Caminhões chineses aceleram eletrificação das frotas no Brasil; entenda

Empresa especializada em estruturar a migração de frotas para a eletrificação prevê comprar cerca de mil veículos elétricos em 2026 e vê mercado ganhar escala

Aline Feltrin

O preço mais baixo dos veículos elétricos produzidos por fabricantes chineses está mudando a conta para as empresas que avaliam eletrificar suas frotas no Brasil. Com produtos mais competitivos, maior autonomia e avanço das redes de pós-venda, o custo total de operação (TCO) dos modelos elétricos começa a se aproximar do registrado pelos veículos a combustão, ampliando o espaço para a eletrificação de operações comerciais. A avaliação é de Lucas Zanon, CEO da EVMOB, empresa criada em janeiro de 2024 com participação do Pátria Investimentos para atuar no mercado B2B como parceira estratégica de empresas na transição para a mobilidade elétrica.

A companhia estrutura projetos que combinam veículos elétricos, infraestrutura de recarga e suporte à operação. Já são mais de 2 mil veículos em operação no país, e a empresa prevê adquirir cerca de mil unidades em 2026. O volume representa, em apenas um ano, praticamente o mesmo número de veículos elétricos adquirido pela empresa nos dois primeiros anos de atividade. Segundo Zanon, a evolução dos fabricantes chineses é um dos fatores que mais têm contribuído para tornar a decisão de eletrificar uma frota economicamente viável.

“Cada vez mais as chinesas têm entregado mais eficiência, têm investido mais em rede de apoio e têm conseguido chegar em melhores preços”, afirma. A EVMOB trabalha com um modelo que combina o veículo, a infraestrutura de recarga e o suporte à operação em um único contrato. A empresa compra os veículos e os carregadores, instala a infraestrutura e estrutura a operação para o cliente, que paga uma tarifa mensal.

Preço muda a conta do caminhão elétrico

A lógica do negócio é comparar o custo total da operação elétrica com o de um veículo convencional. Na conta entram o aluguel, o combustível e a manutenção dos dois tipos de veículos. Para Zanon, o preço de aquisição do elétrico tem impacto direto nessa equação. Quanto menor o investimento necessário para comprar o veículo, menor pode ser a tarifa de locação e, consequentemente, mais competitiva fica a operação diante de um modelo a combustão.

“Quanto melhor o preço que eu tenho acesso para comprar esse ativo, naturalmente mais competitivo vai ser na tarifa de aluguel e mais competitivo vai ser a comparação com o veículo similar a combustão”, explica. A EVMOB considera três fatores principais na escolha dos veículos que entram na frota: desempenho, capacidade de pós-venda e custo.

A autonomia está entre os aspectos mais importantes porque determina a disponibilidade do veículo e sua capacidade de atender à operação do cliente. O segundo ponto é a estrutura de suporte oferecida pelo fabricante, incluindo rede de concessionárias e assistência. O terceiro é o preço.

Na avaliação do executivo, os fabricantes chineses vêm avançando simultaneamente nos três pontos. “Naturalmente o chinês tem se destacado bastante porque, no elétrico, ele está muito à frente das demais marcas tradicionais para conseguir mais eficiência e mais competitividade”, afirma.

A EVMOB não trabalha com exclusividade de marcas e se define como agnóstica na escolha dos veículos. A companhia avalia qual modelo oferece a melhor combinação entre desempenho, suporte e preço para cada projeto.

Chineses já representam 85% da frota

A mudança na oferta também aparece na composição da frota da EVMOB. Cerca de 85% dos veículos elétricos da empresa são de fabricantes asiáticos, principalmente chineses. Entre as marcas utilizadas estão JAC Motors, Farizon, BYD, Foton e Sany. A companhia também trabalha com modelos elétricos de fabricantes tradicionais, como Renault, Ford e Mercedes-Benz.

A escolha pelos chineses, segundo Zanon, não ocorre apenas pelo preço. A capacidade de entrega dos veículos e o suporte no pós-venda pesam na decisão, principalmente porque os contratos da EVMOB podem ter duração de quatro a seis anos.

“Eu tenho que ofertar um preço bom comparado com os custos a combustão. Então obviamente eu sempre vou buscar as marcas que me dão mais condição econômica e melhor segurança de disponibilidade”, diz.

A Foton, por exemplo, é citada pelo executivo pela expansão de sua rede, que já supera 90 concessionárias no país. A JAC Motors também é destacada pela presença de cinco anos no mercado brasileiro e pela rede montada nas principais capitais e cidades do interior.

Para a EVMOB, a combinação de preços menores, evolução tecnológica e expansão do pós-venda aumenta a possibilidade de as empresas justificarem a migração para o elétrico pela própria conta da operação, e não apenas por metas ambientais.

Infraestrutura é parte da solução

A estratégia da empresa vai além da aquisição ou locação do veículo. A EVMOB dimensiona a infraestrutura de recarga de acordo com a operação de cada cliente e assume o investimento nos veículos e carregadores.

O modelo procura eliminar uma das principais barreiras à eletrificação de frotas: a necessidade de o próprio cliente organizar toda a infraestrutura antes de colocar os veículos para rodar.

O projeto desenvolvido para a Via Ápia é um dos exemplos citados por Zanon. A empresa eletrificou 100% da frota de quatro concessões rodoviárias, com mais de 400 veículos distribuídos por aproximadamente 1.400 quilômetros de rodovias.

Para suportar a operação, foram instalados mais de 80 eletropostos. Os veículos são comerciais e incluem vans, caminhões e modelos leves adaptados para operações específicas. A EVMOB não tem como foco veículos destinados a executivos ou equipes comerciais, mas veículos utilizados diretamente nas operações das empresas.

O Mercado Livre está entre os clientes que já tornaram pública a parceria com a EVMOB. Segundo Zanon, as empresas mantêm dois contratos, um firmado em 2024, primeiro ano de operação da EVMOB, e outro assinado neste ano.

O executivo, porém, não divulga o número de veículos envolvidos nos contratos nem a participação da EVMOB na frota elétrica do Mercado Livre sem autorização da empresa. Porém, o executivo afirma que o Mercado Livre está entre os maiores operadores de veículos elétricos da América Latina e destaca que a eletrificação em escala exige soluções diferentes das adotadas em projetos menores.

“A transição de combustão para elétrico traz elementos diferentes. Isso pode, num momento de escala, ser encarado como dor”, afirma. Segundo ele, o objetivo da parceria é justamente encontrar soluções para essas dificuldades à medida que a operação cresce.

A expansão esperada para 2026 faz parte de uma estratégia de crescimento mais ampla. A EVMOB projeta superar 10 mil veículos elétricos no Brasil até 2030. A empresa chegou a mais de 2 mil veículos em pouco mais de dois anos de operação e considera factível multiplicar esse número nos próximos quatro anos.

“Com o que a gente acredita de adesão do elétrico daqui para 2030, o mínimo que a gente espera de crescimento ou de investimento nosso em frota elétrica no Brasil é passar de 10 mil veículos”, afirma Zanon.

A companhia não divulga o volume investido nem projeta a receita para os próximos anos. Segundo o executivo, o modelo de negócio permite que a empresa compre os ativos somente depois de fechar os contratos de longo prazo com os clientes. “Eu só compro o veículo quando eu fecho um contrato. O retorno é assegurado a cada contrato que eu fecho”, explica.

Mais marcas chinesas entram no radar

A expansão da oferta de veículos elétricos também deve aumentar a concorrência entre fabricantes. A Sany, por exemplo, passou a oferecer veículos elétricos no Brasil depois de já atuar no país principalmente com máquinas para construção e mineração. A Foton lançou sua linha elétrica no fim de 2025 e ganhou espaço no mercado em 2026.

A Farizon também passou a disputar o segmento brasileiro. A EVMOB mantém conversas com diferentes fabricantes e já tem relacionamento com a Dongfeng por meio de sua operação no Chile. No país vizinho, a empresa trabalha também com veículos da Maxus.

Zanon não confirma, entretanto, quais fabricantes poderão entrar no mercado brasileiro nem quando isso poderia ocorrer. Para a EVMOB, o aumento da oferta tende a reforçar o movimento de redução de preços e evolução dos produtos, criando condições mais favoráveis para que empresas façam a transição de suas frotas.

O efeito já começa a aparecer nos investimentos da própria companhia: depois de adquirir aproximadamente mil veículos elétricos nos dois primeiros anos, a EVMOB prevê repetir esse volume somente em 2026.

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