Porto de Montevidéu retoma operação após greve alterar escalas de navios

TCP normalizou atividades na noite de quinta-feira (17), mas conflito reacende preocupação com a confiabilidade do hub uruguaio, que movimentou 857,5 mil TEUs em 2025

Valeria Bursztein

O Terminal Cuenca del Plata (TCP), principal instalação especializada em contêineres do Porto de Montevidéu, no Uruguai, retomou a operação normal às 23h desta quinta-feira (17), após a suspensão da paralisação por tempo indeterminado iniciada no dia anterior. O conflito chegou a provocar alterações de escalas de navios e reacendeu a preocupação sobre os efeitos das interrupções na capacidade de Montevidéu de preservar cargas e serviços marítimos.

A paralisação e seus primeiros impactos foram noticiados originalmente pela agência chilena Mundo Marítimo. A Agência Transporte Moderno atualizou as informações e acrescentou dados oficiais da Administração Nacional de Portos (ANP) do Uruguai sobre a movimentação e o papel de Montevidéu no transbordo regional.

Durante a greve, o TCP funcionou sob regime de serviços mínimos determinado pelo governo uruguaio. Com o fim do movimento, a empresa informou que retomaria integralmente o atendimento a navios, caminhões e demais serviços da terminal a partir das 23h de quinta-feira.

O conflito envolve a negociação de um novo acordo coletivo para os cerca de 550 trabalhadores da TCP, controlada em 80% pelo grupo belga Katoen Natie e em 20% pela ANP. O acordo anterior venceu em 31 de maio e, desde então, empresa e sindicato vêm negociando sem chegar a um entendimento definitivo.

A disputa levou o governo a estabelecer serviços mínimos para preservar parte da operação do único terminal especializado em contêineres do país. A medida entrou em vigor em 12 de setembro e foi adotada depois que a TCP solicitou ao governo a declaração de essencialidade da atividade.

Escalas alteradas

Apesar da retomada, o conflito deixou efeitos sobre a programação marítima. Segundo informações publicadas pelo Mundo Marítimo, o presidente da ANP, Pablo Genta, afirmou que algumas companhias alteraram suas operações e houve cancelamentos de escalas, embora não tenha ocorrido retirada completa de serviços.

A preocupação é particularmente relevante para Montevidéu porque previsibilidade e regularidade são fatores decisivos na disputa pelos fluxos de transbordo do Cone Sul. Uma companhia marítima pode reorganizar escalas quando encontra dificuldades recorrentes para operar em determinado porto, com reflexos que podem permanecer mesmo depois da normalização do terminal.

O próprio TCP já vinha avaliando os prejuízos acumulados pelas sucessivas paralisações. Segundo informações divulgadas pela imprensa uruguaia, a operação registrou mais de 40 dias de algum tipo de impacto total ou parcial entre janeiro e setembro deste ano. Em 2025, haviam sido registrados 35 dias de interrupções na atividade portuária. A empresa também avalia possíveis efeitos sobre sua relação com as companhias de navegação.

Porto movimentou 857 mil TEUs

A dimensão do Porto de Montevidéu ajuda a explicar o impacto potencial das interrupções. Em 2025, foram movimentados 857.491 TEUs, considerando contêineres cheios e vazios. Somente no primeiro trimestre deste ano, o volume chegou a 232.680 TEUs, crescimento de 6% sobre igual período de 2025.

Os números também permitem corrigir uma interpretação divulgada inicialmente sobre o desempenho da atividade portuária uruguaia. O crescimento de 32% registrado em 2025 refere-se ao resultado econômico da ANP, que atingiu o equivalente a US$ 57,2 milhões, e não ao aumento da movimentação de cargas. O comércio exterior medido pela autoridade portuária cresceu 5% no período.

Além da carga uruguaia, Montevidéu exerce função de conexão para fluxos provenientes de outros países da região, principalmente do Paraguai, que utiliza a hidrovia e os portos do Prata para acessar serviços marítimos internacionais.

Entre outubro de 2024 e julho de 2025, 23.432 contêineres procedentes do Paraguai por via marítima ou fluvial passaram por Montevidéu em operações de transbordo ou reembarque com destino a outros portos, segundo dados oficiais da Aduana uruguaia divulgados pela ANP.

Disputa por confiabilidade

É justamente esse papel de conexão que torna a regularidade operacional estratégica. Cargas de transbordo têm maior possibilidade de migração entre portos e corredores quando armadores e embarcadores encontram alternativas capazes de oferecer maior previsibilidade.

O presidente da ANP afirmou ao Mundo Marítimo que o órgão começou a avaliar os prejuízos logísticos e econômicos causados pelo conflito. A mensuração, porém, não é imediata, porque os efeitos se distribuem entre terminal, companhias marítimas, importadores, exportadores, transportadores e outros participantes da cadeia.

O regime de serviços mínimos adotado pelo governo buscou reduzir esse impacto. A medida pretende conciliar o direito de greve com a manutenção de um nível básico de funcionamento da terminal. O decreto governamental afirma que as paralisações colocavam em risco um serviço de importância para a produção e o comércio exterior uruguaios.

Com a suspensão da greve, o desafio imediato passa a ser normalizar a programação de navios e cargas. A negociação trabalhista, entretanto, permanece como ponto de atenção: a retomada das operações não significa que tenha sido concluído um novo acordo coletivo.

Para Montevidéu, a questão vai além dos dias de terminal parado. Em um mercado no qual portos competem por escalas e cargas de transbordo, a recorrência de interrupções pode transformar um conflito trabalhista local em um problema de confiabilidade para toda a cadeia logística regional.

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