C919: o avião chinês que vai desafiar Airbus e Boeing pode chegar ao Brasil?

Aeronave da chinesa COMAC estreia em rota internacional e avança na estratégia de expansão global, que inclui a América Latina e o mercado brasileiro

Aline Feltrin

O C919, avião comercial desenvolvido pela chinesa Commercial Aircraft Corporation of China (COMAC), deu um passo importante para avançar no mercado internacional. Em 12 de agosto de 2026, a aeronave realizou seu primeiro voo comercial regular fora da China, ligando Pequim a Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

Operado pela Air China, o voo marcou uma nova etapa no programa do C919, que entrou em serviço comercial em maio de 2023. Até então, a operação do modelo estava concentrada principalmente no mercado chinês. A primeira rota internacional regular foi apontada pela imprensa especializada como um marco para a estratégia da COMAC de levar o avião para além de seu mercado doméstico.

A estreia aumenta a visibilidade do C919 na disputa pelo mercado de aviões de corredor único, segmento dominado pelas famílias Airbus A320 e Boeing 737. Mas o avião chinês ainda enfrenta obstáculos para se tornar um concorrente global, entre eles certificações internacionais, aumento da produção e criação de uma rede de suporte fora da China.

Foto: COMAC | Divulgação

Leia mais

Mercado Livre reduz Correios a menos de 5% das entregas
Kia lança primeira picape no Brasil por R$ 249.990 e aposta no agronegócio
Por que a Addiante pediu a falência da Ambipar e o que pode acontecer agora?

C919 estreia em rota internacional

O primeiro voo comercial internacional do C919 ocorreu na rota entre Pequim e Ulaanbaatar. O voo CA723, da Air China, partiu do Aeroporto Internacional de Pequim-Capital e pousou na capital da Mongólia em 12 de agosto.

A rota passou a ser operada diariamente, com os voos CA723 e CA724, segundo a Aerospace Global News. A publicação também informa que a Air China possui 12 C919 em sua frota, enquanto China Eastern Airlines e China Southern Airlines também operam o modelo.

O voo teve cerca de 1.200 quilômetros. Segundo o Global Times, o primeiro serviço levou 121 passageiros.Apesar do alcance regional da operação, o significado para a indústria chinesa é maior. A rota representa a primeira operação comercial regular do C919 para outro país desde a entrada do avião em serviço.

Avião já transportou mais de 7,5 milhões de passageiros

A expansão internacional acontece depois de um crescimento acelerado da operação do C919 na China. Até 10 de agosto, aeronaves do modelo operadas por Air China, China Eastern e China Southern haviam atendido 57 rotas em 25 cidades e transportado mais de 7,5 milhões de passageiros, segundo dados da COMAC citados pela Aerospace Global News. Com a inclusão da rota para Ulaanbaatar, a rede chegou a 58 rotas e 26 cidades, segundo dados divulgados pela imprensa chinesa.

O número mostra que o C919 já ultrapassou a fase de testes e demonstrações. O avião está em operação comercial regular e acumulou experiência com três das maiores companhias aéreas chinesas.

Antes da ligação com a Mongólia, o modelo também já havia iniciado operações para Hong Kong. A China Eastern começou a utilizar o C919 na rota entre Xangai e Hong Kong em janeiro de 2025, seguida posteriormente pela Air China.

C919 disputa mercado de Airbus A320 e Boeing 737

O C919 foi desenvolvido para atuar no mercado de aeronaves de corredor único, justamente o segmento em que Airbus e Boeing possuem forte domínio. O modelo chinês foi projetado para transportar aproximadamente entre 158 e 192 passageiros, dependendo da configuração, e para atender rotas de curta e média distância.

A comparação é direta com as famílias Airbus A320 e Boeing 737. O objetivo da COMAC, porém, não é apenas colocar um novo avião em operação. O projeto faz parte de uma estratégia chinesa de desenvolver uma indústria aeronáutica comercial própria e reduzir a dependência dos fabricantes ocidentais.

Mais de mil pedidos, mas maioria está na China

A carteira de pedidos mostra o interesse das companhias chinesas pelo C919. Segundo levantamento do Information Technology and Innovation Foundation (ITIF), publicado em junho de 2026, os três maiores grupos aéreos estatais chineses — Air China, China Eastern e China Southern — fizeram inicialmente pedidos de 100 C919 cada, totalizando 300 aeronaves. O levantamento também mostra que a maior parte da carteira continua concentrada em empresas chinesas.

Esse é um ponto importante para avaliar o potencial internacional do avião. A COMAC conta com um enorme mercado doméstico para sustentar o programa, mas ainda precisa transformar essa base em clientes estrangeiros.

A primeira encomenda de um C919 por uma companhia aérea de fora da China veio da Brunei-based GallopAir, que encomendou 15 unidades do modelo. A autorização de Brunei para operar aeronaves chinesas representou outro avanço para a estratégia internacional da COMAC.

Produção é um dos principais desafios

O tamanho da carteira de pedidos contrasta com o ritmo de produção do C919. A COMAC anunciou planos ambiciosos para aumentar a capacidade produtiva. Em março de 2025, a empresa informou que pretendia elevar a capacidade anual do C919 para 200 aeronaves até 2029, segundo o South China Morning Post. O caminho até essa meta, porém, não tem sido linear.

Em setembro de 2025, a Reuters informou que a COMAC estava atrasada em relação às metas de entrega do C919. Dados dos registros das companhias aéreas chinesas indicavam que apenas cinco das 32 aeronaves esperadas para aquele ano haviam sido entregues até setembro. A agência também informou que a fabricante havia reduzido sua meta anual de entregas de 75 para 25 aeronaves.

A dependência de fornecedores estrangeiros é outro fator de risco. O C919 utiliza, entre outros componentes, o motor LEAP-1C, produzido pela CFM International, empresa formada por GE Aerospace e Safran. As restrições comerciais entre Estados Unidos e China já afetaram o fornecimento de componentes para o programa.

Certificação internacional é o próximo grande teste

Além de aumentar a produção, a COMAC precisa obter certificações de autoridades estrangeiras para ampliar a operação do C919. O avião recebeu o certificado de tipo da autoridade chinesa em 2022 e entrou em serviço comercial no ano seguinte. Ainda não possui, entretanto, a certificação da EASA, agência europeia de segurança da aviação, nem da FAA, autoridade reguladora dos Estados Unidos.

A EASA já iniciou o processo de avaliação. Em janeiro de 2026, a agência confirmou que havia realizado voos de teste com o C919 em Xangai como parte das atividades de validação necessárias para o processo de certificação. A Reuters informou em maio que a EASA considerava o processo em andamento, mas não fornecia uma previsão para sua conclusão. A agência afirmou que os trabalhos de validação estavam avançando com a cooperação da COMAC e da autoridade chinesa de aviação civil.

A certificação europeia é considerada importante para a expansão global do C919 porque permitiria ampliar significativamente os mercados em que o modelo poderia ser operado.

O desafio vai além da certificação

Mesmo que consiga as certificações necessárias, a COMAC terá outro problema: criar uma estrutura internacional de suporte. Para uma companhia aérea, a escolha de uma aeronave envolve mais do que preço e desempenho. Disponibilidade de peças, manutenção, treinamento de pilotos e mecânicos e assistência técnica são fatores importantes para manter a frota em operação.

Airbus e Boeing possuem redes globais consolidadas depois de décadas de atuação. A COMAC ainda está construindo essa estrutura. Por isso, a primeira rota para a Mongólia tem importância também operacional. A fabricante começa a acumular experiência em uma operação internacional regular e pode ampliar gradualmente sua presença em outros mercados.

China busca um terceiro fabricante global

O C919 é o principal projeto da estratégia chinesa para criar uma indústria própria de aviões comerciais de grande porte. A COMAC foi criada em 2008 e tem como objetivo desenvolver aeronaves capazes de competir com fabricantes estabelecidos no mercado internacional.

O projeto também tem importância estratégica para Pequim. A China é um dos maiores mercados de aviação do mundo e deve demandar milhares de novas aeronaves nas próximas décadas. Esse mercado doméstico fornece à COMAC uma base de clientes que Airbus e Boeing não tinham quando começaram a desenvolver suas respectivas famílias de aeronaves.

C919 ainda está longe de ameaçar Airbus e Boeing

O primeiro voo internacional é um marco importante, mas não significa que o C919 já esteja em condições de disputar de igual para igual com Airbus e Boeing. A aeronave ainda tem uma frota muito menor, produção limitada e presença internacional incipiente. Também precisa avançar no processo de certificação em mercados importantes.

Ao mesmo tempo, o programa já passou de uma promessa industrial para uma operação comercial consolidada na China. Mais de 7,5 milhões de passageiros já viajaram no C919, segundo dados da COMAC citados pela imprensa especializada. O modelo atende dezenas de rotas e já é utilizado pelas três maiores companhias aéreas estatais chinesas. Agora, o desafio é transformar essa experiência doméstica em uma presença internacional permanente.

O voo para Ulaanbaatar pode ser pequeno em distância, mas representa um passo importante para a COMAC. O próximo será convencer reguladores e companhias aéreas de outros mercados de que o C919 pode oferecer não apenas uma aeronave competitiva, mas também a estrutura de suporte necessária para operar uma frota durante décadas. Se conseguir avançar nesses pontos, a China poderá, pela primeira vez, colocar um terceiro fabricante de aviões comerciais de corredor único em uma posição real de disputa com Airbus e Boeing.

América Latina entra no radar da COMAC

A estratégia internacional da COMAC também passa pela América Latina. Em seu Commercial Aircraft Market Forecast 2024-2043, documento de projeção de mercado da fabricante chinesa, a empresa estima forte crescimento da frota comercial da região nas próximas duas décadas.

Segundo o levantamento da COMAC, a frota da América Latina deve passar de 1.442 aeronaves em 2023 para 2.885 aeronaves em 2043, crescimento de aproximadamente 100% no período. O estudo faz parte das projeções oficiais da fabricante para o mercado mundial de aviação comercial.

O documento é importante para a estratégia do C919 porque mostra que a fabricante chinesa considera a América Latina um mercado com potencial de expansão. A região terá demanda por novas aeronaves à medida que as companhias aéreas ampliam e renovam suas frotas.

O Brasil aparece nesse contexto como um mercado estratégico. Em 2024, a brasileira Total Linhas Aéreas iniciou negociações com a COMAC para a possível aquisição de até quatro C919. Segundo a Reuters, a companhia buscava se tornar a primeira empresa fora da Ásia a comprar aeronaves da fabricante chinesa.

O interesse brasileiro não avançou, naquele momento, para uma operação comercial confirmada. A negociação, porém, mostrou que a COMAC já buscava estabelecer uma porta de entrada para seus aviões na América Latina.

Para a fabricante chinesa, a região representa uma oportunidade de diversificação de mercado. Para o Brasil, o avanço do C919 também merece atenção por outro motivo: o país abriga a Embraer, uma das principais fabricantes mundiais de aeronaves comerciais.

A entrada do C919 na América Latina, portanto, colocaria a COMAC em um mercado no qual Airbus, Boeing e Embraer já possuem presença consolidada.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Aviso de reprodução Este conteúdo pode ser compartilhado com responsabilidade

Este conteúdo pode ser reproduzido, desde que seja citada a fonte com link: Agência Transporte Moderno. Respeitar a autoria e indicar a origem da informação contribui para fortalecer o bom jornalismo e a produção de conteúdo confiável.