Implementos caem 11% até abril, e crédito do Move Brasil vira aposta de retomada

Queda reflete juros altos e cautela no transporte, enquanto programa deve ampliar crédito e destravar investimentos ao longo do segundo semestre no setor

Aline Feltrin

A indústria brasileira de implementos rodoviários iniciou 2026 em retração, mas com sinais de reacomodação interna e expectativa de melhora ao longo do ano. Dados da Associação Nacional das Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir) mostram que o setor comercializou 42.608 unidades no primeiro quadrimestre, queda de 11,24% frente às 48.004 registradas no mesmo período de 2025.

O recuo foi mais intenso no segmento pesado, de reboques e semirreboques, que somou 21.267 unidades — retração de 12,81%. Já o segmento leve, de carrocerias sobre chassis, registrou 21.341 unidades, com queda menor, de 9,62%.

A diferença de desempenho entre os segmentos revela mais do que uma simples desaceleração: indica uma mudança no perfil da demanda. Mais dependente de crédito e associado a investimentos de maior porte, o segmento pesado tem sido diretamente impactado pelo ambiente de juros elevados e pela cautela das empresas. No entanto, o segmento leve, ligado à distribuição urbana e ao consumo, mostra maior resiliência.

Esse movimento ficou ainda mais evidente em abril. Enquanto o segmento pesado recuou de 6.390 unidades em março para 5.535, o leve avançou de 5.821 para 6.232 unidades no mesmo intervalo. Na prática, o mercado passa por uma mudança de mix: menos aquisições voltadas a operações de longa distância e mais demanda pulverizada, associada à logística urbana e ao varejo.

Parte dessa oscilação mensal também é explicada pelo calendário. Abril teve 20 dias úteis, ante 22 em março, o que reduziu o volume de negócios. Ainda assim, a diferença de comportamento entre os segmentos reforça a leitura de que o setor atravessa um período de ajuste, e não de retração homogênea.

Na avaliação do presidente da Anfir, José Carlos Spricigo, o desempenho reflete o momento de incerteza econômica. “O recuo do segmento pesado pode indicar maior cautela dos operadores logísticos diante das dúvidas sobre o cenário econômico. Já o crescimento do segmento leve acompanha a dinâmica do consumo e das operações urbanas”, afirma.

A leitura dos dados sugere três movimentos principais no mercado: postergação de investimentos em ativos de maior valor, sustentação parcial da atividade pelo consumo e uma reconfiguração da demanda, sem sinais de colapso generalizado.

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Nesse contexto, o setor deposita expectativa na nova fase do Move Brasil, que prevê R$ 21,2 bilhões em financiamentos para renovação de frota de caminhões, ônibus e implementos rodoviários. O valor é mais que o dobro da etapa anterior do programa.

A inclusão dos implementos no escopo é vista como um ponto-chave, especialmente para destravar o segmento pesado, hoje mais pressionado. “É uma medida importante para a indústria e também para a segurança no transporte de cargas”, diz Spricigo.

Na prática, o programa atua exatamente sobre o principal gargalo evidenciado pelos números: a dificuldade de acesso ao crédito para investimentos. A expectativa no setor é que o impacto seja gradual, com maior tração ao longo do segundo semestre, à medida que as linhas de financiamento ganhem escala.

Para 2026, a indústria trabalha com um cenário de transição. O primeiro semestre ainda deve refletir a cautela observada até agora, enquanto o segundo pode marcar uma retomada moderada, condicionada à evolução dos juros e à efetividade das políticas de estímulo.

Os dados do quadrimestre, portanto, mostram mais do que uma queda: revelam um mercado em compasso de espera, cuja retomada depende menos da demanda estrutural — ainda presente — e mais das condições de financiamento para destravar investimentos.

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