O aumento recente dos custos do querosene de aviação (QAV) é resultado direto de tensões geopolíticas internacionais e não de fatores domésticos, segundo avaliação do professor de logística, transporte e planejamento de operaçãoes e supply chain da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Paulo Resende. A pedido da Agência Transporte Moderno, o especialista avaliou que o cenário está fortemente associado à escalada do conflito envolvendo o Irã e seus impactos sobre o mercado global de petróleo — o que afeta diretamente a aviação civil.
A leitura ocorre no momento em que o governo anunciou um pacote emergencial de medidas para conter a alta dos combustíveis e reduzir o impacto no setor aéreo, em meio a preocupações com inflação de passagens e possível ajuste da malha de voos.
Segundo Resende, não há fatores internos que justifiquem a alta recente do combustível de aviação. O movimento, afirma, é essencialmente externo e responde à pressão sobre oferta e logística global de petróleo. “O que explica essa alta é principalmente a guerra com o Irã e suas consequências sobre o suprimento mundial. O querosene é um derivado direto do petróleo e reage imediatamente a qualquer choque de oferta ou logística”, afirma.
Combustível pode representar até 45% do custo
O impacto do QAV é particularmente sensível para o setor aéreo. Segundo o professor da FGV, o combustível pode representar entre 30% e 45% dos custos operacionais das companhias, tornando qualquer variação um fator crítico para tarifas e rentabilidade. “O querosene está entre os três principais itens de custo da aviação. Quando se soma isso à mão de obra, o impacto no custo final é muito relevante”, diz Resende. Na avaliação do especialista, o cenário atual é pontual e não estrutural, desde que haja estabilização do cenário geopolítico.
Como resposta ao aumento do querosene de aviação, o governo federal anunciou um pacote emergencial com medidas voltadas a reduzir custos imediatos do setor aéreo. Entre as principais ações estão a zeragem das alíquotas de PIS/Cofins sobre o QAV, com impacto estimado de redução no preço do combustível, além da criação de duas linhas de crédito: uma via Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), voltada à reestruturação financeira das companhias, e outra para capital de giro, com garantia da União.
O pacote também prevê a postergação do pagamento de tarifas de navegação aérea referentes aos meses de abril a junho para o fim do ano, além de articulação com a Petrobras para permitir o parcelamento do reajuste do combustível pelas distribuidoras. Segundo o governo, o objetivo é preservar a conectividade aérea e evitar repasses imediatos aos preços das passagens.
Risco de cortes de rotas e ajuste de malha aérea
Apesar do caráter temporário, o prolongamento do conflito pode gerar efeitos relevantes sobre a malha aérea global e doméstica. Entre os possíveis desdobramentos estão redução de frequência de voos e até cancelamento de rotas. Para o professor da FGV, esse efeito tende a ser mais sensível na aviação regional, que depende diretamente da conectividade com hubs nacionais e internacionais. “Se houver continuidade da crise, pode haver revisão de malha e até cancelamento de rotas. Isso impacta especialmente a aviação regional”, afirma.
Outro ponto de atenção é o transporte de cargas aéreas, especialmente produtos de alto valor agregado e baixo peso — segmento fortemente dependente do modal aéreo no Brasil e no comércio internacional. Resende avalia que parte dessas cargas dificilmente migraria para outros modais, exceto em cenários específicos de reorganização logística. “O impacto será forte no comércio eletrônico, que depende muito da aviação e das importações”, diz.
Pressão sobre passagens depende da duração da crise
No curto prazo, o repasse para o preço das passagens tende a ser limitado. Porém, uma continuidade do choque de preços pode tornar inevitável o reajuste tarifário.
“O limite das políticas de contenção existe. Se a crise durar muito, não será possível segurar os preços das passagens”, afirma. Para o especialista, o principal afetado por esse cenário é o consumidor final, que pode sentir tanto o aumento de preços quanto a redução da oferta de voos. “Quem perde é o consumidor. Mesmo sem aumento imediato de tarifas, pode haver queda de demanda e voos mais vazios”, afirma.
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