A descarbonização passou a orientar decisões de investimento nos terminais portuários privados no Brasil, com projetos que envolvem eletrificação de equipamentos, uso de energia renovável e preparação para novos combustíveis. O avanço ocorre em um ambiente ainda marcado por incertezas sobre demanda, regulação e retorno financeiro, o que tem levado operadores a calibrar o ritmo de expansão dessas iniciativas.
Segundo a Associação de Terminais Portuários Privados (ATP), entidade que reúne empresas responsáveis por cerca de 60% da movimentação portuária brasileira, a agenda climática deixou de ser periférica e passou a influenciar decisões operacionais e de longo prazo.
“Os terminais têm três vertentes principais de atuação na descarbonização: a própria operação, o apoio às embarcações e a atuação como produtores de energia”, afirma Gabriela Costa, diretora-executiva da ATP.

Eletrificação avança, mas exige infraestrutura
Na operação interna, a principal frente é a eletrificação de equipamentos e o uso de fontes renováveis. Em terminais de contêineres, a conversão de RTGs — guindastes utilizados na movimentação de cargas — já se aproxima de um padrão operacional em instalações mais recentes.
O movimento tende a se intensificar com novos projetos, como o terminal da APM Terminals em Suape (PE), que deve operar com eletrificação integral — modelo já adotado em hubs europeus e asiáticos.
A expansão, no entanto, esbarra na necessidade de reforço da infraestrutura elétrica. Sistemas de maior capacidade de carga e integração com fontes renováveis exigem investimentos adicionais fora do perímetro dos terminais, o que depende de coordenação com distribuidoras e planejamento energético.
Apoio aos navios e nova lógica energética
A segunda frente envolve o suporte às embarcações, em linha com as metas da International Maritime Organization(IMO), que estabeleceu a redução das emissões do transporte marítimo internacional em pelo menos 50% até 2050, com avanço para neutralidade de carbono ao longo da década.
Nesse contexto, ganham espaço soluções como o OPS (Onshore Power Supply), que permite ao navio desligar motores auxiliares e se conectar à rede elétrica durante a estadia no porto. Em mercados como Europa e China, o uso da tecnologia já é incentivado por regulação e subsídios.
No Brasil, a adoção ainda é incipiente e depende da adaptação simultânea da frota. “Os terminais passam a oferecer infraestrutura e s benefícios ambientais e até de redução de custos operacionais são evidentes, mas ainda não está claro em que velocidade os armadores vão aderir a essas soluções”, diz Gabriela.
Além disso, os terminais se preparam para armazenagem e abastecimento de combustíveis alternativos, como hidrogênio verde e amônia, o que exige protocolos operacionais mais complexos e capacitação técnica das equipes.
Investimento elevado
O principal entrave está na equação econômica. Projetos de OPS, por exemplo, podem exigir investimentos de dezenas a centenas de milhões de reais por terminal, a depender da escala e da infraestrutura elétrica associada — patamar semelhante ao observado em portos europeus que já implantaram a tecnologia.
“São investimentos caros e de risco alto, porque ainda não está claro qual será o comportamento do mercado”, afirma a executiva.
Na prática, a demanda potencial ainda é limitada. Mesmo em terminais que já instalaram a infraestrutura, apenas parte das rotas operadas atualmente está apta a utilizar o sistema, o que restringe a geração de receita no curto prazo.
Esse descompasso pressiona o prazo de amortização e reforça a cautela dos operadores na expansão dos projetos.
Regulação e financiamento
A agenda regulatória ainda está em construção. A ATP mantém diálogo com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e com o Ministério de Portos e Aeroportos para alinhar normas à realidade operacional do setor.
“O papel do governo, neste momento, é entender o estágio do setor e estimular as iniciativas, mais do que impor exigências. Existe uma diversidade muito grande entre os terminais, que têm infraestruturas e operações diferentes”, afirma Costa.
No financiamento, instrumentos como o Fundo da Marinha Mercante (FMM) passaram a incluir infraestrutura portuária após mudanças recentes na legislação. Também ganham espaço mecanismos como green bonds e sustainability bonds, que já financiam projetos de infraestrutura sustentável em mercados internacionais, mas ainda exigem previsibilidade de retorno e governança robusta.
Competitividade e risco de custo
A transição energética tende a impactar a estrutura de custos do setor. Parte dos investimentos pode ser incorporada às tarifas portuárias, especialmente em complexos públicos, embora também haja espaço para políticas de incentivo, como descontos para embarcações de menor emissão.
A avaliação da ATP é que o Brasil parte de uma posição competitiva, com iniciativas já em curso e casos de inovação reconhecidos internacionalmente. Ainda assim, a consolidação da descarbonização como padrão dependerá da coordenação entre terminais, armadores, governo e financiadores.
“A descarbonização vai deixar de ser diferencial e passar a ser condicionante de mercado”, afirma Gabriela. “O terminal que não acompanhar esse movimento tende a perder competitividade nas cadeias globais.”
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