Os principais gargalos marítimos do mundo estão se transformando em um risco cada vez maior para o comércio internacional. É o que aponta uma análise do Boston Consulting Group (BCG), segundo a qual cinco pontos estratégicos afetados por interrupções desde 2021 concentram cerca de um terço do comércio marítimo global.
O estudo, publicado em 24 de agosto, cita o Canal de Suez, o Canal do Panamá, o Estreito de Bósforo, o Estreito de Bab al-Mandab e o Estreito de Ormuz. As interrupções tiveram origens diferentes, que vão de acidentes operacionais e restrições provocadas por eventos climáticos a conflitos armados e ataques deliberados.
A dimensão do risco é explicada pela dependência do comércio internacional do transporte marítimo. Cerca de 80% do comércio mundial, em volume, é movimentado por via marítima e boa parte desse fluxo passa por aproximadamente uma dúzia de gargalos estratégicos. Para a BCG, a concentração cria uma vulnerabilidade que pode se transformar rapidamente em aumento de custos e perda de previsibilidade para embarcadores e operadores logísticos.
Desvios podem aumentar milhares de quilômetros
Quando uma rota pode ser substituída, o desvio nem sempre representa uma solução simples. Segundo a consultoria, uma viagem entre o sudeste e o nordeste da Ásia que normalmente utiliza o Estreito de Taiwan ou o Estreito de Luzon pode passar de cerca de 4 mil quilômetros para aproximadamente 5,5 mil quilômetros caso os dois pontos estejam fechados. Isso representa aumento de 27% na distância.
Em outros gargalos, o impacto potencial é ainda maior. A BCG calcula que desvios podem elevar a distância percorrida em 85% no caso de Gibraltar, 47% no Canal do Panamá, 46% no Canal de Suez e 44% em Bab al-Mandab.
O problema não está apenas no combustível adicional. Viagens mais longas mantêm os navios ocupados por mais tempo e reduzem o número de viagens que uma mesma frota consegue realizar. Com menos capacidade disponível, os embarcadores passam a disputar espaço, pressionando ainda mais as tarifas.
A consequência pode ser uma reação em cadeia: fretes maiores, prazos mais longos, estoques de segurança mais elevados e aumento do custo dos produtos.
Nem todos os setores estão igualmente expostos
A vulnerabilidade também varia de acordo com o tipo de carga. A BCG estima que aproximadamente 95% do volume comercializado pelo setor de mineração e 89% do comércio de energia são transportados por navios.
No setor de energia, cerca de 30% do comércio marítimo passa pelo Estreito de Ormuz. Já aproximadamente 55% do comércio marítimo de máquinas e equipamentos elétricos utiliza três estreitos asiáticos: Malaca, Taiwan e Luzon.
A indústria automotiva apresenta um perfil diferente. Embora não esteja concentrada em um único gargalo, uma parcela significativa dos componentes utilizados na fabricação de veículos passa por diferentes pontos estratégicos. Pneus e câmaras estão entre os itens mais expostos, com cerca de um terço do comércio marítimo passando pelos Estreitos de Taiwan, Luzon e Malaca.
O cenário também afeta produtos ligados à transição energética. Segundo a consultoria, cerca de 55% do comércio marítimo de equipamentos para geração de energia limpa passa pelo Estreito de Taiwan ou pelo Estreito de Luzon.
Crise marítima pode atingir transporte aéreo e terrestre
Uma das conclusões mais relevantes para o setor de transporte é que a migração para outros modais nem sempre resolve o problema.
A BCG destaca que, diante do fechamento de um gargalo marítimo, empresas podem tentar transferir cargas para o transporte aéreo ou para rotas terrestres. Porém, esses modais também possuem limites de capacidade e podem ficar mais caros justamente quando a demanda aumenta.
No caso da atual crise no Oriente Médio, a capacidade de carga aérea pelos principais hubs do Golfo chegou a cair 80% ou mais em relação aos níveis anteriores ao conflito, segundo a consultoria.
Isso significa que uma interrupção marítima pode provocar efeitos em toda a matriz logística. Quando uma parte da carga migra para outros modais, a pressão deixa de ser exclusivamente sobre o transporte marítimo e passa a atingir também a aviação e o transporte terrestre.
Duração da interrupção muda o tamanho do problema
Outro fator determinante é o tempo de duração da crise. Para a BCG, uma interrupção de duas semanas pode ser administrada principalmente como um problema de estoque. Empresas conseguem recorrer temporariamente a estoques de segurança e outros mecanismos de proteção.
Quando a interrupção se prolonga por meses, porém, o problema se torna estrutural. Nesse cenário, as empresas precisam encontrar novas rotas, fornecedores alternativos ou até redesenhar parte de suas cadeias de suprimentos.
O risco também permanece mesmo depois da reabertura de uma rota. Durante uma crise, empresas podem aumentar pedidos e estoques para compensar atrasos. Quando a circulação é normalizada, essa reação pode gerar novos desequilíbrios entre oferta e demanda.
Geopolítica ganha peso na logística
Para a BCG, os riscos associados aos gargalos marítimos estão aumentando principalmente por causa das tensões geopolíticas. Uma rota não precisa necessariamente ser fechada para provocar impacto.
A ameaça de ataques pode levar armadores a suspender serviços, alterar rotas e elevar os custos de frete e seguros. Além disso, tecnologias como drones, mísseis de precisão, interferência de GPS e falsificação de sinais do sistema de identificação automática de navios (AIS) ampliaram as possibilidades de interrupção do transporte marítimo.
O clima também aparece como fator de risco. As restrições impostas ao Canal do Panamá em razão da escassez de água mostraram como eventos climáticos podem afetar uma das principais rotas do comércio internacional.
Empresas precisam mapear suas rotas
A recomendação da BCG é que as empresas deixem de analisar apenas a origem de seus fornecedores e passem a mapear também as rotas utilizadas por toda a cadeia. Isso inclui identificar gargalos que podem afetar fornecedores de segundo e terceiro níveis, calcular o impacto financeiro de diferentes cenários e definir previamente quais medidas justificam o custo de proteção.
Entre as alternativas estão a diversificação de fornecedores, formação de estoques de segurança, produção mais próxima dos mercados consumidores e utilização de mecanismos de proteção contra oscilações de preços.
Para a consultoria, o objetivo não deve ser buscar a máxima resiliência a qualquer custo, mas encontrar um equilíbrio entre o investimento necessário para reduzir riscos e o impacto financeiro de uma eventual interrupção. A conclusão é que os gargalos marítimos deixaram de ser apenas pontos de passagem do comércio internacional. Eles passaram a representar uma variável estratégica que pode afetar simultaneamente fretes, capacidade, estoques, produção e preços em diferentes partes do mundo.
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