Fiscalização digital acelera formalização do transporte rodoviário

Regularização no RNTRC avança 128% após revalidação e reforça peso da conformidade para acesso a contratos, seguros e crédito

Valeria Bursztein

Criticado pelo setor durante sua implementação, principalmente pelo risco de suspensão de registros e pelos impactos operacionais da atualização cadastral, o processo de revalidação do Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) acabou produzindo um efeito que vai além da simples atualização de cadastros: acelerou o movimento de formalização e profissionalização do transporte rodoviário de cargas brasileiro.

Dados do Anuário TRC 2025 mostram que as transportadoras ampliaram em 128% a regularização de seus registros após a revalidação promovida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O número é interpretado por especialistas como um reflexo do avanço da fiscalização baseada em dados e da crescente exigência de conformidade por parte de embarcadores, seguradoras e instituições financeiras.

Após o impacto inicial da revalidação, o número de Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas (ETCs) com registros ativos, pendentes ou suspensos passou de 123.003 para 280.036 até dezembro de 2025.

O avanço da regularização acompanha a integração crescente entre as bases eletrônicas utilizadas para monitorar o transporte rodoviário de cargas, tornando mais difícil a manutenção de operações informais ou com pendências cadastrais.

Durante a fase mais crítica da revalidação, no início de 2024, mais de 240 mil transportadoras ainda não haviam atualizado seus registros e estavam sujeitas à suspensão do cadastro, segundo dados divulgados pela própria agência reguladora e por entidades do setor. Considerando todas as categorias do RNTRC — empresas, cooperativas e transportadores autônomos — o universo de registros pendentes ultrapassava 700 mil operadores.

Cristiano José Baratto, advogado especialista em Direito aplicado ao transporte e à logística /Foto: Divulgação

Para o advogado Cristiano José Baratto, especialista em Direito aplicado ao transporte e à logística, a mudança demonstra que a conformidade regulatória passou a ocupar posição estratégica dentro das transportadoras.

“Esse porcentual não representa simplesmente um aumento no número de empresas, mas um esforço expressivo de regularização. As transportadoras perceberam que manter o cadastro em conformidade deixou de ser apenas uma obrigação legal para se tornar um requisito essencial para operar em um mercado cada vez mais fiscalizado, digitalizado e exigente”, afirma.

Leia mais

Avanço das chinesas leva transportadora a investir em 300 caminhões e mirar R$ 1,4 bi em receita
Depois de iniciar projeto com biometano, TransJordano usa Move Brasil para negociar 100 caminhões Scania a diesel
Megacomplexo da Potencial movimenta 380 caminhões por dia

O custo da irregularidade

A irregularidade cadastral deixou de representar apenas risco de autuação. Hoje, transportadoras com pendências no RNTRC podem enfrentar dificuldades para contratar com grandes embarcadores, participar de processos de homologação, contratar seguros, acessar linhas de financiamento ou atender exigências de auditoria e compliance impostas por clientes nacionais e internacionais.

As penalidades financeiras também se tornaram mais relevantes. Transportar cargas remuneradas com o RNTRC suspenso, pendente ou cancelado pode gerar multas de R$ 3 mil por ocorrência. A contratação de transportadores irregulares sujeita embarcadores e contratantes à mesma penalidade. Já a falta de atualização cadastral ou da revalidação pode resultar em multas de R$ 750, enquanto a apresentação de informações falsas pode levar ao cancelamento do registro e ao impedimento de obtenção de novo RNTRC por dois anos.

O impacto econômico da irregularidade pode, inclusive, superar o valor das multas, principalmente em operações com grandes indústrias, varejistas e operadores logísticos que exigem comprovação documental e regulatória para homologação de fornecedores.

Fiscalização migra para bancos de dados

Criado originalmente como um cadastro regulatório, o RNTRC passou a ocupar posição central na estratégia de fiscalização do transporte rodoviário brasileiro. Hoje, a base é integrada a sistemas como o Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), o Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e), os sistemas de pagamento eletrônico de frete, o vale-pedágio obrigatório e os mecanismos de controle do transporte de produtos perigosos.

Na prática, isso significa que a fiscalização deixou de ocorrer apenas em postos de pesagem e operações de campo para acontecer também nos bancos de dados. O movimento já começa a produzir efeitos em outras áreas regulatórias. Em 2026, a verificação eletrônica das apólices do seguro RC-V resultou em forte crescimento das contratações, após a ANTT vincular a manutenção do cadastro à comprovação da regularidade das coberturas exigidas.

“Hoje, o desafio não é apenas transportar cargas com eficiência, mas demonstrar conformidade ao longo de toda a operação. As empresas precisam investir não somente em frota e produtividade, mas também em processos internos, organização documental e governança”, afirma Baratto.

Informalidade ainda desafia o setor

O Anuário TRC 2025 registrou ainda a emissão de 124 mil novos registros no RNTRC, maior volume da série histórica e aproximadamente 50% superior ao observado em 2015.

Embora não exista um indicador oficial de informalidade no transporte rodoviário de cargas, especialistas apontam que a integração entre RNTRC, CIOT, MDF-e e sistemas de seguros tende a reduzir progressivamente o espaço para operações fora da regulação.

Além de ampliar o número de registros, a revalidação do RNTRC parece ter acelerado um processo de formalização e profissionalização que já vinha ganhando força no transporte rodoviário de cargas, impulsionado pelo avanço da fiscalização digital e pelas exigências crescentes de embarcadores e seguradoras.

No transporte rodoviário brasileiro, a regularidade cadastral deixou de ser apenas uma obrigação administrativa e passou a integrar a estratégia comercial e operacional das empresas.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Newsletter O que move o mercado, primeiro para você

Receba as principais notícias, análises e tendências do transporte moderno diretamente no seu e-mail e acompanhe atualizações em tempo real pelo nosso canal oficial.