segundo o CEO do EAS, Roberto Brisolla, a proposta já recebeu anuência da Secretaria Nacional de Portos e Transportes Aquaviários e foi habilitada pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). O processo aguarda agora análise técnica e posterior deliberação da diretoria colegiada da agência reguladora.
Além da área inicialmente destinada aos projetos, futuras expansões poderão ocupar até 40 hectares atualmente sem utilização pelo estaleiro.
Monetização de ativos para reduzir passivos
A monetização de áreas sem utilização operacional tornou-se uma das principais frentes do plano de reestruturação financeira do estaleiro.
Uma operação semelhante já ocorreu em Suape com a venda da área destinada ao terminal de contêineres da APM Terminals, por aproximadamente R$ 500 milhões. A expectativa do EAS é alcançar valor semelhante na nova negociação.
Atualmente, o estaleiro atua principalmente no segmento de reparo naval e emprega cerca de mil trabalhadores. A área destinada aos futuros terminais não é considerada estratégica para as operações atuais da companhia, que ocupa aproximadamente 60 hectares de um terreno de cerca de 100 hectares.
A expectativa da empresa é que os recursos obtidos permitam reduzir significativamente o passivo financeiro e abrir espaço para uma eventual retomada de atividades industriais de maior porte.
O que aconteceu com os estaleiros brasileiros
A situação do EAS ajuda a explicar a crise enfrentada pela indústria naval brasileira após o fim do ciclo de encomendas associado ao pré-sal.
Inaugurado em 2010, o Estaleiro Atlântico Sul foi um dos principais símbolos da política de conteúdo local adotada durante a expansão da indústria de petróleo e gás. A unidade chegou a ser considerada uma das maiores da América Latina e participou da construção de navios para a Transpetro durante o período de maior crescimento do setor.
O cenário mudou com a Operação Lava Jato, a paralisação dos projetos da Sete Brasil e a redução das encomendas da Petrobras. Estaleiros que lideraram a expansão da indústria naval brasileira passaram a enfrentar dificuldades financeiras, paralisações e processos de recuperação judicial.
Casos como o próprio EAS, o Enseada, na Bahia, e o polo naval de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, tornaram-se exemplos do encolhimento de um setor que chegou a empregar dezenas de milhares de trabalhadores durante o auge dos investimentos offshore.
Depois de anos de retração, a renovação da frota da Transpetro, os financiamentos do Fundo da Marinha Mercante (FMM) e a retomada de investimentos da Petrobras voltaram a movimentar o setor. Ainda assim, especialistas avaliam que a recuperação da indústria naval dependerá da manutenção de uma carteira contínua de encomendas e de políticas de longo prazo capazes de evitar novos ciclos de expansão e colapso.
Expansão da refinaria sustenta projeto
A principal justificativa econômica apresentada pelo EAS para os novos terminais está ligada à expansão da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), também localizada em Suape.
A Petrobras investe na ampliação da unidade, que deverá dobrar sua capacidade de processamento para cerca de 260 mil barris de petróleo por dia até o fim da década.
Segundo estudos apresentados pelo estaleiro, o futuro terminal de granéis líquidos poderia absorver até 20% do volume adicional de petróleo e derivados movimentado pela refinaria após a conclusão das obras.
Já o terminal de carga geral teria foco na movimentação de equipamentos industriais, aço e cargas de projeto destinadas aos setores naval, energético e de infraestrutura.
Os investimentos previstos para os dois empreendimentos podem alcançar R$ 1 bilhão.
Porto organizado versus terminais privados
A proposta do EAS, porém, enfrenta resistência dentro do complexo portuário.
A implantação dos TUPs é vista por parte dos atores ligados ao porto organizado como um potencial fator de desequilíbrio concorrencial. O argumento é que empresas arrendatárias pagam tarifas portuárias e valores de arrendamento, enquanto os terminais privados operam sob um modelo regulatório diferente e não estão sujeitos aos mesmos encargos.
Na avaliação do EAS, entretanto, os futuros terminais deverão atender principalmente a novas demandas associadas à expansão da refinaria e a projetos industriais previstos para a região, sem disputar diretamente as cargas atualmente movimentadas pelos operadores instalados em Suape.
Disputa que vai além de Pernambuco
A disputa em Suape expõe uma discussão que já aparece em outros complexos portuários do país: os limites da expansão dos terminais privados em regiões que possuem portos organizados.
Nos últimos anos, os TUPs ampliaram sua participação na movimentação portuária brasileira impulsionados por investimentos próprios e pela expansão de cadeias ligadas ao agronegócio, combustíveis, mineração e indústria. Atualmente, mais de 65% das cargas movimentadas pelos portos brasileiros passam por instalações privadas.
Em Suape, o embate ocorre justamente no momento em que o complexo recebe uma nova rodada de investimentos em logística, combustíveis, energia e infraestrutura portuária.
Além da ampliação da Refinaria Abreu e Lima, o porto se prepara para a entrada em operação do terminal de contêineres da APM Terminals e para novos projetos industriais ligados à cadeia de petróleo e gás.
Dados da administração portuária mostram que Suape movimentou cerca de 24 milhões de toneladas de cargas em 2025, mantendo-se entre os principais complexos portuários públicos do país e reforçando sua posição estratégica para a logística do Nordeste.
Decisão poderá influenciar expansão portuária
A decisão da Antaq sobre os terminais propostos pelo EAS terá impacto que vai além da recuperação judicial do estaleiro.
O processo poderá indicar como o governo pretende acomodar a expansão dos terminais privados em um complexo portuário que recebe uma nova onda de investimentos em petróleo, energia, indústria e logística. O resultado dessa discussão poderá influenciar não apenas o futuro do EAS, mas também o modelo de desenvolvimento portuário que deverá prevalecer em Suape nos próximos anos.
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