A Maersk confirmou a encomenda de 26 porta-contêineres com capacidade individual para 18,6 mil TEUs, ampliando de forma expressiva seu programa de renovação de frota. Juntas, as novas embarcações poderão transportar 483,6 mil TEUs, volume equivalente a pouco mais de 10% da capacidade atualmente operada pela companhia.
Os navios terão motores bicombustíveis, capazes de utilizar combustível marítimo convencional ou gás natural liquefeito (GNL), e deverão ser entregues ao longo de 2029 e 2030. A informação foi publicada originalmente pela agência chilena Mundo Marítimo, com base em confirmação da empresa ao site The Maritime Executive.
“Podemos confirmar que a Maersk encomendou 26 grandes porta-contêineres como parte de nosso programa contínuo de renovação da frota”, informou a armadora. A companhia, no entanto, ainda não revelou quais estaleiros construirão os navios nem o valor dos contratos.
Segundo dados da consultoria Alphaliner, a Maersk opera uma frota com capacidade aproximada de 4,73 milhões de TEUs e mantinha, antes da nova operação, cerca de 1,21 milhão de TEUs em sua carteira de encomendas.
Se as 26 unidades forem integralmente adicionais aos contratos já contabilizados, o volume encomendado pela companhia passará para aproximadamente 1,69 milhão de TEUs, aumento próximo de 40%. A capacidade contratada, porém, não representa necessariamente expansão líquida da frota, já que parte dos novos navios poderá substituir embarcações mais antigas ou menos eficientes.
Flexibilidade pesa mais que gigantismo
A opção por unidades de 18,6 mil TEUs também indica que a estratégia da Maersk não está concentrada apenas no aumento de escala. Embora sejam classificados entre os grandes porta-contêineres, os navios ficarão abaixo dos megavios com capacidade superior a 24 mil TEUs adotados por concorrentes em algumas das principais rotas entre Ásia e Europa.
Em contrapartida, a classe escolhida oferece maior flexibilidade de operação. Navios acima de 24 mil TEUs dependem de corredores com elevada concentração de cargas e de portos com calado, equipamentos e produtividade adequados ao seu porte. As embarcações de 18,6 mil TEUs podem ser empregadas em uma variedade maior de serviços, facilitando ajustes da rede conforme a demanda.
Essa escolha repete o padrão de uma encomenda anunciada pela Maersk em fevereiro deste ano. Na ocasião, a armadora contratou o estaleiro chinês New Times Shipbuilding (NTS) para construir oito navios de 18,6 mil TEUs, igualmente previstos para entrar em operação em 2029 e 2030.
As embarcações terão 366 metros de comprimento e 58,6 metros de largura. Ao anunciar o contrato, Anda Cristescu, responsável pelas áreas de afretamento e novas construções da Maersk, afirmou que a flexibilidade operacional foi determinante para a definição do porte.
“Embora sejam navios de grande tamanho, oferecem mais flexibilidade do que as maiores embarcações construídas atualmente em nossa indústria. Isso nos proporciona múltiplas opções de utilização, tanto na rede atual quanto na futura”, afirmou.
Encomenda amplia aposta no GNL
A adoção de motores capazes de operar com GNL também amplia a estratégia tecnológica da Maersk, que se destacou nos últimos anos pelos investimentos em embarcações movidas a metanol. A contratação de unidades preparadas para outro combustível mostra que a empresa busca reduzir a dependência de uma única alternativa para renovar sua frota.
O GNL vem ganhando espaço na navegação diante do endurecimento das regras internacionais de emissões e da expectativa de aumento da oferta mundial do combustível até o fim da década. A tecnologia, entretanto, não torna os navios automaticamente de baixo carbono. O resultado ambiental dependerá do combustível efetivamente utilizado, de sua origem e do controle do chamado methane slip, o escape de metano não queimado pelos motores.
As entregas entre 2029 e 2030 coincidirão com uma etapa de maior pressão regulatória sobre as emissões da navegação. Ao mesmo tempo, a possibilidade de utilização de combustível convencional preserva a flexibilidade dos navios em regiões onde a infraestrutura de abastecimento com GNL ainda é limitada.
Risco de excesso de oferta
A multiplicação das encomendas acendeu um alerta sobre a capacidade futura do transporte marítimo de contêineres. Embora as armadoras estejam renovando suas frotas e incorporando navios mais eficientes, a entrada simultânea de novas embarcações pode ampliar a oferta de espaço acima do crescimento da demanda e pressionar os fretes.
Parte desse risco permanece encoberta pelas restrições no Mar Vermelho, que alongaram as viagens entre a Ásia e a Europa e aumentaram a necessidade de navios. Uma eventual retomada das passagens pelo Canal de Suez poderá liberar capacidade justamente quando as novas encomendas começarem a deixar os estaleiros.
A Maersk também não informou em quais rotas pretende utilizar os 26 navios. Portanto, ainda não é possível afirmar se alguma das unidades atenderá serviços entre a Ásia, a Europa e a costa leste da América do Sul. A definição dependerá da configuração futura da rede, da demanda por capacidade e das condições operacionais dos portos escalados.
A confirmação encerra apenas parte das especulações que circulavam no mercado. Fontes do setor de corretagem marítima indicavam que a Maersk preparava um programa de aproximadamente 40 navios, incluindo cerca de 20 unidades com capacidade mínima de 24 mil TEUs. Até agora, a empresa confirmou somente as 26 embarcações de 18,6 mil TEUs.
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