De Farroupilha (RS)
O Grupo Rodonaves decidiu transformar a Serra Gaúcha em uma peça central de sua estratégia de crescimento nacional. Em meio a um cenário de juros elevados, crédito restrito e pressão por descarbonização no transporte rodoviário, a companhia inaugurou um novo hub logístico em Farroupilha (RS), ampliou os investimentos em renovação de frota e iniciou testes com biometano e o combustível renovável BeVant, B100 da Be8. As movimentações fazem parte do plano estratégico do grupo para o ciclo 2026-2030, que prevê crescimento anual entre 15% e 17% e a meta de atingir R$ 6 bilhões em receita até o fim da década.
“Estamos construindo um ecossistema integrado de transporte, renovação de frota, revenda e serviços. O caminhão é a ferramenta central do nosso negócio”, afirmou Régis Adilson Tiecher, em entrevista à Agência Transporte Moderno. O executivo afirma que o Rio Grande do Sul já representa entre 12% e 13% da receita do grupo, mas cresce acima da média nacional. A aposta na Serra Gaúcha reflete justamente esse avanço.
A Rodonaves transferiu sua principal operação regional de Caxias do Sul para Farroupilha, em um investimento de cerca de R$ 15 milhões. Segundo Tiecher, a localização foi escolhida por estar no entroncamento das rodovias RS-122 e RS-453, consideradas estratégicas para a distribuição de cargas na região.
O novo complexo funcionará simultaneamente como centro de coleta e entrega e como hub de transferência de cargas para cidades como Bento Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Vacaria e municípios dos Campos de Cima da Serra, além da conexão com Porto Alegre e Vale dos Sinos. A capacidade diária de movimentação deve subir de cerca de 80 toneladas para 120 toneladas por dia, aumento de 50%. O número de funcionários também deve crescer de aproximadamente 80 para 150 até o fim do ano.
“O objetivo é ganhar eficiência logística e melhorar o escoamento tanto para o Norte quanto para o Sul do país”, disse o executivo. A operação tem forte presença no transporte de carga fracionada, principal negócio da companhia, mas também avança em cargas dedicadas e logística aérea. O grupo firmou parcerias com companhias aéreas para atender setores como o de vinhos e espumantes da Serra Gaúcha, impulsionados pelo enoturismo regional.

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Crédito para agregados e renovação da frota
Um dos projetos considerados estratégicos pela companhia é a criação de uma estrutura financeira própria para facilitar o acesso ao crédito por motoristas agregados e parceiros. Hoje, a frota própria do grupo tem idade média de quatro anos, enquanto veículos de agregados chegam a 18 anos. A empresa pretende reduzir essa diferença utilizando caminhões seminovos da própria operação, que seriam restaurados e revendidos ao ecossistema de parceiros.
Segundo Tiecher, o grupo trabalha na estruturação de um fundo de investimento para apoiar o financiamento desses veículos. “O agregado tem dificuldade para acessar crédito no banco porque muitas vezes não consegue apresentar garantias. Como ele faz parte do nosso ecossistema, queremos ajudar nesse processo”, afirmou.

Nos últimos seis meses, o grupo renovou mais de 200 veículos da frota própria, incluindo caminhões leves, médios e pesados. Cerca de 98% da frota já opera com motores Euro 5 e Euro 6.
A estratégia da Rodonaves também passa pelo aproveitamento das linhas subsidiadas do programa Move Brasil, criado pelo governo federal para estimular a renovação da frota e a descarbonização do transporte. Segundo Tiecher, o grupo já garantiu R$ 50 milhões em crédito na primeira fase do programa e pretende acessar novas linhas na segunda etapa, prevista para começar no fim de maio.
O executivo afirma, porém, que o principal desafio continua sendo o acesso ao crédito pelos pequenos transportadores e caminhoneiros agregados. “O banco continua exigindo garantia. Para quem tem um caminhão de 18 anos, dar o salto para um veículo novo ainda é muito difícil”, disse.
A avaliação da companhia é que programas de renovação de frota só terão maior alcance se houver mecanismos complementares de garantia ou financiamento direcionados aos pequenos operadores.
Biometano e B100 entram na estratégia
A Rodonaves também começou a acelerar sua agenda de transição energética. A companhia iniciou testes com o BeVant, combustível renovável B100 da Be8, produzido no Rio Grande do Sul, além de comprar sete caminhões movidos a gás — quatro da Iveco e três da Scania.
Segundo Tiecher, os testes com o combustível começaram há cerca de um mês em rotas da região Sul. O BeVant é um biodiesel bidestilado de alta pureza desenvolvido para operar em motores diesel convencionais sem necessidade de adaptação. A decisão ganhou força após os episódios recentes de restrição no abastecimento de diesel na Região Sul.
“Percebemos que não podemos depender de uma única matriz energética. A guerra acaba, mas a volatilidade geopolítica permanece”, afirmou o executivo. O grupo instalará em Farroupilha um posto interno abastecido exclusivamente com o B100 da Be8. A expectativa é que a unidade represente cerca de 2% do consumo total de combustível da companhia.
Somados os projetos de biodiesel e biometano, a meta inicial é substituir aproximadamente 5% do consumo fóssil da operação. Segundo Tiecher, os testes têm mostrado desempenho operacional semelhante ao diesel convencional, com impacto limitado na manutenção.
No caso do gás, o executivo afirma que o custo operacional por quilômetro rodado já é inferior ao diesel em algumas rotas. O desafio ainda está na infraestrutura de abastecimento e no preço dos veículos. “Não existe uma solução única para a transição energética. Cada transportadora vai precisar encontrar o combustível mais adequado ao seu perfil de operação”, disse.
Mercado sente desaceleração do varejo
Apesar da expansão, a companhia admite que o ambiente macroeconômico segue desafiador. Segundo Tiecher, o transporte rodoviário já percebe desaceleração do varejo nos últimos meses, ainda que março tenha registrado recuperação pontual impulsionada pelo receio de problemas no abastecimento de diesel.
“Nós sentimos antes o que está acontecendo na economia. O transporte é um termômetro antecipado da atividade”, afirmou. Mesmo assim, a Rodonaves mantém o plano de crescimento acelerado. A expectativa da companhia é encerrar 2026 já com expansão próxima de 15% sobre o ano anterior.
A jornalista viajou a convite da Rodonaves.
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