A seca dos rios amazônicos deixou de ser apenas uma questão sazonal para as empresas que movimentam cargas com origem ou destino em Manaus. Em 2026, a queda do nível das águas voltou a exigir mudanças na operação, com antecipação de cargas, estruturas flutuantes e alternativas de transbordo para evitar que as restrições de navegação comprometam o abastecimento do Polo Industrial de Manaus (PIM).
O Super Terminais é um dos operadores que incorporaram esse risco ao planejamento. A empresa investiu cerca de R$ 650 milhões nos últimos dois anos em infraestrutura, tecnologia e expansão no Amazonas e mantém uma estrutura preparada para ser transferida de Manaus para Itacoatiara caso a vazante impeça a chegada de grandes navios à capital.
A solução consiste em deslocar parte da estrutura flutuante para Itacoatiara, onde os contêineres podem ser recebidos e posteriormente encaminhados para Manaus. O modelo já foi utilizado em 2024 e poderá ser novamente acionado se as condições de navegabilidade se deteriorarem.
“Este é um momento especialmente desafiador para o Amazonas. A estiagem e as queimadas já afetam a rotina da população e, com a piora da qualidade do ar, exigem atenção também à saúde. No setor logístico, sabemos que as condições climáticas podem trazer impactos para a navegação, como a redução do nível dos rios, a perda de visibilidade e a dificuldade de movimentação em diferentes trechos”, afirma Marcello Di Gregorio, diretor-geral do Super Terminais.
Segundo o executivo, a preparação antecipada é necessária para reduzir o risco de interrupções. “No Super Terminais, já estamos preparados para replicar a operação realizada em 2024 e transferir parte da nossa estrutura flutuante para Itacoatiara”, diz.
Alternativas para a baixa dos rios
A estratégia não é exclusiva do Super Terminais. Em setembro, o Grupo Chibatão iniciou o deslocamento de seu píer flutuante para Itacoatiara para mitigar os efeitos da estiagem e manter o abastecimento de insumos e mercadorias destinados ao Polo Industrial de Manaus e ao comércio regional.
A estrutura permite realizar o transbordo de cargas quando as condições do rio impedem que navios de maior porte avancem até Manaus. Segundo o grupo, a experiência adquirida na operação de 2024 levou à revisão dos processos para reduzir o tempo necessário para o alívio das cargas. A previsão é que um navio leve cerca de 28 horas nessa etapa, com a operação completa estimada em 48 horas.
Outra solução vem da Combitrans, operadora logística que atua nos modais rodoviário e fluvial. A empresa utiliza as balsas SW (Swimming Warehouse), concebidas como armazéns flutuantes, para transportar sementes, fertilizantes e outros insumos agrícolas.
As embarcações têm capacidade para até 3.400 toneladas por viagem e menor calado, característica que permite manter a regularidade do transporte mesmo quando os rios estão em níveis mais baixos. A empresa também monitora os níveis dos rios para antecipar períodos críticos e orientar os clientes sobre o melhor momento para expedir as mercadorias.
A solução ganha importância especialmente para cargas agrícolas, que precisam chegar dentro de uma janela específica de plantio. Nesse caso, esperar a recuperação do nível dos rios pode significar perder o período adequado para utilização dos insumos.
A Combitrans também trabalha com a antecipação de cargas e reforço de estoques antes dos períodos de maior restrição. A estratégia combina armazenagem, transporte fluvial e planejamento das expedições para reduzir a exposição dos clientes às oscilações da navegação.
Armadores também antecipam operações
Entre os armadores, a Maersk adotou uma estratégia semelhante de planejamento antecipado. Em julho, a companhia passou a monitorar de forma mais intensa as condições dos rios e os possíveis efeitos da seca de 2026 sobre a capacidade de navegação.
Em agosto, a empresa informou que o período de maior impacto operacional era esperado entre as semanas 42 e 47 do ano. Caso os níveis dos rios chegassem a determinados patamares, a operação poderia exigir o uso de píer flutuante em Itacoatiara, descarga parcial ou total de contêineres, transbordo, armazenagem temporária e reposicionamento de equipamentos.
A estratégia mostra que a seca interfere não apenas na capacidade de navegação, mas em toda a configuração da cadeia. Quando um navio não consegue chegar a Manaus com sua carga completa, entram em cena operações adicionais de transbordo, armazenagem e transporte entre diferentes pontos da bacia amazônica.
Pacote amplo de investimentos
No caso do Super Terminais, a preparação para períodos de vazante faz parte de um pacote mais amplo de investimentos. Dos R$ 650 milhões aplicados nos últimos dois anos, cerca de R$ 400 milhões foram destinados à operação em Manaus.
Entre os projetos estão três guindastes elétricos fabricados na Alemanha, com investimento de R$ 120 milhões, e a ampliação do cais, que passou de quatro para seis berços de atracação. A empresa também investe R$ 30 milhões em uma usina de gás natural para as operações portuárias, em parceria com o Governo do Amazonas e a Cigás. Segundo a companhia, a substituição do diesel poderá evitar a emissão de aproximadamente 17 mil toneladas de CO₂ por ano.
No primeiro semestre de 2026, o terminal movimentou 138.035 TEUs e projeta superar 300 mil TEUs até o fim do ano. A operação conta atualmente com entre 600 e 700 empregados diretos. A outra frente dos investimentos está em Itacoatiara, onde o Super Terminais aplica R$ 250 milhões no Super Porto Verde, terminal voltado principalmente à movimentação de grãos e fertilizantes.
O empreendimento ocupará 300 mil metros quadrados e terá um píer flutuante de 240 metros, três guindastes elétricos e capacidade de movimentação de até 2.100 toneladas por hora. O projeto prevê operação simultânea de um navio Panamax de até 50 mil toneladas e seis barcaças, com conclusão do transbordo em até 36 horas.
A localização, próxima à confluência dos rios Amazonas e Madeira e a cerca de 175 quilômetros de Manaus, também coloca Itacoatiara no centro da estratégia de diversificação do grupo. Além de funcionar como alternativa operacional durante períodos de restrição à navegação, o terminal amplia a atuação da empresa no corredor do Arco Norte.
A seca, portanto, começa a ser incorporada ao planejamento da cadeia logística amazônica como uma variável operacional que exige preparação antecipada. Em vez de depender exclusivamente das condições de navegação até Manaus, empresas passaram a combinar estruturas flutuantes, transbordo, armazenagem, antecipação de cargas e pontos alternativos de operação para manter o fluxo de mercadorias mesmo quando os rios deixam de oferecer as condições normais de navegação.
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