Programa Move Brasil desacelera queda do mercado de caminhões

Emplacamentos de pesados avançam quase 49% em março, mas setor ainda opera abaixo dos níveis de 2025

Valeria Bursztein

O mercado brasileiro de caminhões continua em retração em 2026, mas março trouxe os primeiros sinais mais consistentes de reação, principalmente no segmento de pesados. A avaliação da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) é que o programa Move Brasil começou a aliviar parte da pressão sobre as vendas, embora o setor ainda enfrente juros elevados, crédito restrito e perda de espaço da produção nacional para os importados.

Os emplacamentos de caminhões chegaram a 8,8 mil unidades em março, aproximando-se do volume registrado no mesmo mês de 2025, quando foram licenciadas 9,4 mil unidades. Na comparação anual, a queda ficou em 6,2%.

O resultado representou avanço importante sobre fevereiro. Os licenciamentos cresceram 31,9% em relação ao mês anterior, quando o mercado havia somado 6,7 mil unidades.

Mesmo com a melhora, o trimestre segue no vermelho. Entre janeiro e março, os emplacamentos recuaram de 27,7 mil para 21,9 mil unidades na comparação com o mesmo período do ano passado, retração de 21,1%.

Para a Anfavea, porém, o ritmo de queda perdeu força ao longo do trimestre. O presidente da entidade, Igor Calvet, afirmou que o “fosso” entre os volumes de 2025 e 2026 começou a diminuir. “O Move Brasil ajudou, mas ainda não foi capaz de reverter totalmente a curva de queda. A boca de jacaré diminuiu, mas não zerou”, afirmou.

A indústria aposta agora na segunda etapa do Move Brasil, programa federal voltado ao financiamento para renovação de frota. Os recursos passaram de R$ 10 bilhões para R$ 21,2 bilhões e o programa passou a incluir também ônibus e implementos rodoviários.

Fonte: Anfavea

O financiamento pode chegar a 120 meses, com limite de R$ 50 milhões por beneficiário. Segundo a Anfavea, o pacote chega em momento importante para evitar deterioração maior do mercado de pesados. “É uma medida desfibrilatória para o setor de caminhões”, disse Calvet.

A entidade trabalha com a expectativa de que o programa ao menos estabilize o mercado neste ano. A recuperação, porém, ainda depende da evolução dos juros e do custo do crédito para transportadores, frotistas e caminhoneiros autônomos.

A própria Anfavea reconhece que o cenário macroeconômico continua limitando uma retomada mais forte. O endividamento das famílias segue elevado e a queda da Selic ocorre em ritmo menor do que o esperado pela indústria.

Pesados reagem mais rápido

A recuperação observada em março foi mais forte justamente no segmento de caminhões pesados, principal termômetro das operações de longa distância e do agronegócio. Os emplacamentos passaram de 2,8 mil unidades em fevereiro para 4,1 mil em março, alta de 48,8% em apenas um mês. O volume já se aproxima das 4,4 mil unidades registradas em março do ano passado.

Ainda assim, o acumulado do trimestre permanece negativo, com retração de 26,3%. Os números mostram que a diferença em relação a 2025 começou a diminuir depois de um início de ano bastante fraco. Em janeiro, a queda acumulada do mercado de caminhões chegava a 31,5%. Ao final de março, havia recuado para 21,1%.

No segmento de pesados, o movimento foi semelhante. A retração acumulada caiu de 42,8% para 26,3% no mesmo intervalo. A reação mais intensa nos pesados indica retomada gradual da demanda em operações ligadas ao agronegócio, transporte de longa distância e grandes frotas. Ainda assim, o setor segue bastante dependente de financiamento.

Produção cresce menos que o mercado

Outro ponto que preocupa a indústria é o descompasso entre o crescimento do mercado e o avanço da produção nacional. A produção total de veículos no Brasil cresceu 4,9% no acumulado do quadrimestre, puxada principalmente por automóveis e comerciais leves. Em caminhões e ônibus, porém, houve retração: o volume produzido caiu de 52 mil para 46 mil unidades.

Ao mesmo tempo, os emplacamentos cresceram em ritmo maior, indicando que parte da expansão da demanda vem sendo atendida por veículos importados. “O mercado cresceu mais do que a produção nacional. Isso significa que não estamos capturando integralmente esse crescimento com fabricação local”, afirmou Calvet.

Importados avançam

As importações de veículos cresceram 12% no acumulado do ano, alcançando 168 mil unidades. O principal avanço veio da China. As importações de veículos chineses saltaram de 44 mil para 80 mil unidades no quadrimestre, crescimento de 80% sobre o mesmo período de 2025.

Embora o movimento esteja concentrado principalmente nos automóveis eletrificados, a Anfavea avalia que a pressão atinge toda a cadeia automotiva instalada no país, incluindo fornecedores ligados aos segmentos de comerciais leves e pesados.

A entidade também voltou a criticar operações de montagem em CKD e SKD realizadas por fabricantes chinesas em parceria com montadoras instaladas no Brasil. Segundo Calvet, a Anfavea não é contrária ao modelo, desde que ele seja usado em pequena escala e como etapa inicial de industrialização. “O problema é quando isso acontece em grande escala e associado à redução de impostos”, afirmou.

Exportações seguem fracas

No comércio exterior, as exportações totais de veículos caíram 16% no quadrimestre, pressionadas principalmente pela desaceleração do mercado argentino. No caso dos caminhões e ônibus, os embarques permaneceram relativamente estáveis, próximos de 2,7 mil unidades mensais.

Mesmo assim, a Anfavea afirma que o ambiente externo ficou mais competitivo, sobretudo na Argentina, principal destino histórico dos veículos produzidos no Brasil. Além da retração do mercado argentino, a indústria brasileira perdeu participação para concorrentes de outros países. “A competição nos mercados da América Latina cresceu muito”, afirmou Calvet.

A associação defende avanço dos acordos comerciais e maior harmonização regulatória para preservar a competitividade da indústria brasileira na região. Apesar da melhora observada em março, a Anfavea ainda evita revisar suas projeções para 2026. A atualização oficial deve ser divulgada apenas em julho.

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