A fabricante chinesa Sany deu mais um passo para consolidar sua operação industrial no Brasil. A empresa já montou seis caminhões elétricos na fábrica de Campinas (SP), em uma etapa de validação da linha de produção, e prepara o início da fabricação comercial em 2027. Até o fim deste ano, a companhia pretende montar outras dez unidades para concluir os testes do processo produtivo antes da operação em escala.
Segundo o diretor de vendas da Sany no Brasil, Dieter Lommer, em entrevista à Agência Transporte Moderno, a montagem realizada em julho teve caráter experimental e envolveu caminhões basculantes e cavalos mecânicos 6×4. “Montamos as unidades apenas para validar a linha de montagem. Ainda não é uma produção oficial”, afirmou.
A etapa faz parte da preparação da fábrica para a produção nacional, com foco na validação dos processos, na localização de fornecedores e nos ajustes necessários para que a fabricação regular comece no próximo ano. A expectativa da empresa é que os caminhões produzidos no Brasil já sejam comercializados como modelos 2027. Até lá, a Sany poderá combinar veículos importados e nacionais para atender aos primeiros pedidos durante a fase de transição.
“Se surgir um lote maior de entregas, podemos fazer um mix entre caminhões importados e nacionais durante essa virada de chave”, explicou o executivo.
Sany prepara nacionalização de componentes
Paralelamente aos testes de produção, a Sany avança na busca por fornecedores brasileiros para aumentar o índice de nacionalização dos caminhões fabricados em Campinas. O trabalho começou por componentes considerados mais simples, como pneus, chicotes e cabos, mas já envolve sistemas de maior valor agregado, como eixos dianteiros.
Segundo Lommer, a estratégia da companhia não é apenas realizar a montagem de kits importados, mas desenvolver uma cadeia local de fornecimento capaz de dar mais competitividade à operação brasileira. “Queremos participar da economia local, não apenas com montagem e venda, mas também com fabricação”, afirmou.
A localização de componentes também busca melhorar o controle da cadeia produtiva, aumentar a disponibilidade de peças e adaptar os veículos às necessidades específicas do mercado brasileiro. Além disso, a empresa pretende atingir índices de conteúdo local que permitam acesso a linhas de financiamento nacionais, como as oferecidas pelo BNDES.
O executivo afirmou ainda que, no futuro, a Sany poderá avaliar a nacionalização de componentes de maior valor agregado, incluindo o motor, caso isso represente ganhos competitivos. “Não existe um plano fechado para isso, mas é algo que naturalmente será analisado quando a produção nacional estiver consolidada”, disse.
Conforme Lommer, a empresa já vendeu no Brasil 40 caminhões basculantes que já estão rodando e há mais 30 unidadades encomendadas. “Contudo, o executivo pondera que a preocupação neste momento não é vender mais unidades em 2026. Estamos em uma fase de aquecimento. O foco é 2027”, afirmou.
Para a Fenatran deste ano, a empresa deve apresentar os modelos que já fazem parte do portfólio comercializado no país e avalia levar um novo caminhão elétrico Sany 636 4×2 para aplicações urbanas. A maior aposta da companhia, porém, está no segmento de caminhões elétricos para coleta de resíduos. As três primeiras unidades destinadas ao mercado de saneamento já chegaram ao Brasil para testes. “Tenho um feeling muito bom para esse segmento. Acredito que podemos fazer um belo trabalho no mercado nacional”, afirmou Lommer.
Segundo o executivo, a eletrificação ganha força principalmente em operações com rotas previsíveis, nas quais a redução da exposição às oscilações do preço do diesel pode representar uma vantagem competitiva para os transportadores.
Expansão na América Latina
A estratégia da Sany no Brasil vai além do mercado interno. Segundo Lommer, o país será a base da fabricante para a expansão da marca na América Latina. “O Brasil é o primeiro passo da Sany na região. É daqui que vamos fazer o ponto focal para os demais mercados latino-americanos”, afirmou.
Embora a operação industrial esteja instalada atualmente em Campinas, a empresa mantém um terreno em Jacareí (SP) e não descarta construir uma fábrica própria no futuro. Segundo o executivo, Campinas continuará sendo a base da operação nos próximos anos.
A Sany também pretende ampliar o quadro de funcionários conforme a produção avance. Hoje, a operação conta com cerca de 400 empregados e, para uma fábrica em plena atividade, a expectativa é chegar a aproximadamente 600 profissionais, entre áreas administrativas e produtivas.
A fabricante também acelera a formação da rede comercial no país. Atualmente, a operação conta com quatro pontos oficiais de caminhões que estão sendo implementados e operados pela Irmen no Sudeste. Um novo grupo deverá assumir a cobertura da Região Sul e do Mato Grosso, acrescentando mais quatro unidades até o fim deste ano.
Para 2027, estão previstas novas expansões, principalmente nessas regiões. O plano inicial é chegar a pelo menos 20 casas até o fim de 2027, mas a abertura será feita de forma gradual, acompanhando a evolução das vendas. “Não adianta aumentar o custo fixo do concessionário antes de validar o mercado”, explicou.
Crédito é o principal desafio
Na avaliação de Lommer, o principal desafio para o crescimento do mercado brasileiro de caminhões atualmente é o acesso ao crédito. Segundo ele, as empresas possuem demanda e interesse em renovar suas frotas, mas encontram dificuldades para acessar financiamento. “A questão hoje é crédito. É o que está freando o mercado brasileiro”, afirmou.
A Sany avalia alternativas para ampliar as opções aos clientes, incluindo parcerias com bancos chineses, operações em renminbi (RMB), leasing, consórcios e outras modalidades. A empresa também conta com um banco próprio, que deverá ganhar relevância conforme a operação brasileira amadureça. O executivo afirma que a entrada da instituição financeira reforça a estratégia de longo prazo da companhia no país. “Nós não viemos para uma aventura. A Sany veio para ficar de fato e se consolidar no Brasil.”
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