Proposta dos EUA para compra de Boeing expõe impacto potencial sobre a Embraer

Minuta apresentada em 2025 previa compromisso de companhias aéreas brasileiras para adquirir aeronaves fabricadas nos Estados Unidos; documento não definia quantidade

Aline Feltrin

Uma proposta apresentada por negociadores dos Estados Unidos ao Brasil em outubro de 2025 previa que companhias aéreas brasileiras assumissem compromissos para adquirir aeronaves comerciais fabricadas nos Estados Unidos, incluindo aviões da Boeing. A informação consta de documentos obtidos pelo jornal Estadão e coloca a indústria aeronáutica brasileira, especialmente a Embraer, no centro das discussões sobre as negociações comerciais entre os dois países.

A proposta fazia parte de uma minuta com 21 pontos apresentada pelos americanos durante as tratativas. No documento, a quantidade de aeronaves que poderiam ser adquiridas pelas companhias brasileiras ainda não estava definida e aparecia representada como “[xx] aeronaves Boeing”. O texto previa que o número fosse negociado posteriormente.

A informação é diferente de uma eventual determinação do governo americano para que o Brasil comprasse um número específico de aviões. Segundo os documentos divulgados, tratava-se de uma proposta apresentada pelos negociadores dos Estados Unidos no âmbito das negociações comerciais.

Outro documento, elaborado pelo governo brasileiro em setembro de 2025, trabalhava com a possibilidade de compras de produtos americanos por empresas brasileiras. Nesse material, aparecia uma projeção de 90 aeronaves. O número, entretanto, não correspondia a uma quantidade de aviões Boeing estabelecida pelos Estados Unidos.

Proposta não avançou

Os termos apresentados pelos negociadores americanos não avançaram. Segundo a apuração baseada nos documentos, o chanceler Mauro Vieira rejeitou a proposta durante as negociações realizadas em outubro de 2025.

O episódio, porém, chama atenção pelo impacto que uma eventual vinculação entre acordos comerciais e decisões de compra de aeronaves poderia ter sobre o mercado brasileiro. A escolha de novos aviões é feita pelas próprias companhias aéreas, considerando fatores como capacidade, alcance, custos operacionais, financiamento, manutenção e padronização das frotas.

O mercado brasileiro também possui uma configuração diferente entre as empresas. A GOL opera aeronaves Boeing 737, enquanto a Latam utiliza modelos da Boeing e da Airbus. Já a Azul mantém uma frota formada principalmente por aeronaves da Airbus, Embraer e, em menor escala, outros fabricantes.

Uma orientação para priorizar aeronaves americanas, portanto, poderia ter efeitos diferentes entre as companhias, dependendo da composição atual das frotas e dos planos de renovação de cada empresa.

Embraer no centro da discussão

A Embraer aparece como um dos pontos de interesse da negociação porque disputa com fabricantes estrangeiros o mercado de jatos comerciais de menor capacidade, especialmente com a família E-Jets E2.

A fabricante brasileira vem ampliando sua presença entre companhias aéreas do país. Em setembro de 2025, a Latam anunciou a compra de até 74 aeronaves E195-E2, sendo 24 pedidos firmes e 50 opções. O negócio foi anunciado com valor de US$ 2,1 bilhões considerando os pedidos firmes.

Em julho de 2026, o Grupo Abra, controlador da GOL, também anunciou um acordo para adquirir até 45 aeronaves E195-E2 da Embraer. A definição sobre a destinação das aeronaves entre as empresas do grupo ainda depende da estratégia da companhia.

O avanço das vendas domésticas ocorre enquanto a Embraer busca ampliar a participação dos seus jatos comerciais em diferentes mercados. Nesse cenário, uma eventual vinculação de compras de aeronaves a negociações governamentais poderia acrescentar uma variável às decisões de renovação de frota das empresas brasileiras.

Negociações voltaram a tratar de aviação

O setor aeroespacial voltou a aparecer nas negociações entre Brasil e Estados Unidos em janeiro de 2026, mas em termos diferentes dos apresentados na proposta de outubro de 2025.

A nova discussão envolvia a retirada de barreiras tarifárias e não tarifárias para a venda de jatos executivos fabricados nos Estados Unidos no mercado brasileiro. A proposta não retomava o compromisso de compra de aeronaves comerciais Boeing em uma quantidade determinada.

Em agosto de 2026, Brasil e Estados Unidos também retomaram o diálogo comercial. Em nota conjunta, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Ministério das Relações Exteriores informaram que as discussões buscavam avançar em um acordo comercial entre os dois países. A manifestação oficial, entretanto, não mencionou a compra de aeronaves Boeing ou compromissos envolvendo companhias aéreas brasileiras.

A indústria aeronáutica brasileira é considerada estratégica pelo próprio MDIC, que destaca a capacidade do país de projetar, fabricar, certificar e exportar aeronaves.

Procuradas pela Agência Transporte Moderno, Embraer e MDIC não se pronunciaram até o fechamento desta reportagem.

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