Quem entra pela primeira vez no centro de distribuição da operadora logística Cubbo, em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, talvez estranhe a ausência de robôs, esteiras automatizadas ou sistemas de armazenagem de alta densidade, tecnologias que passaram a simbolizar a evolução da logística do comércio eletrônico.
Em vez disso, encontra operadores empurrando carrinhos, porta-paletes convencionais e processos de separação e embalagem realizados predominantemente de forma manual.
A impressão inicial, porém, dura pouco. Ao acompanhar o percurso completo de um pedido, percebe-se que a estratégia da empresa não foi automatizar a movimentação física das mercadorias, mas a tomada de decisão. É um software desenvolvido pela própria Cubbo que coordena praticamente toda a operação: define onde cada produto será armazenado, orienta os operadores durante a separação, impede erros de leitura, controla o reabastecimento das posições de picking, emite documentos fiscais e reorganiza automaticamente as prioridades de acordo com os horários de coleta de marketplaces e transportadoras.
A Agência Transporte Moderno acompanhou esse fluxo durante uma visita ao centro de distribuição paulista, que tem 3.500 metros quadrados, opera 19.810 SKUs ativos, mais de 1,780 milhão de itens armazenados, atende mais de 80 clientes simultaneamente e emprega cerca de 65 pessoas na operação regular. Nos períodos de maior demanda, como Black Friday e Natal, esse contingente praticamente dobra para dar vazão ao aumento dos pedidos.
Operação começa antes da chegada da carga
Muito antes de um caminhão estacionar na doca, a operação já está estruturada digitalmente. O primeiro passo consiste em integrar os canais de venda do cliente ao sistema da Cubbo. Plataformas como Shopify, VTEX, WooCommerce e Nuvemshop, além de marketplaces e APIs próprias, passam a compartilhar automaticamente informações de estoque, pedidos e faturamento. O ambiente também reúne toda a configuração fiscal da operação, permitindo a emissão automática de notas fiscais conforme as regras de cada empresa.
Segundo Lucas Garcia, head de Growth da Cubbo, a proposta é transformar a empresa em uma infraestrutura operacional para o comércio eletrônico. “Nossa função é conectar os canais de venda ao estoque e garantir que qualquer alteração de disponibilidade seja refletida imediatamente nos marketplaces e nas lojas virtuais”, afirma.
Entre as empresas atendidas está a Natura, que utiliza diferentes estruturas da Cubbo para abastecer mercados específicos. A companhia mantém estoques em São Paulo, Manaus e Rio Grande do Sul, estratégia que aproxima os produtos dos consumidores e reduz os prazos de entrega. Independentemente do canal de venda — site próprio, TikTok Shop ou marketplace —, o sistema sincroniza automaticamente a disponibilidade dos produtos, evitando vendas duplicadas ou divergências de estoque.

Conferência antes do armazenamento
Quando a mercadoria chega ao centro de distribuição, começa o processo de inbound. Antes de qualquer produto ser armazenado, cada remessa passa pelo check-in, etapa em que operadores conferem quantidades, verificam possíveis avarias e identificam divergências entre a carga recebida e as informações enviadas previamente pelo cliente.
Para empresas que terceirizam a fabricação de seus produtos, esse procedimento funciona também como uma camada adicional de controle de qualidade.
Concluída a conferência, inicia-se o put away. O WMS desenvolvido pela Cubbo determina automaticamente onde cada SKU será armazenado, considerando critérios como giro, características do produto e disponibilidade de espaço. Somente depois dessa etapa o estoque é liberado para venda em todos os canais integrados.
Menos robôs, mais inteligência operacional
Embora boa parte do setor caminhe para operações cada vez mais robotizadas, a Cubbo adotou outro caminho. Em vez de concentrar investimentos em esteiras automatizadas, sistemas goods-to-person ou equipamentos de movimentação autônoma, a empresa decidiu investir principalmente em software.
É o WMS que informa ao operador qual endereço deve acessar, qual produto precisa ser coletado, em qual tote — recipiente utilizado durante a separação — cada item será colocado e até impede a continuidade da operação caso uma leitura incorreta seja realizada.
A lógica reduz praticamente todas as decisões operacionais do colaborador. “Quanto menos decisões o operador precisar tomar, maior tende a ser a produtividade e menor o risco de falhas”, explica Garcia.
Segundo ele, essa estratégia também oferece maior flexibilidade para operações multiclientes. Enquanto estruturas altamente robotizadas costumam ser desenhadas para fluxos repetitivos e grandes volumes homogêneos, o fulfillment do comércio eletrônico exige lidar diariamente com milhares de SKUs diferentes, alterações constantes no mix de produtos e pedidos que muitas vezes contêm apenas uma unidade.
“Você tem muito mais espaço para ganhar produtividade com software, inteligência de dados e automação de processos do que necessariamente com automação de hardware”, afirma. Essa opção permite adaptar rapidamente o layout da operação conforme a entrada de novos clientes, incorporar equipes temporárias durante períodos sazonais e ampliar a capacidade sem depender de grandes intervenções na infraestrutura.

Corrida contra o relógio
Depois que um pedido entra no sistema, começa uma disputa silenciosa contra o tempo. Embora o indicador geral estabeleça um prazo de até 24 horas entre o recebimento do pedido e sua expedição, alguns marketplaces trabalham com janelas muito menores. Na Shopee, por exemplo, compras realizadas até determinado horário da manhã precisam estar prontas para coleta menos de uma hora depois.
Para atender esses prazos, o WMS reorganiza automaticamente as prioridades da operação. Os pedidos são separados em lotes. Cada operador percorre o armazém empurrando um carrinho equipado com diversos totes, coletando simultaneamente itens destinados a diferentes consumidores. Durante todo o percurso, o coletor de dados valida cada leitura por código de barras e bloqueia qualquer tentativa de retirada em posição incorreta.
Depois da separação, os pedidos seguem para a área de packing, onde são conferidos, embalados e registrados por câmeras. O procedimento cria uma evidência visual de todos os produtos inseridos na embalagem, permitindo identificar posteriormente se uma eventual divergência ocorreu dentro do centro de distribuição ou durante o transporte.
A própria organização física do armazém acompanha essa lógica operacional. As posições inferiores concentram os produtos destinados ao picking diário, enquanto os níveis superiores funcionam como estoque pulmão, responsável pelo reabastecimento contínuo das áreas de separação.
Da expedição à última milha
O trabalho do centro de distribuição não termina quando a embalagem é lacrada. Depois do packing, os pedidos são novamente bipados, recebem a confirmação de expedição e seguem para a coleta. Dependendo do canal de venda, a retirada é feita pelas próprias transportadoras contratadas pelos marketplaces — como Shopee e TikTok Shop — ou por parceiros logísticos integrados à Cubbo.
Há ainda operações mais complexas, como os clubes de assinatura, em que os envios são programados para que consumidores de diferentes regiões recebam seus produtos praticamente na mesma data. Para isso, a empresa ajusta o momento da postagem de acordo com a distância entre o centro de distribuição e o destino final.
Segundo Cristiana Cavalcanti, head de Last Mile da Cubbo, a velocidade continua sendo um diferencial competitivo, mas deixou de ser o único indicador relevante. “O cliente final avalia toda a experiência de compra. Não basta entregar rápido; é preciso entregar corretamente, dentro do prazo prometido e com visibilidade durante todo o percurso.”
Quando a entrega é realizada pela operação própria da Cubbo, o trajeto ainda reserva mais uma etapa. Em vez de seguir diretamente para o consumidor, os pedidos são transferidos para uma delivery station localizada na Lapa, zona oeste da capital paulista. A unidade funciona como um centro de consolidação da última milha.
Ao chegar ao local, cada pacote é novamente conferido por leitura de código de barras, procedimento que confirma sua entrada física na estação. Em seguida, as encomendas são separadas por região e organizadas conforme as rotas dos motoristas responsáveis pelas entregas.
A operação própria concentra atualmente os atendimentos na Região Metropolitana de São Paulo, Campinas, Guarulhos e ABC Paulista, enquanto o restante do país é coberto por transportadoras parceiras.
Em períodos regulares, a estrutura paulista movimenta cerca de 15 mil pacotes por mês. Na Black Friday e no Natal, esse volume pode dobrar, exigindo o reforço das equipes e da frota. No Sul do país, onde a Cubbo também opera uma estrutura própria de distribuição, o fluxo varia entre 35 mil e 65 mil pacotes mensais.
Segundo Cristiana, manter uma malha própria restrita às regiões onde a empresa consegue garantir alto nível de serviço faz parte da estratégia da companhia. “Expandir demais a cobertura pode significar aumentar etapas intermediárias e comprometer justamente aquilo que o cliente mais valoriza: velocidade e previsibilidade.”
Crescer para cima
Embora a Cubbo continue ampliando sua presença nacional, a expansão da capacidade instalada não depende apenas da abertura de novos centros de distribuição. Em Embu das Artes, a empresa prepara a construção de um mezanino para verticalizar parte da operação. A estrutura criará um novo pavimento destinado principalmente às áreas de picking e packing, justamente as etapas que concentram maior movimentação diária.
O projeto permitirá aumentar a capacidade operacional sem ampliar a área ocupada pelo galpão. Dependendo da configuração adotada, o módulo poderá receber novos níveis de armazenagem e preparação de pedidos.
A opção pela verticalização está alinhada ao próprio conceito da operação. Como a empresa não depende de equipamentos robotizados fixos, o layout pode ser reorganizado com rapidez para acomodar novos clientes, aumentar posições de armazenagem ou redistribuir áreas de trabalho conforme o perfil da demanda.
Expansão acompanha crescimento do e-commerce
A estratégia também passa pela ampliação da malha logística. Em 2026, a Cubbo inaugurou seu quinto centro de distribuição no Brasil, em Extrema (MG), o segundo aberto somente neste ano. A unidade possui 2,2 mil metros quadrados e recebeu investimento de R$ 450 mil.
Além da localização estratégica, próxima aos principais corredores rodoviários do Sudeste, a escolha por Extrema também levou em conta o ambiente tributário favorável e a crescente demanda de empresas interessadas em descentralizar seus estoques.
Com a nova unidade, a companhia passou a operar oito centros de distribuição entre Brasil e México. Atualmente, atende aproximadamente 300 marcas e processa mais de 1 milhão de pedidos por mês. Segundo a empresa, a operação brasileira cresceu 310% entre 2024 e 2025, enquanto a receita global projetada para este ano é de US$ 68 milhões.
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