Nova rota acirra disputa entre terminais de Suape

Serviço semanal de Maersk e MSC amplia conexões com Estados Unidos e México em meio a conflito entre APM Terminals e ICTSI por cargas e investimentos

Valeria Bursztein

A chegada de uma nova rota marítima semanal entre o Porto de Suape, em Pernambuco, e mercados dos Estados Unidos, México e Colômbia amplia as conexões internacionais do Nordeste, mas também acrescenta um novo capítulo à disputa por cargas entre dois operadores portuários internacionais.

O serviço UCLA, operado pelos armadores Maersk e MSC, terá escalas no terminal da APM Terminals, inaugurado em setembro com investimentos superiores a R$ 2 bilhões, em um momento de crescente tensão comercial com o Tecon Suape, administrado pelo grupo filipino ICTSI.

A nova linha conecta Pernambuco aos portos de Veracruz e Altamira, no México, Houston, nos Estados Unidos, e Cartagena, na Colômbia, além de terminais das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Segundo a APM Terminals, os tempos de trânsito estimados são de 26 dias para Veracruz, 24 dias para Altamira, 21 dias para Houston e 11 dias para Cartagena.

A primeira escala da nova configuração do serviço será realizada pelo porta-contêineres MSC Yamuna VI, conforme a programação divulgada. Suape será o primeiro porto do Nordeste a integrar a rota, que também contempla conexões com Santos, Itapoá, Paranaguá e Itajaí.

Entre as cargas com potencial de movimentação estão plásticos, borracha e derivados, utilizados por diferentes segmentos industriais, incluindo o automotivo, além de produtos químicos orgânicos. A conexão amplia as alternativas de transporte para empresas que dependem do abastecimento internacional de matérias-primas e componentes industriais.

Disputa por cargas pressiona Tecon Suape

A chegada do novo serviço ocorre em meio a um conflito comercial e regulatório entre a APM Terminals, subsidiária do grupo dinamarquês Maersk, e a ICTSI, responsável pela operação do Tecon Suape desde 2001.

A disputa ganhou força após a decisão da Maersk de transferir suas operações para o terminal do próprio grupo. Posteriormente, a ICTSI informou ter sido notificada sobre a intenção da MSC de também deixar o Tecon Suape, ampliando as preocupações com a perda de movimentação.

Em entrevista concedida anteriormente à Agência Transporte Moderno, Thomas Lima, CEO do Tecon Suape, afirmou que o terminal movimentou aproximadamente 720 mil TEUs em 2025 e poderia registrar uma redução para cerca de 450 mil TEUs anuais com a saída das cargas da Maersk.

O volume projetado ficaria abaixo do ponto de equilíbrio operacional, estimado em 550 mil TEUs por ano. A projeção, entretanto, foi elaborada antes da comunicação envolvendo a MSC e não contempla uma eventual perda adicional de cargas da armadora suíça.

A ICTSI levou questionamentos sobre as condições de concorrência ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e ao Tribunal de Contas da União (TCU). A companhia questiona os possíveis efeitos da integração entre armadores e operadores portuários sobre a distribuição de cargas no complexo.

Um dos principais pontos da discussão é a chamada integração vertical, modelo no qual empresas de navegação marítima também participam da operação de terminais portuários. No caso da APM Terminals, a companhia pertence ao mesmo grupo econômico da Maersk, o que permite ao armador direcionar suas operações para uma instalação própria.

A ICTSI argumenta que essa configuração pode favorecer a transferência de volumes anteriormente movimentados pelo terminal arrendado. A integração entre armadores e terminais, entretanto, não caracteriza, por si só, uma infração concorrencial, dependendo da análise das condições de mercado e de seus efeitos sobre a competição.

Novo terminal amplia capacidade do complexo

A disputa ocorre deposi da entrada em operação da APM Terminals Suape, empreendimento instalado em uma área do antigo Estaleiro Atlântico Sul. Com capacidade inicial de 400 mil TEUs anuais, o terminal foi projetado para ampliar em aproximadamente 55% a capacidade de movimentação de contêineres do complexo portuário pernambucano.

A instalação recebeu investimentos superiores a R$ 2 bilhões e é apresentada pela empresa como o primeiro terminal de contêineres 100% eletrificado da América Latina. O empreendimento utiliza equipamentos eletrificados e sistemas de operação remota, em uma estrutura voltada ao atendimento de serviços de cabotagem e navegação internacional.

O início das operações comerciais ocorreu em setembro, com a chegada do navio Maersk Ganges, integrante do serviço de cabotagem ALCT2, que conecta Suape a portos como Pecém, Salvador, Santos, Itapoá, Rio Grande e Imbituba. A linha oferece duas escalas semanais.

A inclusão do serviço UCLA amplia o portfólio de conexões do novo terminal e representa mais uma etapa na estratégia de atração de cargas e serviços marítimos internacionais.

Movimentação de contêineres

A entrada da APM Terminals modificou a estrutura concorrencial de Suape, que durante mais de duas décadas concentrou a movimentação de contêineres no terminal administrado pela ICTSI.

A coexistência de dois operadores internacionais amplia a oferta de infraestrutura portuária, mas também intensifica a disputa por armadores e volumes de carga. Para importadores e exportadores, a maior disponibilidade de terminais e conexões marítimas pode representar novas alternativas logísticas, embora os efeitos sobre custos e qualidade dos serviços dependam das condições efetivas de concorrência.

A nova rota também coloca em discussão uma questão importante para o futuro do complexo: em que medida os serviços atraídos pela APM Terminals representarão crescimento efetivo da movimentação de contêineres em Suape ou apenas a transferência de volumes anteriormente operados pelo Tecon.

Essa distinção será determinante para avaliar os efeitos da expansão da infraestrutura sobre a competitividade regional e a sustentabilidade econômica dos investimentos existentes.

Enquanto a APM Terminals amplia suas conexões internacionais, a ICTSI busca preservar as condições de operação do terminal arrendado. O desdobramento da disputa poderá influenciar não apenas a distribuição de cargas em Suape, mas também o debate sobre a concorrência entre terminais públicos arrendados e instalações privadas no setor portuário brasileiro.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Aviso de reprodução Este conteúdo pode ser compartilhado com responsabilidade

Este conteúdo pode ser reproduzido, desde que seja citada a fonte com link: Agência Transporte Moderno. Respeitar a autoria e indicar a origem da informação contribui para fortalecer o bom jornalismo e a produção de conteúdo confiável.