Excesso de navios deve derrubar lucro das armadoras, diz estudo

Levantamento aponta que expansão acelerada da frota supera o crescimento da demanda e inaugura um novo ciclo para o transporte marítimo de contêineres

Aline Feltrin

O transporte marítimo de contêineres entrou em um novo ciclo. Depois de anos de rentabilidade elevada impulsionada pela pandemia, pela crise no Mar Vermelho e pelos gargalos logísticos globais, as principais armadoras passam a enfrentar um cenário de excesso de capacidade, queda dos fretes e deterioração dos resultados financeiros.

Essa é a conclusão do relatório Container Shipping Financial Health Check 2026, publicado pela consultoria britânica Drewry, que projeta uma queda de 96,7% no lucro operacional (EBIT) do setor em 2026 na comparação com o ano anterior. Segundo a consultoria, a combinação entre a entrega de novos navios, demanda mais fraca e possível normalização das rotas pelo Canal de Suez deve pressionar ainda mais as tarifas do transporte marítimo.

A Drewry também revisou para baixo sua estimativa para 2025. Agora, o lucro operacional da indústria é estimado em US$ 32 bilhões, abaixo da previsão anterior, refletindo a queda mais acentuada das tarifas spot nas principais rotas leste-oeste. A consultoria não informa, no comunicado, qual era a estimativa anterior.

Segundo a consultoria, o principal problema é estrutural: a capacidade da frota mundial cresce mais rapidamente do que a demanda por transporte de cargas.

Durante os anos de fretes elevados, as armadoras encomendaram centenas de novos porta-contêineres. Essas embarcações começaram a ser entregues em grande escala justamente em um momento em que o comércio internacional voltou a crescer em ritmo mais moderado. Ao mesmo tempo, poucas embarcações antigas estão sendo retiradas de operação, ampliando ainda mais a oferta de espaço nos navios.

Outro fator que pode ampliar esse desequilíbrio é a retomada gradual das viagens pelo Canal de Suez. Durante a crise no Mar Vermelho, os desvios pelo Cabo da Boa Esperança aumentaram o tempo das viagens e reduziram a capacidade efetiva da frota. Com a normalização parcial da rota, mais navios voltam a ficar disponíveis, aumentando a concorrência e pressionando os fretes para baixo.

A Drewry destaca que, apesar desse cenário, o crescimento do volume transportado em 2025 evitou uma deterioração ainda maior dos resultados. A antecipação de embarques para escapar de tarifas comerciais e a forte demanda por produtos chineses em mercados emergentes, especialmente na África e no Sudeste Asiático, sustentaram parte da movimentação global de contêineres. (Drewry)

Endividamento aumenta

O estudo mostra que a expansão da frota também elevou o nível de endividamento das armadoras. Para financiar os programas de construção de novos navios, diversas companhias recorreram tanto à contratação de novas dívidas quanto à liquidação de investimentos financeiros, reduzindo a robustez de seus balanços.

A consultoria projeta que esse movimento continuará em 2026, já que parte significativa da carteira global de encomendas ainda será entregue nos próximos meses. Em alguns grupos de navegação, o volume de pedidos de novos navios cresceu várias vezes em relação aos anos anteriores. (Drewry)

Outro desafio identificado pela Drewry é o endurecimento da regulamentação ambiental. A partir de 2026, o Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (EU ETS) passou a cobrir integralmente as emissões enquadradas na legislação. Como consequência, armadores europeus aceleraram as encomendas de embarcações movidas a gás natural liquefeito (GNL), enquanto empresas asiáticas continuam concentrando seus investimentos em navios convencionais, beneficiadas por regras ambientais menos rigorosas em seus mercados domésticos. (Drewry)

Empresas seguem financeiramente sólidas

Apesar da piora das perspectivas, a Drewry avalia que as grandes companhias permanecem financeiramente estáveis.

O relatório analisou os balanços de 12 das principais armadoras globais — entre elas Maersk, Hapag-Lloyd, COSCO Shipping, ONE, Evergreen, HMM, ZIM, Yang Ming, OOCL, SITC, Wan Hai e Samudera Shipping — e constatou uma redução nos indicadores de saúde financeira medidos pelo índice Altman Z-Score. Ainda assim, a consultoria afirma que o setor continua distante de um cenário de risco sistêmico, embora a rentabilidade deva sofrer forte compressão após os ganhos extraordinários registrados entre 2021 e 2024.

Para exportadores e importadores, o cenário pode representar fretes marítimos mais competitivos. Para as armadoras, entretanto, o desafio será administrar uma indústria com capacidade crescente, margens menores e custos mais elevados em um ambiente de maior volatilidade geopolítica.

Estudo: Container Shipping Financial Health Check 2026 – Drewry

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