A Bosch está estruturando uma estratégia para reduzir a dependência do diesel no setor de máquinas pesadas e, potencialmente, no transporte rodoviário, com o desenvolvimento de um sistema híbrido que combina diesel e etanol no mesmo motor. A tecnologia, ainda em fase de testes, funciona como um retrofit: um sistema adicional de injeção permite que o motor original siga operando com diesel, mas passe a substituir parte do consumo por etanol.
O projeto recebeu R$ 29,7 milhões do BNDES no âmbito da linha Mais Inovação e está sendo conduzido pela Bosch Soluções Integradas Brasil, em Campinas (SP). A proposta integra uma agenda mais ampla de descarbonização e segurança energética, em um momento de alta volatilidade do preço do diesel no mercado global.
Paulo Rocca, vice-presidente de inovação e novos negócios da Bosch América Latina disse à Agência Transporte Moderno que a tecnologia ainda está concentrada em aplicações off-road, como mineração e máquinas agrícolas, mas já há estudos para expansão gradual. “Começamos com caminhões de mineração e colhedoras de cana. Agora estamos avançando para tratores e outros equipamentos off-road. O caminhão rodoviário ainda não está no pipeline imediato”, afirma.
Redução de emissões e ganho de eficiência
Nos testes realizados até o momento, a Bosch afirma ter alcançado substituição média de até 35% do diesel por etanol, com potencial de chegar a 60% em determinados perfis de operação. Como o etanol é considerado um combustível de menor intensidade de carbono no ciclo completo de produção e consumo, a redução de emissões de CO₂ acompanha, em média, o mesmo patamar. A empresa, porém, reforça que o foco atual não é a viabilidade econômica, mas a confiabilidade do sistema. “Primeiro precisamos garantir durabilidade, estabilidade e ausência de perda de desempenho. A análise de custo vem depois”, diz Rocca.
O avanço da tecnologia ocorre em um cenário de forte dependência estrutural do diesel no transporte pesado brasileiro. Caminhões e máquinas off-road seguem praticamente sem alternativas tecnológicas viáveis em escala, o que torna o setor exposto à volatilidade internacional do petróleo e a riscos de abastecimento.
Nesse contexto, o sistema diesel-etanol surge como uma solução de transição: não elimina o diesel, mas reduz sua participação no consumo total.
A Bosch avalia que, com o patamar atual de preços do diesel, o modelo pode se tornar economicamente atrativo em determinadas operações — especialmente aquelas de alto consumo, como mineração, onde um único equipamento pode consumir até 1 milhão de litros de diesel por ano.
Brasil como plataforma de escala
Outro eixo estratégico da companhia é o papel do Brasil como laboratório global. A ampla disponibilidade de etanol no país cria uma condição rara no mundo para testes de larga escala de combustíveis híbridos em motores pesados.
A expectativa da Bosch é que, após validação em ambientes off-road, a tecnologia possa ser levada a fabricantes de motores e, futuramente, aplicada em caminhões rodoviários. O movimento, no entanto, ainda depende da consolidação de dados de campo e da integração com montadoras — etapa considerada mais longa no ciclo de desenvolvimento.
Transição gradual, não ruptura tecnológica
A estratégia da Bosch indica uma abordagem incremental para a descarbonização do transporte pesado. Em vez de substituir o diesel, a solução propõe sua redução parcial via biocombustível, preservando a infraestrutura existente. Na prática, trata-se de uma tentativa de conciliar três pressões simultâneas do setor: custo operacional, emissões e segurança energética.
Se avançar para o transporte rodoviário, o sistema pode inaugurar uma nova etapa de hibridização de combustíveis em caminhões no Brasil — um mercado historicamente dependente do diesel e ainda distante de uma transição elétrica em larga escala.
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