A infraestrutura de transportes aparece como uma das principais áreas de concordância entre os seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. A Agência Transporte Moderno analisou as propostas apresentadas nos planos de governo de Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), com foco nas medidas previstas para rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos.
A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 24 de agosto mostra Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 37%. Caiado aparece com 5%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema têm 3% cada e Augusto Cury, 2%. O levantamento ouviu 2.006 eleitores entre 21 e 23 de agosto e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
A análise da Agência Transporte Moderno mostra que, embora os seis candidatos reconheçam a necessidade de ampliar a infraestrutura brasileira, há diferenças importantes nas prioridades de cada programa, no papel atribuído ao Estado e à iniciativa privada e nos modelos de financiamento propostos. As ferrovias estão entre os destaques de todos os condidatos, mas eles divergem sobre os projetos prioritários e a forma de viabilizar os investimentos.
Augusto Cury: logística será estratégia de exportação
O plano de Augusto Cury relaciona diretamente infraestrutura e política industrial. Chamado de O Brasil dos Nossos Sonhos, o programa prevê a criação de cinco Corredores Estratégicos de Exportação, articulando portos, aeroportos e ferrovias.
Os corredores estão associados aos Estados do Ceará, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. A proposta faz parte de uma estratégia mais ampla de transformação do Brasil em potência industrial. O programa prevê ainda a implantação de 10 mil novas indústrias e políticas para semicondutores, microeletrônica, terras raras e minerais estratégicos.
A logística, nesse caso, não aparece apenas como uma política de infraestrutura. Ela é tratada como uma ferramenta para reduzir custos, ampliar as exportações e agregar valor à produção brasileira. O plano também defende a integração entre diferentes modais, com rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos funcionando dentro de uma estratégia nacional de exportação.
Confira aqui o plano de governo completo do candidato.
Augusto Cury (Avante)
Vice: Júlio Delgado (Avante)
Nº 70
Flávio Bolsonaro: a maior cifra para infraestrutura
O plano de governo de Flávio Bolsonaro estabelece uma meta de R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura de transportes em quatro anos. O valor inclui rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos.
A proposta prevê um novo modelo de financiamento baseado em um fundo lastreado na securitização de ativos e imóveis da União, além do uso de concessões, PPPs e financiamento do BNDES para obras no país. Uma das principais propostas é a criação dos Corredores Logísticos Inteligentes, com foco na integração nacional e na redução do custo de transporte, especialmente nos corredores de escoamento da produção do Centro-Oeste.
No setor ferroviário, o plano cita especificamente a Ferrogrão, a conclusão da Transnordestina, a criação de uma ligação ferroviária de cargas entre Mato Grosso, oeste do Paraná e Santa Catarina e o Trem do Nordeste. O programa também prevê ampliar o escopo da Transnordestina para contemplar Paraíba e Rio Grande do Norte. Nas hidrovias, o documento menciona a Hidrovia do Tapajós como um dos projetos que devem ser destravados.
Para a mobilidade urbana, o plano determina que bancos públicos priorizem financiamentos para metrôs, transporte sobre trilhos e ônibus elétricos ou movidos a biocombustíveis. O principal ponto de atenção é a dimensão da promessa: o plano apresenta R$ 900 bilhões como meta, mas não detalha individualmente quanto seria destinado a cada modal ou projeto.
Confira aqui o plano de governo completo do candidato.
Flávio Bolsonaro (PL)
Vice: Alfredo Gaspar (PL)
Nº 22
Luiz Inácio Lula da Silva: Novo PAC e concessões
O plano de governo de Lula propõe ampliar o Novo PAC e combinar investimentos públicos com concessões para avançar na infraestrutura. O documento prevê manter o ritmo de concessões rodoviárias e ampliar projetos ferroviários, tanto por meio de novos leilões quanto pela repactuação de contratos existentes.
No setor de transportes, a estratégia é trabalhar com diferentes fontes de recursos e combinar a atuação do Estado com a participação privada. O plano também associa a infraestrutura à neoindustrialização e à transição energética.
Nas ferrovias, a proposta é intensificar as concessões, mas o documento não estabelece uma lista de projetos prioritários semelhante à apresentada por alguns dos demais candidatos. O programa também prevê investimentos em rodovias, portos, aeroportos e infraestrutura urbana. Para as rodovias, a estratégia é manter o modelo de concessões e ampliar os investimentos em capacidade e conservação. Nas hidrovias, a agenda inclui maior integração entre os diferentes modais.
A proposta de Lula, portanto, representa principalmente a continuidade e a ampliação da política de infraestrutura já adotada pelo governo, com o Novo PAC como um dos principais instrumentos.
Confira aqui o plano de governo completo do candidato.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Vice: Geraldo Alckmin (PSB)
Nº 13
Renan Santos: meta de 40 mil quilômetros de ferrovias
O plano de Renan Santos, chamado de Livro Amarelo, apresenta uma proposta mais agressiva de expansão da infraestrutura. O programa afirma que o Brasil tem cerca de 30 mil quilômetros de malha ferroviária e estabelece como meta chegar a pelo menos 40 mil quilômetros.
Para isso, prevê a conclusão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), o início da Ferrogrão e a viabilização da Ferrovia Transoceânica. A estratégia combina investimento estatal condicionado a uma reforma fiscal e administrativa com mobilização de capital privado por meio de concessões, PPPs e do regime de autorização ferroviária.
O plano também prevê elevar os investimentos em infraestrutura de aproximadamente 2% do PIB para pelo menos 4% do PIB. Na área rodoviária, o diagnóstico cita problemas em corredores de escoamento como a BR-163 e menciona também a BR-319 e a BR-101. O programa propõe melhorar o planejamento, o licenciamento e a governança dos projetos para reduzir atrasos e paralisações.
Nos portos, a prioridade é ampliar a capacidade das regiões Norte e Nordeste, incluindo a expansão do Porto de Alcântara, do Porto de Ilhéus e do Porto de Itaqui. Para aeroportos, o foco está na conectividade da região Norte e na expansão da infraestrutura regional.
Confira aqui o plano completo de governo do candidato.
Renan Santos (Missão)
Vice: Coronel Medina (Missão)
Nº 14
Ronaldo Caiado: transporte a serviço do agronegócio
O plano de governo de Ronaldo Caiado trata a infraestrutura como instrumento para aumentar a competitividade e reduzir custos logísticos. O documento prevê organizar ferrovias, hidrovias, rodovias, portos e armazenagem em corredores estratégicos voltados ao escoamento da produção.
Entre os projetos considerados estruturantes estão a Ferrogrão, Ferrovia Norte-Sul, Fiol, Malha Norte, BR-163 e hidrovias do Centro-Oeste e do Norte. O programa prevê a participação da iniciativa privada nas concessões.
O plano também estabelece a intenção de criar um calendário permanente e previsível de leilões de infraestrutura, abrangendo rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, saneamento e outros setores. A proposta está diretamente relacionada à estratégia de fortalecimento do agronegócio. A ideia é conectar áreas produtoras aos mercados consumidores e aos portos de exportação.
Durante participação no Fórum CNT de Debates, Caiado reforçou essa visão e defendeu a expansão das ferrovias e hidrovias para dividir com as rodovias o transporte da produção.
Confira aqui o plano completo de governo do candidato.
Ronaldo Caiado (PSD)
Vice: Gilberto Kassab (PSD)
Nº 55
Romeu Zema: concessões e mercado de capitais
Romeu Zema coloca a redução do custo logístico entre os principais objetivos de sua política de infraestrutura. O programa propõe reunir novamente o planejamento dos diferentes modais em uma única estrutura federal, além de criar um portfólio de projetos com cronograma previsível para atrair investidores.
A estratégia de financiamento prioriza a participação privada, com maior utilização de project finance, mercado de capitais, garantias, seguros, concessões e PPPs. O plano também defende reduzir a dependência de bancos públicos federais e multilaterais na estruturação dos projetos.
No setor ferroviário, Zema propõe dar destinação a trechos ociosos ou devolvidos e ampliar o uso de autorizações ferroviárias, short lines, operadores independentes e novas concessões. Entre os projetos citados estão Fico, Fiol e Ferrogrão.
Para as rodovias, o programa defende ampliar concessões e PPPs, inclusive em trechos de menor viabilidade econômica, e integrar as malhas federal e estaduais. Nos portos, a proposta é ampliar a capacidade, modernizar a gestão e melhorar os acessos terrestres e aquaviários. Para as hidrovias, o plano prevê uma carteira de projetos para ampliar a navegação interior e integrar o modal a portos, ferrovias e rodovias.
Confira aqui o plano completo de governo do candidato.
Romeu Zema (Novo)
Vice: Eduardo Girão (Novo)
Nº 30
Ferrovias são o principal ponto em comum
Apesar das diferenças ideológicas e econômicas, os seis candidatos coincidem em um ponto: o Brasil precisa ampliar a participação das ferrovias na matriz de transporte.
Lula aposta em novas concessões e na repactuação de contratos. Flávio Bolsonaro apresenta uma carteira ampla de investimentos e cita Ferrogrão e Transnordestina. Caiado prioriza corredores ferroviários ligados ao agronegócio.
Por fim, Renan Santos estabelece uma meta de pelo menos 40 mil quilômetros de malha. Cury coloca as ferrovias dentro dos corredores estratégicos de exportação. Zema defende novas concessões, autorizações e integração com rodovias e portos.
Onde estão as principais diferenças?
A principal divergência entre os programas não está no diagnóstico. Todos reconhecem a necessidade de investir mais em infraestrutura. A diferença está na forma de executar essa agenda.
Lula aposta na combinação entre investimento público, Novo PAC e concessões. Flávio Bolsonaro apresenta a maior cifra de investimento e defende forte participação privada, PPPs e concessões.
Caiado concentra a estratégia na integração logística e no escoamento do agronegócio. Renan Santos combina ajuste fiscal, investimento estatal e capital privado, com uma meta explícita de expansão ferroviária.
Augusto Cury utiliza a infraestrutura como parte de uma estratégia de industrialização e exportação. Zema, por sua vez, aposta mais fortemente em concessões, PPPs, mercado de capitais e redução da dependência de recursos públicos.
O que os planos ainda não respondem
A comparação revela uma questão importante para o setor: boa parte das propostas apresenta uma direção, mas não necessariamente cronograma, custo individual e fonte de recursos para cada projeto. No caso de Renan Santos, por exemplo, o plano estabelece uma meta de pelo menos 40 mil quilômetros de ferrovias e cita projetos específicos, mas não apresenta o custo total para alcançar essa expansão.
No programa de Flávio Bolsonaro, os R$ 900 bilhões aparecem como uma meta global para infraestrutura de transportes, mas não há divisão detalhada do montante por modal ou empreendimento. No plano de Caiado, algumas obras são apontadas como prioritárias, mas não há definição individual de valor, prazo e instrumento de execução para todas elas.
Esse pode ser um dos principais desafios para o próximo governo: transformar o consenso político em projetos com estudos, licenciamento, financiamento, segurança jurídica, cronograma e capacidade de execução.
Para o setor de transporte, a eleição de 2026 apresenta uma rara convergência: os seis candidatos à Presidência da República mais bem colocados na pesquisa analisada defendem ampliar a infraestrutura e aumentar a participação ferroviária. A disputa estará menos no diagnóstico e mais no modelo de financiamento, no papel do Estado e na capacidade de transformar promessas em obras.
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