Anfavea reage a benefício para BYD e fala em insegurança jurídica

Entidade critica decisão do Gecex sobre kits CKD e SKD e alerta para riscos a investimentos e empregos no país

Redação

A decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) de restabelecer incentivos para a importação de veículos elétricos desmontados e semidesmontados (CKD e SKD) acirrou a disputa entre montadoras instaladas no Brasil e fabricantes chinesas, especialmente a BYD.

Em nota divulgada esta semana, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) classificou a medida como “preocupante” e afirmou que ela compromete a previsibilidade regulatória e os investimentos planejados pela indústria automotiva nacional.

A manifestação ocorre horas após o Gecex decidir reabrir cotas com benefícios tarifários para a importação de kits CKD e SKD, pleito defendido pela BYD e que vinha sendo contestado pelas montadoras tradicionais instaladas no país. Nos bastidores, o tema já vinha provocando forte tensão entre os grupos e havia levado a Anfavea a cogitar recorrer à Justiça caso o governo alterasse as regras sem diálogo prévio com o setor.

Segundo a entidade, a medida foi tomada sem consulta ao setor produtivo e altera uma política definida anteriormente pelo próprio governo, que previa o encerramento das cotas em fevereiro deste ano, após um período transitório de estímulo à eletromobilidade. A associação sustenta que a extensão dos incentivos beneficia operações baseadas na simples montagem de kits importados, reduzindo o estímulo à nacionalização da produção.

Da eletrificação para o conteúdo local

Para a Anfavea, o debate sobre a transição energética no setor automotivo já está superado. A entidade argumenta que a questão central passa a ser o grau de agregação de valor local na nova indústria da mobilidade.

“A discussão deixou de ser como acelerar a entrada dos veículos eletrificados no mercado brasileiro. O desafio agora é garantir que essa transformação gere mais produção local, desenvolvimento tecnológico, fornecedores, engenharia e agregação de valor no país”, afirmou em nota oficial a associação.

A entidade destaca que as montadoras anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, destinados à eletrificação, modernização industrial, pesquisa e ampliação da cadeia de fornecedores. Segundo a Anfavea, esses aportes foram estruturados com base no cronograma tarifário anteriormente pactuado com o governo.

Os números do próprio setor indicam avanço da produção local de eletrificados. Em 2025, veículos eletrificados produzidos no país responderam por 25,9% das vendas do segmento, enquanto, entre janeiro e maio de 2026, as vendas de modelos nacionais cresceram 57% na comparação anual, segundo a entidade.

Efeitos podem alcançar logística urbana

Embora a disputa esteja concentrada nos automóveis de passeio, os efeitos da medida também podem atingir o segmento de veículos comerciais leves, especialmente vans e furgões elétricos utilizados em operações de distribuição urbana e última milha.

Nos últimos anos, fabricantes chinesas ampliaram sua presença nesse nicho, impulsionadas pelo avanço do comércio eletrônico e pelas metas de descarbonização de transportadores e embarcadores. Ao mesmo tempo, montadoras tradicionais anunciaram investimentos para ampliar a produção local de veículos eletrificados, incluindo modelos destinados às operações logísticas.

Para operadores logísticos, a decisão pode acelerar a entrada de novos modelos importados no mercado brasileiro e aumentar a concorrência em um segmento considerado estratégico para a eletrificação do transporte urbano de cargas.

Empregos e cadeia de autopeças

A Anfavea também voltou a alertar para os impactos da ampliação das importações via CKD e SKD sobre a cadeia de autopeças e o emprego industrial. Estudo divulgado pela entidade no início do ano estimou que a substituição da produção local pela montagem de kits importados poderia provocar perdas de até R$ 103 bilhões em compras junto a fornecedores nacionais, além de afetar cerca de 69 mil empregos diretos nas montadoras e outros 227 mil postos na cadeia de autopeças.

Para a associação, embora incentivos à importação possam ser relevantes nas fases iniciais de implantação de novas fábricas, sua manutenção em um momento em que investimentos já foram anunciados e a produção local começa a ganhar escala tende a reduzir os estímulos à nacionalização da indústria.

A disputa em torno dos incentivos deve permanecer no centro das discussões entre governo, montadoras tradicionais e fabricantes chinesas nas próximas semanas, podendo inclusive desaguar na esfera judicial, conforme já sinalizou a entidade.

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