O mercado de consórcios para caminhões deve encerrar 2026 praticamente no mesmo patamar de 2025, interrompendo a sequência de quedas observada nos últimos anos. A projeção é da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), que estima o fechamento do ano com cerca de 197,5 mil novas cotas comercializadas, desempenho semelhante ao do ano passado e bem superior às expectativas que existiam diante do cenário econômico. Em 2025, o segmento havia registrado queda de 15% frente às 232,89 mil cotas vendidas em 2024.
Os números do primeiro semestre reforçam essa tendência. Entre janeiro e junho, as administradoras venderam 38,02 mil novas cotas de caminhões, retração de 6,9% sobre igual período de 2025. Apesar da queda, o desempenho melhorou gradualmente ao longo dos meses, indicando desaceleração das perdas observadas no início do ano. A própria ABAC destaca que o segmento iniciou 2026 com retração de 11,6% em janeiro e encerrou junho em -6,9%, movimento considerado compatível com uma estabilização até dezembro.
Luiz Barbagallo, economista da ABAC, já havia comentado que o resultado deve ser interpretado dentro do contexto econômico enfrentado pelo transporte rodoviário. “Neste ano, nossa expectativa é de estabilidade. Isso já representa um resultado importante, porque o segmento caiu no ano passado. Estamos falando de vendas de novas cotas”, afirmou durante entrevista ao Videocast Transporte Moderno.
Segundo ele, a cautela dos transportadores está ligada principalmente ao elevado endividamento do agronegócio, às incertezas econômicas e ao adiamento de investimentos. “O agronegócio continua muito endividado. Somam-se fatores como clima, renegociação de dívidas e um ambiente de incertezas que faz muitos empresários adiarem investimentos. Como boa parte da demanda por caminhões vem dessa cadeia, isso acaba refletindo diretamente no consórcio”, explicou.
Recuperação aparece em outros indicadores
Embora as vendas de novas cotas ainda permaneçam abaixo do ano passado, praticamente todos os demais indicadores do segmento evoluíram. O número de participantes ativos passou de 368,39 mil para 382,36 mil, crescimento de 3,8%. As contemplações aumentaram 3,7%, alcançando 20,3 mil consorciados aptos à aquisição do caminhão, enquanto os créditos disponibilizados avançaram 12,7%, chegando a R$ 12,04 bilhões.
O volume financeiro comercializado permaneceu praticamente estável em R$ 9,36 bilhões, mesmo com menor quantidade de cotas vendidas. O motivo foi o aumento expressivo do valor médio dos créditos. O tíquete médio das cotas atingiu R$ 112,3 mil em junho, alta de 21,7% frente aos R$ 92,27 mil registrados um ano antes.
Um em cada três caminhões passa pelo consórcio
Mesmo com menor venda de novas cotas, o consórcio segue exercendo papel relevante na renovação da frota brasileira. De janeiro a junho, foram registradas 20,3 mil contemplações para caminhões. Somadas às 48,04 mil vendas de caminhões novos divulgadas pela Fenabrave, essas contemplações representam potencial equivalente a 29,7% do mercado interno, ou aproximadamente um caminhão a cada três comercializados no país.
Uma das conclusões mais interessantes da análise da ABAC contraria uma percepção bastante difundida no mercado: a de que juros elevados favorecem automaticamente o consórcio. Segundo Barbagallo, estudos estatísticos da entidade mostram que essa relação praticamente não existe.
“O consumidor compara financiamento e consórcio, mas essa correlação direta entre Selic alta e aumento das vendas de cotas é um mito. Historicamente isso não acontece”, afirmou.
Na avaliação do economista, juros elevados acabam prejudicando toda a cadeia do transporte.
“A taxa elevada aumenta os custos das empresas e reduz investimentos. O transportador deixa de financiar, mas também deixa de fazer consórcio. Não é uma simples troca entre modalidades. Quando o ambiente econômico piora, ele posterga a compra do caminhão independentemente da forma de pagamento”, explicou.
Planejamento ganha espaço entre transportadores
Para Barbagallo, o crescimento da modalidade está cada vez mais ligado ao planejamento financeiro das empresas e dos caminhoneiros autônomos. Segundo ele, ao optar pelo consórcio, o transportador reduz o custo financeiro da renovação da frota e consegue organizar melhor o fluxo de caixa.
“O consórcio é uma ferramenta de planejamento. Você programa a troca do caminhão, paga parcelas menores e consegue renovar a frota com impacto financeiro muito menor sobre o negócio”, afirmou.
A própria composição dos clientes vem mudando. Se antes predominavam grandes empresas, hoje cresce a participação dos caminhoneiros autônomos, que utilizam a modalidade para planejar a substituição do veículo e construir histórico de crédito.
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