Daimler Truck faz 130 anos em meio à pressão por descarbonização

Companhia aposta em dupla rota tecnológica e digitalização para responder a custos, regulação ambiental e demanda por eficiência logística

Valeria Bursztein

A Daimler Truck celebra 130 anos da criação do primeiro caminhão motorizado, em 1896, em um momento de inflexão para a indústria. Mais do que resgatar a origem do setor, a companhia usa a data comemorativa para reforçar sua estratégia de descarbonização e digitalização, em um mercado pressionado por custos, regulação ambiental e transformação tecnológica.

Hoje, o grupo figura entre os maiores fabricantes globais de veículos comerciais, ao lado de concorrentes como Volvo Group e TRATON Group, com posições relevantes na Europa e na América do Norte. No segmento de caminhões elétricos, a empresa está entre os principais players na Europa, em um mercado ainda incipiente e com liderança variável conforme o tipo de aplicação e o porte dos veículos.

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Relevância no Brasil

No Brasil, a operação é conduzida pela Mercedes-Benz Caminhões, tradicionalmente entre as líderes em emplacamentos, disputando mercado com Volkswagen Caminhões e Ônibus e Volvo. A presença industrial local, com fábricas em São Bernardo do Campo e Juiz de Fora, sustenta tanto o mercado doméstico quanto exportações.

A relevância do grupo no país está diretamente ligada ao peso do transporte rodoviário na matriz logística, responsável por mais de 60% da movimentação de cargas. Nesse contexto, ganhos de eficiência e redução de consumo têm impacto direto sobre o custo do frete, em um contexto em que o diesel pode representar até 40% das despesas operacionais.

Da mecânica ao software

Para fazer frente à pressão por soluções mais eficientes econômica e ambientalmente, a Daimler Truck adotou uma estratégia que vai além da eletrificação e incorpora a digitalização como eixo central da transformação. A companhia avança na conectividade dos veículos e na gestão de frotas baseada em dados e também direciona investimentos relevantes para a condução autônoma — uma das frentes sensíveis em termos de custo e eficiência operacional no transporte rodoviário.

Nesse campo, a empresa atua por meio da Torc Robotics, subsidiária responsável pelo desenvolvimento de caminhões com nível 4 de automação. A proposta é viabilizar operações sem motorista em rotas rodoviárias específicas, especialmente no modelo “hub-to-hub”, em que o veículo percorre longas distâncias entre centros logísticos, mantendo a condução humana nos trechos urbanos.

A estratégia busca responder a desafios estruturais do setor, como a escassez de motoristas, o aumento do custo operacional e a necessidade de ampliar a produtividade. Em tese, a automação permite operações contínuas, com maior previsibilidade e menor variabilidade de desempenho, fatores críticos para cadeias logísticas de grande escala.

Entretanto, a adoção comercial ainda depende de avanços regulatórios, maturidade tecnológica e viabilidade econômica em escala.

Rota dupla

A descarbonização na Daimler Truck segue uma estratégia de dupla rota, baseada em tecnologias elétricas a bateria e a hidrogênio, com aplicações distintas conforme o perfil operacional, o que traduz o entendimento da companhia de que não há solução única para o transporte pesado, especialmente no longo curso.

No caso dos caminhões elétricos, o principal vetor é o Mercedes-Benz eActros 600, em produção em série desde o fim de 2024. O modelo foi desenvolvido para operações de longa distância, com autonomia de até cerca de 500 quilômetros por carga e baterias de aproximadamente 621 kWh, projetadas para uma vida útil de até 1,2 milhão de quilômetros. A proposta é atender rotas previsíveis, com possibilidade de recarga estruturada — um cenário mais compatível com operações dedicadas e corredores logísticos definidos.

Já para aplicações mais exigentes em autonomia e flexibilidade, a aposta recai sobre o hidrogênio. O Mercedes-Benz NextGenH2 Truck, apresentado em 2026, utiliza hidrogênio líquido e mira operações de longa distância com alta carga útil. Em testes, o modelo superou 1.000 quilômetros de autonomia com um único abastecimento, em condições próximas às de uso real. O sistema é baseado em célula de combustível, com potência de até 300 kW, complementada por bateria de apoio, e tem como diferencial o tempo de abastecimento de 10 a 15 minutos — próximo ao diesel.

A divisão entre tecnologias segue uma lógica operacional: veículos a bateria tendem a ser mais eficientes em rotas curtas e médias, enquanto o hidrogênio surge como alternativa para o transporte pesado de longa distância, onde autonomia, tempo de parada e carga útil são críticos. Internamente, a companhia estabelece essa segmentação de forma clara: baterias para “cargas leves e médias em distâncias menores” e hidrogênio para “operações pesadas e longas”.

Apesar do avanço tecnológico, a adoção em escala ainda enfrenta desafios estruturais. No caso dos elétricos, a limitação está na infraestrutura de recarga de alta potência e no custo inicial dos veículos. Já o hidrogênio depende da formação de uma cadeia de produção e distribuição economicamente viável, além da disponibilidade de hidrogênio verde em escala.

A estratégia da Daimler Truck, ao manter as duas frentes, faz eco com o mercado em torno da incerteza do ritmo de transição e da necessidade de adaptar soluções às diferentes realidades operacionais — um movimento que vem sendo replicado por outros fabricantes globais e que tende a definir a próxima década do transporte rodoviário de cargas.

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