A expansão acelerada do comércio eletrônico está provocando uma mudança silenciosa na logística brasileira. Além de ampliarem capacidade de armazenagem e acelerarem operações para atender entregas cada vez mais rápidas, centros de distribuição passaram a investir em sistemas de segurança física mais robustos para proteger estoques de alto valor, controlar o intenso fluxo de veículos e reduzir riscos operacionais.
A tendência acompanha um mercado de comércio eletrônico que deverá movimentar R$ 259,8 bilhões em 2026, segundo projeção da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom). O avanço das vendas online também impulsiona o mercado imobiliário logístico.
Levantamento da Newmark Brasil mostra que a absorção bruta de galpões industriais e logísticos alcançou 2,054 milhões de metros quadrados no primeiro semestre de 2026, refletindo principalmente a expansão das operações de grandes plataformas de e-commerce e operadores especializados em fulfillment.
Novos galpões elevam exigências de segurança
Além da absorção já efetivada, o mercado contabilizou 448 mil m² em pré-locações de empreendimentos ainda em desenvolvimento apenas entre abril e maio, indicando que a demanda continua pressionando a expansão da infraestrutura logística.
O crescimento do comércio eletrônico também tem levado operadores especializados em fulfillment a ampliar sua infraestrutura. Um exemplo é a Cubbo, que inaugurou em 2026 seu quinto centro de distribuição no Brasil, em Extrema (MG), o segundo aberto apenas neste ano. Em reportagem publicada nesta semana, a Agência Transporte Moderno mostrou como a empresa aposta em software próprio e na otimização dos processos para aumentar a produtividade, preparando sua estrutura para absorver um volume cada vez maior de pedidos sem recorrer à robotização intensiva.
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À medida que essas operações ganham escala, cresce também a necessidade de controlar rigorosamente o acesso de pessoas e veículos, proteger estoques de alto valor agregado e garantir a continuidade das atividades. Em um ambiente onde milhares de pedidos são expedidos diariamente, falhas de segurança podem comprometer prazos de entrega, acordos de nível de serviço (SLAs) e a experiência do consumidor.
Essa mudança no perfil da infraestrutura logística também é percebida por fornecedores de tecnologia para segurança patrimonial. Segundo Marco Barbosa, diretor da Came do Brasil, fabricante de soluções para controle de acesso e alta segurança, a expansão dos centros de distribuição transformou o segmento logístico em um dos principais vetores de crescimento da companhia.
“No segmento de alta segurança, praticamente não sentimos impacto da conjuntura econômica porque o crescimento do e-commerce continua impulsionando a abertura de novos centros de distribuição. Esses empreendimentos demandam soluções capazes de proteger operações críticas e controlar o acesso às instalações.”
Segundo Barbosa, os operadores logísticos têm buscado projetos cada vez mais integrados, que combinam controle de acesso, automação e barreiras físicas para proteger áreas estratégicas sem comprometer o fluxo operacional. Entre as soluções mais demandadas estão cancelas de alta resistência, bollards (pilares retráteis de elevada resistência utilizados para bloquear acessos), road blockers (barreiras que emergem do solo para impedir a passagem de veículos), dilaceradores de pneus instalados nas pistas de acesso, além de detectores de metais e sistemas eletrônicos integrados de monitoramento e controle.
De acordo com o executivo, tecnologias antes restritas a instalações críticas, como aeroportos, terminais portuários e complexos industriais, começam a ganhar espaço também nos grandes centros de distribuição, onde o aumento do volume de mercadorias, do fluxo de caminhões e do valor dos estoques exige níveis mais elevados de proteção física e controle operacional.
Risco operacional redefine projetos logísticos
A preocupação vai além da proteção patrimonial tradicional. Em operações de fulfillment, nas quais milhares de itens entram e saem diariamente dos armazéns, sistemas de controle de acesso passaram a integrar a própria estratégia operacional, ajudando a reduzir fraudes, controlar acessos não autorizados e preservar a integridade das mercadorias.
O roubo de cargas continua representando um dos principais desafios da logística brasileira. Embora as ocorrências tenham apresentado queda nos últimos anos, o setor ainda contabiliza milhares de registros anuais e prejuízos expressivos, que incluem não apenas o valor das mercadorias, mas também custos com seguros, gerenciamento de risco e interrupções operacionais.
Levantamento do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp) aponta que o Estado de São Paulo registrou 3.470 roubos de carga em 2025. Embora o número represente queda em relação aos anos anteriores, as perdas estimadas alcançaram R$ 309 milhões apenas em mercadorias, sem considerar custos indiretos.
O estudo mostra ainda que os crimes acompanham a geografia da logística: a capital respondeu por 62% das ocorrências, enquanto regiões como o eixo oeste, sudoeste e Alto Tietê concentram boa parte dos registros por abrigarem importantes centros de distribuição e corredores de transporte.
Proteção começa no projeto do CD
A crescente ocupação dos condomínios logísticos também contribui para elevar o nível das exigências em relação à infraestrutura dos empreendimentos. Além da localização estratégica, operadores passaram a considerar itens como monitoramento por vídeo, controle eletrônico de acessos, automação de portarias e integração com sistemas de gestão logística como diferenciais para reduzir riscos e aumentar a confiabilidade das operações.
Em um mercado que exige entregas cada vez mais rápidas, estoques distribuídos e funcionamento ininterrupto dos centros de distribuição, a segurança deixa de ser apenas uma barreira física para tornar-se parte da estratégia logística. Proteger mercadorias, pessoas e processos passou a ser tão importante quanto ampliar a capacidade de armazenagem.
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