As certificações ambientais devem assumir papel cada vez mais relevante na estratégia de descarbonização do transporte brasileiro. A avaliação foi apresentada durante painel do Fórum Transporte Sustentável, realizado pela OTM Editora na fábrica da Scania, em São Bernardo do Campo (SP), que discutiu como instrumentos como CBIO, I-REC, Gas-REC e o futuro CEGOB estão ampliando as alternativas para empresas comprovarem a redução de emissões e atenderem metas ambientais.
Segundo João Araújo, analista de Relações Institucionais e Governamentais da Scania, o avanço das certificações acompanha a transformação do ecossistema de transporte, impulsionada pela expansão dos biocombustíveis, pela economia circular e pela necessidade crescente de rastrear e comprovar resultados ambientais.
“O ecossistema de sustentabilidade, quando a gente pensa em produção e operação de transporte, está mudando bastante”, afirmou Araújo durante o painel. A proposta, segundo ele, é transformar passivos ambientais, como resíduos orgânicos, em ativos energéticos capazes de gerar combustíveis renováveis, especialmente o biometano.
“Como transformar aquilo que hoje é um passivo ambiental em um ativo energético com geração de energia? Essa é uma das discussões centrais da descarbonização”, disse o executivo.
Mercado regulado e mercado voluntário
Araújo destacou que as certificações podem surgir a partir de exigências regulatórias ou da iniciativa voluntária das empresas. Um dos principais exemplos do mercado regulado é o Crédito de Descarbonização (CBIO), criado no âmbito da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio).
Pelo modelo, distribuidoras e importadoras de combustíveis fósseis precisam adquirir créditos para compensar parte das emissões associadas às suas operações. Os certificados são emitidos por produtores de biocombustíveis e negociados em ambiente regulado na B3, criando um mecanismo econômico voltado à expansão dos combustíveis renováveis.
Ao lado desse sistema, cresce o chamado mercado voluntário, formado por empresas que desejam comprovar o uso de energia renovável ou biocombustíveis em suas operações, mesmo sem obrigação legal. É nesse ambiente que ganham espaço certificados como I-REC, voltado à energia elétrica renovável, e Gas-REC, relacionado ao biometano.
Segundo Araújo, esses instrumentos surgiram para atender empresas interessadas em comprovar seus resultados ambientais independentemente de exigências regulatórias. “As empresas interessadas em garantir o uso e a descarbonização das suas operações podem fazer parte desse mercado voluntário”, afirmou.
Rastreabilidade e comprovação ambiental
De acordo com Araújo, as certificações cumprem cinco funções principais: garantir rastreabilidade, comprovar a origem do combustível ou da energia utilizada, assegurar processos auditáveis, apoiar a divulgação de balanços de sustentabilidade e viabilizar o cumprimento de metas obrigatórias ou voluntárias. “Uma vez tendo um certificado auditável, você tem certeza de que aquele biocombustível foi produzido da maneira correta e possui lastro sustentável”, explicou Araújo.
Como exemplo, o executivo informou que a Scania utiliza certificados para assegurar que todo o gás consumido em suas operações fabris tenha origem em biometano. A certificação permite que empresas localizadas longe dos polos produtores também possam comprovar atributos ambientais associados ao combustível consumido, contribuindo para o desenvolvimento do mercado e criando receitas adicionais para produtores de biometano.
Além de apoiar estratégias ESG, os certificados passaram a ser utilizados por empresas auditadas para demonstrar resultados ambientais em relatórios corporativos e compromissos de descarbonização baseados no GHG Protocol.
Combustível do Futuro deve ampliar demanda
A expectativa apresentada no Fórum é de crescimento do mercado de certificações nos próximos anos, impulsionado principalmente pela regulamentação da Lei do Combustível do Futuro. A legislação estabelece metas progressivas para ampliação da participação de etanol, biodiesel e biometano na matriz energética brasileira.
Entre os instrumentos em desenvolvimento está o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CEGOB), que ainda passa pelos ajustes regulatórios finais. Segundo Araújo, o mecanismo deverá criar um novo mercado de atributos ambientais associado ao gás renovável, beneficiando tanto produtores quanto consumidores industriais e operadores de transporte movidos a gás.
Para Araújo, os mercados regulado e voluntário tendem a coexistir e avançar simultaneamente, ampliando as opções para transportadores, embarcadores e demais empresas interessadas em reduzir emissões e comprovar a sustentabilidade de suas operações. “É um mercado que tende a crescer. Primeiro há um impulso regulatório federal e, depois, ele começa a se desenvolver também no mercado voluntário”, concluiu.
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