Volta ao mundo em 80 dias: caminhão elétrico coloca infraestrutura de recarga à prova

O modelo eActros da Mercedes-Benz percorrerá cerca de 45 mil quilômetros por mais de 35 países em uma expedição que vai testar não apenas a autonomia do veículo, mas também a disponibilidade da infraestrutura de recarga

Aline Feltrin

De Hannover, Alemanha

Dar a volta ao mundo em 80 dias está longe de ser uma novidade. A façanha imaginada por Júlio Verne no século 19 já foi reproduzida diversas vezes por diferentes meios de transporte. O que torna diferente a expedição que começa na IAA Transportation 2026, em Hannover, é o veículo escolhido para a missão e, principalmente, o desafio colocado pela Mercedes-Benz. O eActros 600 percorrerá cerca de 45 mil quilômetros por mais de 35 países em uma viagem que deverá durar aproximadamente um ano e terá como limite 80 paradas para recarga.

Segundo a fabricante, será, até onde se sabe, a primeira circunavegação do mundo realizada por um caminhão pesado movido exclusivamente a bateria. Mais do que uma demonstração tecnológica, a iniciativa funciona como um teste em condições reais para uma questão que ganhou espaço central na estratégia de eletrificação da indústria: até onde um caminhão elétrico consegue chegar quando a infraestrutura de recarga deixa de ser previsível?

A largada acontece diretamente no estande da Mercedes-Benz Trucks na IAA, com o caminhão sendo conduzido pelo motorista profissional e criador de conteúdo Tobias Wagner, conhecido como “Elektrotrucker”. O roteiro levará o eActros 600 por diferentes regiões do planeta, passando pela Europa, Turquia, Ásia, Austrália, Estados Unidos e América Latina, incluindo o Brasil. A escolha dos mercados é relevante porque coloca o caminhão diante de realidades muito diferentes.

Enquanto alguns países europeus já contam com uma infraestrutura crescente para veículos comerciais elétricos, outros mercados ainda estão construindo as primeiras redes de recarga destinadas ao transporte pesado. É justamente essa diversidade que transforma a viagem em um experimento de escala global: o caminhão terá de lidar não apenas com diferentes estradas e condições climáticas, mas também com diferentes níveis de maturidade da infraestrutura energética.

O caminhão já mostrou que consegue

O eActros 600 chega à expedição depois de acumular experiência em operações reais na Europa. O modelo foi desenvolvido para o transporte rodoviário de longa distância e utiliza três baterias de 207 kWh, que somam 621 kWh de capacidade instalada. Em uma configuração de transporte com até 40 toneladas de peso bruto combinado, a Mercedes-Benz informa autonomia de até 500 quilômetros em determinadas condições.

Na configuração preparada para a volta ao mundo, entretanto, o veículo terá peso inferior ao de uma composição convencional carregada e contará com uma estrutura habitável, o que permite uma autonomia diferente daquela observada em uma operação de carga máxima. A Mercedes-Benz também destaca que o modelo já é utilizado comercialmente por clientes europeus, o que dá ao projeto uma característica importante: não se trata simplesmente de levar um protótipo experimental para uma viagem de demonstração, mas de submeter uma tecnologia de produção a uma condição de utilização excepcional.

Os números de operação apresentados pela Daimler Truck ajudam a explicar por que a discussão sobre o eActros 600 começa a mudar de patamar. Desde o início da produção em série, os caminhões elétricos da linha já acumularam mais de 160 milhões de quilômetros sem emissões locais em operações de clientes na Europa. Segundo a empresa, aproximadamente metade da quilometragem diária desses veículos supera 400 quilômetros, enquanto cerca de 20% ultrapassa 600 quilômetros.

Isso mostra que a tecnologia já está sendo utilizada em rotas de longa distância e que a questão deixou de ser exclusivamente se uma bateria consegue movimentar um caminhão por centenas de quilômetros. O próximo desafio é entender como essa operação se comporta quando o veículo sai dos corredores nos quais existe uma rede de recarga mais estruturada.

Aline Feltrin (Divulgação)

A pergunta passa a ser onde recarregar

É nesse ponto que a volta ao mundo ganha relevância para o setor de transporte. Em uma operação convencional a diesel, o abastecimento é uma infraestrutura consolidada e relativamente previsível: o transportador planeja a rota sabendo que encontrará postos ao longo das principais rodovias. No caminhão elétrico, a energia passa a fazer parte do planejamento operacional. Não basta conhecer a autonomia do veículo.

É preciso saber onde está o próximo carregador, qual potência ele oferece, se está disponível para um veículo pesado, quanto tempo será necessário para recuperar a energia e, principalmente, se a distância até o próximo ponto é compatível com o consumo daquela operação. Na prática, o desempenho do caminhão passa a depender também da qualidade e da disponibilidade da infraestrutura existente ao longo da rota.

A expedição do eActros 600 foi desenhada justamente para colocar essa questão em evidência. A rota começa na Alemanha e segue por países como República Tcheca, Áustria, Eslováquia, Hungria, Sérvia, Bulgária e Turquia, antes de avançar pela Ásia. O caminhão deverá passar por países como Geórgia, Azerbaijão, Turcomenistão, Uzbequistão, Quirguistão, Cazaquistão e China, além de atravessar o Sudeste Asiático, a Austrália, os Estados Unidos e países da América Latina. Em cada etapa, as condições de infraestrutura serão diferentes. Em alguns trechos, haverá redes de carregamento mais desenvolvidas; em outros, será necessário recorrer a soluções alternativas, incluindo a unidade móvel de carregamento que o caminhão levará consigo.

O alerta da Mercedes-Benz na Europa

O momento escolhido para a viagem também chama atenção. A Mercedes-Benz está fazendo da infraestrutura um dos pontos centrais de sua estratégia para ampliar a participação dos caminhões elétricos no transporte rodoviário. A Europa é hoje um dos principais laboratórios para essa transformação, mas ainda existe uma diferença importante entre o crescimento das vendas de caminhões elétricos e a disponibilidade da infraestrutura necessária para que eles operem em escala.

Dados apresentados pela Daimler Truck indicam que cerca de 5 mil caminhões elétricos acima de 16 toneladas foram registrados na União Europeia em 2025, alta de aproximadamente 51% sobre o ano anterior. Mesmo com esse crescimento, os veículos elétricos representaram cerca de 2% dos novos caminhões dessa categoria, mostrando que a transição ainda está em uma fase inicial quando comparada ao tamanho do mercado convencional.

A Mercedes-Benz vem defendendo que a expansão dos caminhões de emissão zero precisa ocorrer em paralelo com investimentos em infraestrutura. Para as transportadoras, a decisão de eletrificar uma operação não envolve apenas a aquisição do veículo. Também é necessário avaliar a disponibilidade de energia, a instalação de carregadores, a capacidade da rede elétrica, a localização dos pontos de recarga e o impacto do tempo de carregamento sobre a jornada do motorista e a produtividade da frota.

Por isso, a empresa trata a infraestrutura como parte do próprio ecossistema de eletrificação, por meio do TruckCharge, que reúne serviços relacionados a planejamento, instalação, operação e gestão de carregamento para veículos comerciais elétricos.

Megawatts para manter o caminhão em movimento

A evolução da infraestrutura também passa pelo aumento da potência dos carregadores. A Mercedes-Benz trabalha com o Megawatt Charging System (MCS), tecnologia desenvolvida especificamente para veículos comerciais pesados que poderá alcançar potência de até 1 MW. De acordo com a fabricante, o eActros 600 poderá realizar uma recarga de 10% a 80% em aproximadamente 29 minutos utilizando essa tecnologia.

A ideia é aproximar o tempo necessário para recuperar energia da lógica operacional do transporte rodoviário, permitindo que o caminhão aproveite as paradas que já fazem parte da jornada para carregar a bateria. Dessa maneira, a recarga deixa de ser necessariamente uma parada adicional e passa a ser integrada ao planejamento da viagem.

Mas o carregamento em megawatts também evidencia o tamanho do investimento necessário fora do caminhão. Um ponto capaz de fornecer até 1 MW para um veículo pesado exige conexão adequada à rede elétrica e planejamento da capacidade energética local.

Em uma operação com vários caminhões carregando simultaneamente, a demanda aumenta ainda mais. Por isso, a expansão do transporte elétrico pesado depende de uma combinação entre fabricantes de veículos, empresas de energia, operadores de infraestrutura, transportadoras e governos. A tecnologia do caminhão pode avançar rapidamente, mas a instalação de uma infraestrutura capaz de suportar milhares de veículos exige planejamento de longo prazo e investimentos em toda a cadeia.

A viagem também será um teste de gestão

Outro aspecto importante da expedição será a gestão da energia. O motorista não precisará apenas controlar a autonomia do caminhão, mas planejar a viagem considerando topografia, temperatura, condições da estrada, carga, distância até o próximo carregador e tempo disponível para a recarga. A Mercedes-Benz vem desenvolvendo ferramentas digitais para integrar essas informações à gestão da frota.

O Fleetboard Charge, por exemplo, permite acompanhar o nível da bateria, o status da recarga, o tempo restante e o histórico de carregamentos, além de possibilitar o planejamento de acordo com o horário de saída e o nível de carga desejado. A lógica é transformar a energia em uma variável operacional que possa ser administrada pela transportadora da mesma maneira que combustível, manutenção e disponibilidade dos veículos.

A experiência do eActros 600 também poderá mostrar como essa gestão muda conforme o mercado. Uma rota na Alemanha não apresenta necessariamente os mesmos desafios encontrados no interior da Ásia, na Austrália ou na América Latina. A viagem permitirá observar como o caminhão se comporta diante de diferentes temperaturas, altitudes, condições de pavimento e padrões de infraestrutura. Mais importante, poderá revelar quais soluções precisam existir para que um caminhão elétrico consiga manter uma operação contínua quando a rede pública de carregamento ainda não está disponível em todos os trechos.

O verdadeiro desafio da volta ao mundo

Por isso, o principal resultado da expedição pode não ser a chegada de volta a Hannover. A Mercedes-Benz já conseguiu demonstrar, por meio de testes e da operação comercial do eActros 600, que um caminhão elétrico pode percorrer longas distâncias. A volta ao mundo leva a discussão para outra etapa: o que acontece quando o caminhão precisa depender de uma infraestrutura que ainda está sendo construída?

Essa é uma questão diretamente ligada ao futuro dos negócios no transporte rodoviário. Para uma empresa de transporte, autonomia é importante, mas previsibilidade é fundamental. Um caminhão que percorre 500 ou 600 quilômetros não resolve sozinho uma operação de longa distância se o próximo carregador estiver indisponível, distante demais ou oferecer potência insuficiente.

Da mesma forma, uma rede de carregamento robusta perde parte de seu valor se não houver caminhões capazes de utilizá-la com produtividade. A eletrificação, portanto, depende do avanço simultâneo dos dois lados da equação.

É por isso que a expedição do eActros 600 ganha um significado maior do que simplesmente repetir uma façanha conhecida. Outros veículos já deram a volta ao mundo. O que a Mercedes-Benz está colocando à prova é a capacidade de um caminhão pesado elétrico de fazer isso dentro de uma estratégia baseada em recargas planejadas e em uma infraestrutura que muda radicalmente de um continente para outro.

Ao longo dos 45 mil quilômetros, a viagem poderá mostrar onde a infraestrutura ainda precisa avançar para que a eletrificação deixe de ser uma operação de nicho e passe a fazer parte da rotina do transporte de cargas.

A pergunta que sai de Hannover, portanto, não é simplesmente se um caminhão elétrico consegue dar a volta ao mundo. É se a infraestrutura mundial está pronta para acompanhar os caminhões que a indústria já consegue produzir.

*A jornalista viajou a convite da Mercedes-Benz Brasil.

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