Imagine um caminhão de mais de 30 toneladas entrando em um canavial e seguindo uma rota previamente definida sem depender o tempo todo dos comandos de um motorista. Ele precisa acompanhar a linha de plantio, manter o trajeto mesmo em um terreno irregular e, principalmente, evitar passar por cima dos brotos que permanecem no solo depois da colheita. É esse o trabalho do Agronomous, caminhão semiautônomo que será utilizado pela Adecoagro durante a safra 2026–2027.
A tecnologia foi desenvolvida para uma etapa específica da colheita mecanizada da cana-de-açúcar: o transbordo. Nessa operação, os veículos acompanham as colhedoras, recebem a cana cortada e transportam o material até os pontos de descarregamento. Como circulam muito próximos às linhas de plantio, pequenos desvios podem provocar o chamado pisoteio da soqueira — quando os pneus passam sobre os brotos que darão origem à próxima safra.
É aí que entra a automação. O Agronomous utiliza um sistema de georreferenciamento para reconhecer a rota programada e manter o caminhão alinhado ao longo do canavial. Em vez de depender apenas da percepção humana para acompanhar as linhas, o veículo recebe informações de posicionamento que permitem executar o trajeto com maior precisão.
A tecnologia será empregada pela Adecoagro, uma das principais produtoras de açúcar, etanol e energia renovável da América do Sul. O caminhão foi desenvolvido pela BMB Mode Center, empresa do Grupo VAMOS especializada em engenharia e customização de veículos para aplicações específicas.
O projeto parte de uma plataforma 8×4 preparada para operações severas. O veículo também utiliza pneus de alta flutuação, solução que busca reduzir a compactação do solo e aumentar a estabilidade em terrenos agrícolas. A combinação de automação, georreferenciamento e configuração do veículo foi pensada para fazer o caminhão trabalhar dentro do canavial sem interferir nas linhas de plantio.
Por que não pisar nos brotos importa?
A cana-de-açúcar não termina de produzir quando a máquina passa pela lavoura. Depois do corte, a soqueira permanece no solo e dá origem aos próximos ciclos da plantação. Por isso, preservar esses brotos é uma das preocupações da operação agrícola.
Um caminhão que sai alguns centímetros da trajetória planejada pode atingir a linha de plantio. Em uma operação repetida milhares de vezes durante a safra, pequenos desvios podem se transformar em perdas de produtividade e reduzir a longevidade do canavial.
A proposta do Agronomous é justamente reduzir esse tipo de ocorrência. Ao seguir uma rota predefinida com maior precisão, o veículo pode manter o transbordo dentro do corredor estabelecido para a operação.
“Não estamos apenas alugando caminhões; estamos entregando precisão dentro do canavial. O Agronomous na safra da Adecoagro prova que a automação no campo não é mais futuro, é o padrão de eficiência para quem quer escala com sustentabilidade”, afirma José Geraldo Júnior, vice-presidente da VAMOS.
Um caminhão feito para uma operação específica
O Agronomous não é simplesmente um caminhão convencional equipado posteriormente com recursos de automação. O projeto foi desenvolvido para atender às características do trabalho agrícola. A configuração 8×4 proporciona capacidade para operações severas, enquanto o sistema de georreferenciamento é responsável por manter o veículo na trajetória programada. Os pneus de alta flutuação completam a configuração para o trabalho em terrenos agrícolas, onde as condições de piso podem mudar ao longo do dia.
“O diferencial do Agronomous está em transformar tecnologia em resultado. Ao eliminar desvios no transbordo e reduzir danos aos brotos, a solução contribui para aumentar a longevidade do canavial e preservar o investimento ao longo das safras”, afirma Bernardo Balbinot, diretor de operações da BMB Mode Center.
O que é um caminhão semiautônomo?
Apesar do nome semiautônomo, o Agronomous não deve ser confundido com um caminhão totalmente autônomo capaz de operar sem qualquer intervenção humana.
A proposta é automatizar parte da condução dentro de uma área controlada e com rotas previamente definidas. Isso é particularmente importante no ambiente agrícola, onde as operações podem ser repetitivas e seguir trajetos conhecidos, mas também estão sujeitas a mudanças de terreno, obstáculos e outras variáveis.
É uma aplicação diferente, portanto, daquela que começa a ser testada em rodovias para transporte de longa distância. No canavial, a automação pode ser utilizada em um ambiente delimitado e para resolver um problema bastante específico: manter o veículo no lugar certo durante o transbordo.
A tecnologia chega em uma safra maior
A utilização do Agronomous ocorre durante a safra 2026–2027 do Centro-Sul. Segundo estimativas da SCA Brasil, a moagem da região deve alcançar 629 milhões de toneladas, ante 610 milhões de toneladas projetadas para o ciclo anterior.
O cenário também combina mudanças no mix de produção das usinas e atenção às condições climáticas. A expectativa da SCA Brasil é de redução da participação do açúcar no mix, de cerca de 51% para 48%, com maior participação do etanol. Nesse ambiente, aumentar a quantidade de cana processada não depende apenas da capacidade das colhedoras. O fluxo de veículos que retira a cana da lavoura também precisa acompanhar o ritmo da operação.
É nesse ponto que soluções como o Agronomous entram na equação. Ao combinar caminhão, automação e georreferenciamento, a proposta é reduzir interferências no canavial e tornar mais previsível uma das etapas que conectam a colheita ao transporte da matéria-prima.
Para a VAMOS, o projeto também faz parte da estratégia de ampliar a utilização de locação de veículos pesados no agronegócio. A empresa afirma que a locação pode reduzir, em média, até 30% os custos operacionais em comparação com a aquisição direta, além de permitir a utilização de equipamentos customizados sem a imobilização de capital na compra do veículo.
“O Agronomous é um exemplo de como engenharia, customização e tecnologia podem ser aplicadas para resolver desafios específicos do campo. Ao integrar essas soluções ao modelo de locação, conseguimos ampliar o acesso dos clientes a equipamentos de alta performance”, afirma José Geraldo Júnior.
No caso da Adecoagro, o teste acontece em uma situação real: milhares de toneladas de cana precisam sair do campo todos os dias, enquanto os veículos responsáveis pelo transbordo precisam encontrar um equilíbrio entre velocidade, capacidade de transporte e cuidado com a próxima safra.
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