Pneus nacionais podem ganhar financiamento com juros menores ainda em 2026; entenda

Entidade afirma que proposta avançou nas discussões com o governo e defende financiamento nos moldes do Move Brasil para apoiar transportadores e indústria brasileira diante do avanço dos importados, principalmente chineses

Aline Feltrin

A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) acredita que uma linha de crédito para aquisição de pneus nacionais pode ser implementada ainda em 2026. A proposta, segundo o presidente-executivo da entidade, Rodrigo Navarro, avançou nas conversas com diferentes áreas do governo federal e está sendo analisada como uma alternativa para apoiar a indústria brasileira diante do avanço das importações, principalmente de produtos vindos da China.

Em entrevista à Agência Transporte Moderno, Navarro afirmou que a ideia é utilizar estruturas já existentes, como linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ajustando condições como prazo de carência e taxa de juros para facilitar o acesso dos transportadores aos pneus produzidos no país.

A proposta seguiria uma lógica semelhante à adotada pelo Move Brasil, programa criado para estimular a renovação da frota de caminhões e ônibus, com financiamento em condições diferenciadas. “Você pega um pneu cadastrado no BNDES, dá uma carência, uma taxa de juros subsidiada pelo governo por determinado período e permite que o transportador compre esse pneu, rode, receba pelo trabalho e comece a pagar depois”, afirmou.

Para o executivo, a medida teria impacto positivo tanto para os fabricantes quanto para os transportadores. O pneu, segundo ele, é o segundo maior custo de uma operação de transporte rodoviário, atrás apenas do diesel. “Não estamos reinventando a roda. Os critérios já existem no cartão BNDES. O que precisa é ajustar prazo e taxa para que o transportador consiga acessar”, disse.

Medidas podem sair nos próximos meses

Navarro afirmou que a Anip tem expectativa de que as primeiras ações sejam adotadas ainda neste ano. Segundo ele, as conversas com o governo avançaram com diferentes ministérios, incluindo Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Fazenda, Meio Ambiente e Agricultura. “Eu estou trabalhando com isso. A minha expectativa é exatamente nos próximos dois meses, agosto e setembro”, afirmou.

Segundo o executivo, a entidade apresentou estudos e propostas ao governo e agora espera uma decisão. “Tudo o que a gente podia fazer do nosso lado já fizemos. Entregamos estudos, propusemos ideias. Agora é a hora de implementar”, disse.

Além da linha de financiamento, a Anip defende a retomada do licenciamento não automático para importações de pneus. A medida permitiria uma análise mais detalhada dos produtos que entram no país, especialmente em relação a preços, peso e cumprimento de normas ambientais.

Pneus de carga têm 73% de participação de importados

No segmento de pneus de carga, principal foco da indústria ligada ao transporte rodoviário, os produtos importados responderam por 73% do mercado de reposição entre janeiro e junho deste ano, enquanto a indústria nacional ficou com 27%.

Segundo a Anip, a maior parte desses pneus importados vem da China, país que ampliou sua presença no mercado brasileiro nos últimos anos. Considerando todo o mercado de reposição, os produtos estrangeiros representaram 71% das vendas no período, contra 29% dos fabricantes instalados no Brasil.

Para Navarro, o cenário mostra que o avanço das importações deixou de ser um movimento pontual e passou a pressionar toda a cadeia produtiva nacional. A preocupação da entidade, segundo ele, não está apenas no aumento do volume importado, mas também em características dos produtos que entram no país, como preço declarado, peso e cumprimento de exigências ambientais.

Ele citou como exemplo dados oficiais que indicariam a entrada de pneus de carga com peso médio muito inferior ao esperado. “Você tem, de acordo com dados oficiais, pneu de carga trazido na média por 20 quilos. Que pneu de 20 quilos é esse, quando normalmente você tem pneus de 50, 60 quilos?”, questionou.

Segundo Navarro, a entidade pediu análises para verificar se existem distorções relacionadas a valores declarados, peso dos produtos ou eventuais problemas de conformidade.

Indústria cobra controle ambiental das importações

Outro ponto defendido pela Anip é o cumprimento das metas ambientais previstas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Navarro afirma que a entidade quer garantir que todos os pneus importados cumpram as mesmas exigências aplicadas aos fabricantes nacionais.

“O que a gente quer é que todos joguem o mesmo jogo. Não pode ter dumping, não pode ter falta de cumprimento de norma ambiental”, afirmou. Para ele, a discussão não envolve impedir a importação, mas garantir equilíbrio competitivo entre produtos nacionais e estrangeiros.

“Não estamos querendo brigar contra o importado. O que queremos é que ele entre dentro das regras”, disse.

Na avaliação da Anip, a pressão sobre a indústria já começa a afetar outros segmentos ligados ao setor, como produtores de borracha natural e empresas de reforma de pneus. Navarro destacou que o Brasil possui uma cadeia produtiva ampla e que a redução da produção nacional pode gerar efeitos em diferentes áreas.

“Se a indústria não vende, ela compra menos borracha. E isso afeta também o produtor rural”, afirmou. executivo citou ainda um estudo apresentado recentemente que apontou que pneus fabricados no Brasil possuem maior potencial de reforma do que produtos importados.

A análise, baseada em cerca de 700 mil pneus, indicou que os pneus nacionais seriam 16% mais reformáveis. Segundo Navarro, a entrada de pneus importados com preços muito baixos pode prejudicar um dos maiores mercados de reforma do mundo. “O pneu que poderia ser reformado uma, duas ou três vezes acaba indo direto para o meio ambiente”, afirmou.

Investimentos e empregos estão em risco

A Anip afirma que o setor reúne atualmente cerca de 35 mil empregos diretos e aproximadamente 500 mil indiretos. Nos últimos cinco anos, as empresas associadas investiram cerca de R$ 8 bilhões e possuem previsão de outros R$ 5 bilhões em investimentos para os próximos cinco anos.

Navarro alerta, porém, que a continuidade do cenário atual pode afetar decisões futuras das empresas. Segundo ele, algumas fabricantes já adotaram medidas como férias coletivas e ajustes de produção para adequar a capacidade instalada à demanda.

“Quando essas medidas paliativas não conseguem resolver, naturalmente vem redução de quadro e redução de linhas”, afirmou. O executivo citou também o risco de perda de investimentos no médio e longo prazo caso o ambiente de negócios continue desfavorável. “Você vai continuar investindo em um cenário que mostra que não vai mudar? Essa análise está sobre a mesa de todas as empresas”, disse.

Tarifaço aumenta preocupação da indústria

Além da concorrência dos importados no mercado brasileiro, a indústria também acompanha os impactos das medidas comerciais adotadas por outros países. Navarro citou que a Europa aplicou sobretaxa de 45,3% sobre pneus importados e que o México elevou tarifas para 35%.

No Brasil, segundo ele, a discussão ganhou força após o chamado tarifaço e seus impactos sobre exportações. Os Estados Unidos representam entre 35% e 37% das exportações brasileiras de pneus, segundo a entidade. “Precisamos ter uma indústria forte aqui dentro. Se não tiver indústria aqui, a preocupação com exportação perde sentido”, afirmou.

Para Navarro, mais importante do que uma medida isolada é uma sinalização de política industrial que dê segurança para as empresas continuarem investindo no país. Segundo ele, a entidade também solicitou uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva envolvendo representantes da indústria de pneus, trabalhadores do setor e produtores de borracha natural.

A expectativa da Anip é que medidas de curto prazo sejam anunciadas ainda em 2026. “Não existe uma bala de prata. São várias medidas que precisam ser tomadas. O que precisamos agora é uma sinalização para mostrar que o Brasil quer fortalecer sua indústria”, afirmou.

Para o executivo, o momento é decisivo para evitar uma deterioração maior da cadeia produtiva. “Chegamos no limite. A gente entregou propostas, estudos e alternativas. Agora precisamos que essas medidas sejam colocadas em prática”, concluiu.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Aviso de reprodução Este conteúdo pode ser compartilhado com responsabilidade

Este conteúdo pode ser reproduzido, desde que seja citada a fonte com link: Agência Transporte Moderno. Respeitar a autoria e indicar a origem da informação contribui para fortalecer o bom jornalismo e a produção de conteúdo confiável.