A indústria aérea mundial deverá registrar uma forte redução na rentabilidade em 2026. A projeção foi apresentada por Willie Walsh, diretor-geral da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo), durante a 82ª Assembleia Geral da entidade, realizado no Rio de Janeiro na semana passada.
Segundo a associação, o lucro líquido global das companhias aéreas deve recuar de US$ 45 bilhões em 2025 para US$ 23 bilhões em 2026. A margem líquida do setor também deverá cair de 4,2% para 2%. O principal fator por trás da deterioração dos resultados é a alta dos custos operacionais, especialmente do combustível.
A Iata estima que o preço médio do querosene de aviação (QAV) ficará cerca de 70% acima do registrado no ano anterior, acrescentando aproximadamente US$ 100 bilhões à conta global de combustível das empresas aéreas.
Apesar da pressão sobre os custos, a demanda por transporte aéreo continua resiliente. A entidade projeta crescimento de 2,1% no mercado de passageiros e de 0,7% no transporte de cargas em 2026, ainda que em ritmo inferior ao observado nos últimos anos.
“Os passageiros continuam viajando mesmo diante do aumento das tarifas, mas a grande incógnita é por quanto tempo consumidores e embarcadores estarão dispostos a absorver custos mais elevados de conectividade”, afirmou Walsh.
Falhas na cadeia de suprimentos
Além do combustível, a Iata voltou a criticar duramente os fabricantes de aeronaves e motores pelos atrasos nas entregas e pelos gargalos na cadeia de suprimentos do setor aeroespacial. De acordo com a entidade, a carteira global de pedidos ultrapassa 18 mil aeronaves, enquanto a idade média da frota mundial atingiu o recorde de 15,2 anos.
A associação calcula que as companhias aéreas operam atualmente com um déficit superior a 5 mil aeronaves mais eficientes que deveriam ter sido entregues nos últimos anos. O impacto inclui maior consumo de combustível, aumento dos custos de manutenção e elevação dos valores de leasing.
Segundo Walsh, as falhas da cadeia de suprimentos geraram prejuízos estimados em pelo menos US$ 11 bilhões para as companhias aéreas em 2025. “O setor precisa de motores que funcionem e tenham a durabilidade prometida. Permitir que esses problemas se prolonguem para a próxima década é inaceitável”, afirmou o executivo.
Proposta brasileira de tributação sobre passagens
O Brasil também foi mencionado no discurso como exemplo de políticas que podem comprometer a conectividade aérea. A Iata criticou a proposta de aplicação de uma alíquota de 26,5% de IVA sobre passagens aéreas internacionais no âmbito da reforma tributária.
Segundo os cálculos apresentados pela entidade, a medida acrescentaria cerca de US$ 195 ao valor médio de uma passagem internacional, atualmente estimada em US$ 740. A associação estima que a tributação poderia eliminar até 3,6 milhões de viagens internacionais realizadas por passageiros brasileiros. Para a Iata, o impacto econômico da redução da conectividade superaria a eventual arrecadação adicional obtida pelo governo.
Desafio da sustentabilidade
Walsh também demonstrou preocupação com o ritmo de avanço da agenda de descarbonização da aviação. Embora as companhias aéreas mantenham a meta de neutralidade de carbono até 2050, a produção global de SAF (combustível sustentável de aviação) continua muito abaixo do necessário.
A expectativa da Iata é que a produção mundial alcance 2,4 milhões de toneladas em 2026, volume suficiente para atender apenas 0,8% da demanda total de combustível do setor. Para atingir a meta climática de 2050, o SAF precisaria responder por aproximadamente 65% do consumo da aviação comercial, o equivalente a cerca de 500 milhões de toneladas anuais.
Nesse contexto, Walsh citou o Brasil como um dos países com maior potencial de produção de SAF, mas ressaltou a necessidade de políticas públicas capazes de estimular investimentos e ampliar a oferta do combustível em escala industrial.
Procupação com infraestrutura e controle do tráfego aéreo
Outro ponto destacado foi a necessidade de investimentos em infraestrutura aeroportuária e modernização dos sistemas de gerenciamento do tráfego aéreo. A Iata estima que cerca de 400 aeroportos no mundo já operam com restrições de capacidade e dependem de sistemas de coordenação de slots para administrar a demanda.
No caso do controle de tráfego aéreo, Walsh afirmou que ganhos relativamente modestos de eficiência poderiam gerar economias anuais de até US$ 12,5 bilhões para as companhias aéreas, além de reduzir significativamente as emissões de carbono.
Para a entidade, a combinação de combustível mais caro, atrasos na renovação das frotas e limitações de infraestrutura amplia a urgência de reformas estruturais para sustentar o crescimento da aviação global nos próximos anos.
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