A perspectiva de uma safra recorde de grãos e de exportações históricas de soja está colocando novamente à prova a infraestrutura logística brasileira. Com a produção estimada em 342,7 milhões de toneladas, frente a uma capacidade estática de armazenagem de 231,1 milhões de toneladas, o país convive com um déficit estrutural que concentra o escoamento nos períodos de pico da colheita e amplia a pressão sobre rodovias, ferrovias e portos.
A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) projeta que as exportações de soja ultrapassem 100 milhões de toneladas em 2026. Apenas entre janeiro e julho, os embarques programados somam mais de 86 milhões de toneladas, enquanto a previsão para julho supera 13 milhões de toneladas, mantendo elevado o fluxo de caminhões, trens e embarcações nos principais corredores de exportação.
Mais do que ampliar a capacidade física dos terminais, o desafio passa a ser aumentar a eficiência das operações para evitar atrasos, preservar a qualidade da carga e manter a competitividade do produto brasileiro nos mercados internacionais.
Gargalos além da capacidade
O aumento da movimentação ocorre em um momento em que os principais corredores logísticos enfrentam pressão crescente durante os períodos de maior demanda. Sem capacidade suficiente para armazenar toda a produção, parte significativa dos grãos segue diretamente das fazendas para os portos, reduzindo a flexibilidade operacional e elevando a necessidade de sincronizar transporte, armazenagem e embarque.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que as exportações brasileiras de soja em grãos alcançaram 69,5 milhões de toneladas no acumulado até junho, volume 7,12% superior ao registrado no primeiro semestre de 2025.
Os embarques pelo Arco Norte responderam por 39,1% desse total, consolidando o corredor como a principal rota de escoamento da commodity, à frente dos portos de Santos e Paranaguá e reforçando a importância da diversificação das rotas de exportação. O avanço das exportações amplia a necessidade de sincronizar armazenagem, transporte terrestre e operações portuárias para evitar gargalos durante os picos da safra.
Embora investimentos em infraestrutura avancem em corredores como o Arco Norte, o crescimento contínuo da produção exigirá ganhos adicionais de produtividade para acompanhar o aumento dos embarques nos próximos anos.
Tecnologia é estratégica
Na avaliação de Franklin Oliveira, líder do setor de Indústria e Portos da AGI Brasil, a eficiência operacional tornou-se um dos principais fatores de competitividade para tradings e operadores logísticos.
Segundo Oliveira, tecnologias de automação, monitoramento e controle digital passaram a desempenhar papel estratégico ao permitir maior precisão na movimentação de grãos e reduzir perdas operacionais ao longo do processo de exportação.
Entre os desafios apontados pelo executivo está o blending de grãos com diferentes características para atender às especificações dos compradores internacionais. A realização dessa mistura diretamente durante o fluxo operacional reduz desvios de qualidade e evita perdas financeiras decorrentes do embarque de cargas fora das especificações contratuais.
Outro ponto crítico é a permanência prolongada dos grãos nos terminais durante períodos de maior congestionamento. Sistemas de monitoramento de temperatura e aeração ajudam a preservar a qualidade do produto e minimizar perdas de peso provocadas pela armazenagem prolongada.
Novas demandas ampliam a complexidade
A expansão do mercado de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) também começa a influenciar os investimentos na infraestrutura portuária. Segundo Oliveira, insumos destinados à produção desses combustíveis, como óleos vegetais, farelos, resíduos agrícolas e outras biomassas, possuem características físicas diferentes das commodities agrícolas tradicionais. Densidade, granulometria e comportamento de fluxo variam de um produto para outro, exigindo sistemas de transporte, armazenagem e carregamento mais flexíveis para evitar entupimentos, segregação de materiais e perdas durante a movimentação.
Os custos de energia também passaram a ocupar posição estratégica na operação dos terminais. Como essas estruturas funcionam continuamente durante os períodos de safra, sistemas inteligentes de acionamento de motores e equipamentos podem reduzir o consumo de eletricidade, ampliar a vida útil dos ativos e diminuir os custos operacionais.
Outra tendência apontada pelo setor é o aumento das exigências de rastreabilidade. Com a expansão dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), estruturas de armazenagem passaram a ser monitoradas com maior rigor, exigindo controles digitais sobre estoques e movimentação das cargas.
Para Oliveira, a expansão da infraestrutura continuará sendo necessária para acompanhar o crescimento do agronegócio brasileiro. No entanto, parte relevante dos ganhos de competitividade dependerá da capacidade de utilizar melhor os ativos já instalados. “O desafio dos próximos anos não será apenas movimentar mais grãos, mas fazer isso com maior precisão, menor desperdício e mais eficiência operacional”, afirma.
Com a produção agrícola mantendo trajetória de crescimento e os embarques de soja em patamar recorde, a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá cada vez mais da capacidade de tornar a logística mais eficiente. Nesse cenário, ganhos de produtividade obtidos por meio da automação, da digitalização e de uma gestão mais inteligente dos ativos tendem a se tornar tão relevantes quanto novos investimentos em infraestrutura.
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