Às vésperas de uma nova rodada do programa de financiamento subsidiado para renovação de frota, o mercado de caminhões já opera em compasso de espera. A previsão de que o próximo pacote do Move Brasil seja anunciado nos próximos dias, segundo Eduardo Portas, CEO da Traton Financial Services – braço financeiro da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO), já provocou uma desaceleração nas vendas em abril e travou decisões de compra no setor.
“Quem pode esperar está esperando. Não faz sentido contratar um financiamento mais caro se existe a possibilidade de uma nova linha mais barata ser anunciada em breve”, afirma Portas. A expectativa é que o novo pacote — apelidado pelo mercado de “Move Brasil 2” — tenha recursos entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões, com possibilidade de ampliação em relação à primeira fase, inclusive com inclusão de implementos rodoviários.
Segundo Portas, o efeito da espera já é visível no mercado. “O varejo parou. Abril teve uma redução importante nas vendas porque o cliente que não entrou na primeira onda ficou nesse impasse: esperar ou comprar no crédito normal”, diz.
O executivo afirma que o setor já trabalha com uma demanda represada relevante pronta para ser convertida assim que o programa for oficializado. “Temos cerca de 500 caminhões já com crédito aprovado, aguardando apenas a liberação da nova linha. No momento em que sair, isso vira faturamento imediatamente”, afirma.
Entrada tardia limitou primeira fase
Portas explica que a participação da Traton Financial na primeira rodada do programa foi limitada por questões operacionais. A financeira iniciou atividades no Brasil em julho de 2025 e só foi habilitada pelo BNDES no fim de março. “Na primeira fase fizemos cerca de 50 a 60 caminhões. Entramos no final do processo, ainda estruturando a operação”, afirma. Segundo ele, a segunda rodada marca a primeira participação plena da instituição no programa.
A expectativa de liberação iminente já altera o comportamento dos clientes. Segundo Portas, transportadores que poderiam fechar negócio estão postergando decisões. “Esse tipo de programa muda completamente o timing de decisão. Quando há expectativa de subsídio, o mercado congela por alguns dias ou semanas”, diz. Ele afirma que esse efeito tende a ser ainda mais forte agora do que na primeira rodada, justamente porque o mercado já conhece as regras de acesso.
Segunda rodada deve ter giro rápido
A nova fase do programa tende a ter execução mais acelerada e curta, segundo o executivo. A estimativa é de que os recursos sejam consumidos em 30 a 60 dias. “Quando abrir, o dinheiro começa a ser consumido imediatamente. O mercado já sabe como funciona e já está pronto para operar”, afirma.
Além dos 500 caminhões já aprovados, há uma segunda onda de clientes que deve entrar no sistema assim que o programa for oficializado. Segundo Portas, esse comportamento de antecipação já é observado inclusive na Agrishow, que ocorre nesta semana em Ribeirão Preto (SP), onde parte dos negócios costuma ser direcionada à espera de condições de crédito mais favoráveis. “Quem pode esperar está esperando”, diz.
O avanço de linhas subsidiadas reduz a atratividade de financiamentos tradicionais, como o Finame, operado pelo BNDES. Com juros ainda elevados no país, na faixa de 18% a 20% ao ano, o crédito subsidiado volta a ser decisivo para viabilizar a compra de caminhões novos. “O Finame só volta a ser dominante se houver subsídio relevante. Sem isso, ele fica muito próximo do financiamento normal”, diz Portas.
Apesar do impacto sobre as vendas, o programa não resolve o principal desafio estrutural da renovação de frota no país: a substituição de caminhões antigos operados por autônomos. O executivo afirma que parte relevante dos recursos destinados a esse público teve baixa adesão na primeira fase do programa, devido a restrições de crédito, exigência de documentação e capacidade de pagamento, o que limitou a efetividade da política nesse segmento. Segundo Portas, o problema não está apenas no crédito, mas na capacidade de pagamento. “Quem roda com caminhão muito antigo muitas vezes não tem frete suficiente para suportar a parcela de um veículo novo”, afirma.
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