CMA CGM resiste à crise marítima enquanto rivais enfrentam turbulência global

Armadora francesa mantém volumes elevados, expande rotas estratégicas e enfrenta queda global das tarifas pressionando gigantes do transporte marítimo

Valeria Bursztein

A francesa CMA CGM encerrou o primeiro trimestre de 2026 com crescimento no volume transportado, mas sob pressão das tarifas internacionais de frete e do aumento da concorrência entre os grandes armadores globais. O grupo movimentou 5,93 milhões de TEUs entre janeiro e março, avanço de 1,5% sobre igual período do ano passado, enquanto o EBITDA da divisão marítima recuou 41,3%, para US$ 1,49 bilhão.

Os números mostram uma mudança importante no mercado de contêineres. Depois de dois anos marcados por fretes elevados, gargalos logísticos e desorganização das cadeias globais, as companhias marítimas voltaram a enfrentar um ambiente mais competitivo, com pressão tarifária e excesso de capacidade em algumas rotas.

A receita total do grupo ficou praticamente estável em US$ 13,23 bilhões no trimestre, ligeira queda de 0,2% na comparação anual. O lucro líquido caiu de US$ 1,12 bilhão para US$ 250 milhões. Em comunicado, Rodolphe Saadé, presidente e diretor executivo do Grupo CMA CGM, afirmou que a empresa manteve ajustes operacionais e reorganizou serviços para enfrentar disrupções geopolíticas e impactos sobre as cadeias globais de abastecimento.

Margens pressionadas

A desaceleração dos resultados financeiros não é exclusiva da CMA CGM. Outras grandes companhias marítimas também vêm registrando queda de rentabilidade em 2026, mesmo mantendo volumes elevados.

A dinamarquesa A.P. Moller-Maersk reduziu projeções de crescimento para algumas rotas internacionais diante da volatilidade comercial e do avanço gradual da oferta de navios. Já a alemã Hapag-Lloyd tem alertado investidores sobre a instabilidade das tarifas spot e os custos adicionais provocados pelos desvios operacionais no Oriente Médio.

No centro das preocupações do setor seguem as tensões no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz, que continuam alterando rotas e ampliando custos operacionais. A própria CMA CGM informou que implementou corredores multimodais alternativos para manter o abastecimento nos países do Golfo diante das restrições de navegação na região.

Além da instabilidade geopolítica, o setor acompanha a entrada acelerada de novos porta-contêineres no mercado global. A ampliação da frota mundial também desafia o equilíbrio entre oferta e demanda justamente em um momento de crescimento econômico mais moderado em grandes mercados consumidores.

Expansão da rede e novas rotas

Mesmo com a queda de rentabilidade, a CMA CGM manteve investimentos na ampliação da rede marítima e em novas operações estratégicas. Entre os principais movimentos do trimestre está o lançamento do produto “DAY 10”, dentro da Ocean Alliance, reunindo 41 serviços nas principais rotas Leste-Oeste e capacidade total de 5,3 milhões de TEUs.

A companhia também lançou o serviço Ocean Rise Express, ligando Japão, sul da China e norte da Europa, além de reforçar o Eagle Express 1 entre Japão e costa oeste dos Estados Unidos.

Outro foco do grupo foi a estratégia “Caribbean Hub”. Em março, a empresa ampliou o serviço PCRF XL entre Norte da Europa, Antilhas Francesas e América Central, operação feita com sete navios de 6 mil TEUs. A meta é atingir 300 mil contêineres transbordados por ano até 2027.

Combustíveis alternativos

A renovação da frota segue entre as prioridades da companhia. No trimestre, a CMA CGM colocou em operação o CMA CGM Monte Cristo, primeiro de uma nova geração de porta-contêineres movidos a metanol e o 400º navio próprio do grupo.

O movimento está em consonância com uma tendência mais ampla do transporte marítimo internacional. Grandes armadores aceleram encomendas de embarcações movidas a GNL, metanol e outros combustíveis de menor emissão diante das metas ambientais da IMO e das exigências de embarcadores globais por operações mais sustentáveis.

Diversificação de serviços

A estratégia da CMA CGM de ampliar presença em logística integrada, terminais, carga aérea e transporte ferroviário voltou a ganhar relevância neste início de ano. A CEVA Logistics, controlada pelo grupo desde 2019, registrou crescimento de 6,6% na receita trimestral, alcançando US$ 4,56 bilhões. A empresa ampliou operações em logística automotiva, carga aérea e soluções de baixo carbono.

No período, o grupo também avançou na joint venture portuária criada com a Stonepeak, concluiu a aquisição da Freightliner UK e reforçou operações ferroviárias e de cargas especiais. Para analistas do setor, a diversificação passou a ser um diferencial importante para os grandes armadores em um mercado cada vez mais exposto à volatilidade geopolítica, às oscilações tarifárias e à reorganização das cadeias globais de suprimentos.

A CMA CGM afirmou que seguirá apoiada na flexibilidade operacional, na diversificação dos negócios e na solidez financeira para enfrentar o atual cenário do transporte marítimo internacional.

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