Agrishow começa na segunda com produtores mais cautelosos e investimento em queda no agro

Endividamento elevado, juros altos e custos logísticos pressionam o produtor rural e reduzem investimentos; feira aposta em tecnologia para destravar negócios

Aline Feltrin

A Agrishow 2026 começa na próxima segunda-feira, em Ribeirão Preto (SP), em um momento desafiador para o agronegócio brasileiro. Apesar da expectativa de geração de negócios, o setor chega à principal feira de tecnologia agrícola da América Latina pressionado por endividamento elevado, crédito restrito e margens comprimidas — um cenário que já impacta diretamente a capacidade de investimento no campo.

Dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre) mostram que o endividamento abrangido por planos de recuperação extrajudicial no agronegócio soma mais de R$ 98 bilhões em 2026. Apenas neste ano, foram registrados seis casos — quatro em fevereiro e dois em março — totalizando 36 ocorrências desde 2022, início da série histórica. O número de empresas que recorreram à renegociação também chama atenção: são 11 requerentes em 2026 e 87 desde 2022. Do lado dos credores, 163 estão envolvidos em processos neste ano, somando 1.716 nos últimos quatro anos.

Essa deterioração das condições financeiras já se reflete na capacidade de investimento do produtor rural, especialmente em bens de maior valor, como caminhões. Em entrevista recente à Agência Transporte Moderno, o presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja), Lucas Costa Beber, afirmou que o atual cenário tem forçado uma mudança de prioridade. “O que seria lucro do produtor hoje está sendo consumido pelo pagamento de juros”.

Na prática, isso significa que decisões como a compra de caminhões próprios acabam sendo adiadas, mesmo em um contexto de alta demanda por transporte. A consequência direta é o envelhecimento da frota. “Desde 2023 o produtor praticamente não investe. Uma defasagem que já existia tende a aumentar”, disse.

O custo logístico também contribui para esse movimento. Em um país altamente dependente do transporte rodoviário, a combinação entre safra recorde, déficit de armazenagem e baixa oferta ferroviária intensifica a demanda por caminhões, especialmente nos picos de colheita. No entanto, esse aumento ocorre em paralelo à elevação dos custos de frete, o que comprime ainda mais as margens do produtor. A política de piso mínimo, na avaliação da Aprosoja, tem ampliado distorções no mercado e elevado o custo do transporte, sobretudo em estados produtores como Mato Grosso.

A falta de infraestrutura agrava o quadro. Em regiões-chave do agronegócio, a capacidade de armazenagem é insuficiente para absorver a produção, o que obriga o escoamento imediato no pico da safra e pressiona ainda mais o sistema logístico.

Além dos fatores internos, o setor enfrenta um ambiente internacional mais instável. Tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio, aumentam a incerteza sobre o custo dos fertilizantes, dos quais o Brasil depende fortemente — cerca de 88% são importados. O petróleo também segue como vetor de pressão, impactando diretamente o preço do diesel e toda a cadeia logística.

Mesmo com projeções de safra recorde, a rentabilidade do produtor segue limitada. Segundo a Aprosoja, houve casos de prejuízo de até R$ 600 por hectare em 2023. Atualmente, a lucratividade gira em torno de R$ 285 por hectare, nível considerado insuficiente para sustentar novos investimentos. Diante disso, a estratégia tem sido conservadora, com foco na redução de custos e no adiamento de decisões.

Tecnologias que reduzem custos

Ainda assim, a Agrishow 2026 deve funcionar como um termômetro do setor e uma vitrine de soluções voltadas à eficiência. Em sua 31ª edição, a feira deve reunir mais de 800 marcas expositoras em uma área de 520 mil metros quadrados. A expectativa dos organizadores é receber cerca de 197 mil visitantes e movimentar bilhões de reais em intenções de negócios.

A digitalização do campo aparece como uma das principais apostas desta edição. Soluções em agricultura de precisão, automação, conectividade e análise de dados devem concentrar o interesse dos produtores.

A Grupo Timber apresenta uma nova geração de drones agrícolas com foco em produtividade. O destaque é um modelo com tanque de até 150 litros, capaz de cobrir até 8 hectares por voo, com uso de tecnologias como LiDAR, sensores e inteligência artificial para leitura do ambiente em tempo real.

A busca por maior eficiência também passa pelo uso mais racional de insumos. A Usiquímica leva à feira soluções como adjuvantes que aumentam a eficiência de fertilizantes e defensivos, ajudando o produtor a extrair mais produtividade com menor custo.

Caminhões e logística no campo

No segmento de veículos comerciais, a Mercedes-Benz reforça sua estratégia no agronegócio com o lançamento de novos modelos da linha Atego, voltados a operações fora de estrada e aplicações mistas — cada vez mais comuns no escoamento da produção agrícola.

O principal destaque é o novo Atego 3433 6×4, que amplia a atuação da marca no segmento de caminhões semipesados para aplicações severas. Com Peso Bruto Total (PBT) de até 33,5 toneladas e capacidade de tração elevada, o modelo foi desenvolvido para operações como transporte de líquidos, grãos, mineração e construção, podendo receber implementos como basculante, betoneira e tanque.

Equipado com motor de até 321 cavalos e torque de 1.250 Nm, o caminhão combina força com eficiência operacional, além de contar com câmbio automatizado de 12 marchas, que melhora o desempenho e reduz o consumo de combustível em operações mistas entre rodovia e fora de estrada .

Outro diferencial é a robustez estrutural. O modelo traz eixos reforçados, suspensão preparada para terrenos irregulares e maior vão livre do solo, características essenciais para operações no campo, onde estradas não pavimentadas e condições severas são frequentes. A configuração 6×4 também garante melhor tração em terrenos difíceis, aumentando a produtividade em operações agrícolas.

A linha Atego como um todo se destaca pela versatilidade. Com diferentes configurações de tração — como 4×2, 6×2, 6×4 e 8×2 — e ampla gama de aplicações, os veículos podem ser utilizados desde o transporte de insumos e apoio no campo até operações de média distância no escoamento da safra .

Linha Mercedes-Benz Atego ganha novos integrantes na Agrishow (Divulgação)

Além do 3433, a marca apresenta uma nova versão do Atego 3033 8×2 com pacote de robustez e eixo traseiro com redução nos cubos, voltado a operações mais severas, aumentando a durabilidade e a capacidade de carga em ambientes críticos.

Com isso, a estratégia da montadora é clara: oferecer soluções que atendam todas as etapas do agronegócio, desde o apoio logístico dentro da fazenda até o transporte rodoviário da produção. Ao todo, nove caminhões estão expostos no estande, incluindo também modelos extrapesados como Actros e Arocs, reforçando a presença da marca em toda a cadeia logística do setor.

Descarbonização ganha espaço

A transição energética também ganha relevância. A MWM apresenta soluções para substituição do diesel por combustíveis como biometano, gás natural e etanol. Entre os destaques está um caminhão adaptado para operar com biometano, além de motores e sistemas voltados à redução de emissões e custos operacionais.

O cenário reforça a interdependência entre agronegócio, logística e indústria de veículos comerciais. Com menor capacidade de investimento no campo, a tendência é de desaceleração na demanda por caminhões novos. Ao mesmo tempo, a necessidade de escoamento segue elevada, sustentando a demanda por frete e evidenciando os gargalos estruturais do país.

A Agrishow começa, portanto, sob um pano de fundo de pressão financeira, mas também de transformação. Entre restrições de curto prazo e busca por eficiência, o setor sinaliza que o próximo ciclo de crescimento dependerá menos da expansão e mais da produtividade.

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