A chinesa BYD já iniciou, de forma silenciosa, os primeiros testes com caminhões pesados elétricos no Brasil — um movimento que antecipa sua entrada em um dos segmentos mais desafiadores da eletrificação. Segundo revelou o diretor de vendas de caminhões e chassis de ônibus da companhia, Bruno Paiva, à Agência Transporte Moderno, cerca de dez cavalos mecânicos 100% elétricos operam atualmente dentro da fábrica da empresa na Bahia, em atividades de movimentação interna de carga.
Os veículos, na configuração 6×2, ainda não estão adaptados ao mercado brasileiro e fazem parte de um processo de validação. Embora não haja previsão de lançamento comercial, os testes indicam que a montadora já se posiciona para avançar no segmento de pesados, considerado o mais complexo da transição energética no transporte rodoviário.
O movimento marca uma virada estratégica. Após anos concentrando esforços no segmento de ônibus — onde ganhou escala em cidades como São Paulo, Goiânia, Salvador e São José dos Campos —, a companhia passa a direcionar o foco para caminhões. “Agora chegou a hora do caminhão”, afirmou Paiva. Segundo ele, a decisão reflete uma priorização interna em um mercado ainda em formação. “Não dá para atuar em tudo ao mesmo tempo. Primeiro focamos ônibus. Agora caminhões.”
Hoje, a atuação da empresa no país está restrita aos segmentos leve e médio, com três modelos no portfólio. O T5 será substituído pelo T75, que já está com pedidos abertos e começa a ser entregue no segundo semestre de 2026. Já os modelos T18 e T23 atualizados chegam a partir de 2027. Em paralelo, a montadora prepara a entrada em um novo nicho com um veículo de 3,5 toneladas voltado à distribuição urbana, que deve disputar mercado com o Hyundai HR.
A estratégia inclui ainda a ampliação gradual das aplicações dos elétricos. Atualmente concentrados na última milha, com autonomia próxima de 220 quilômetros, os caminhões devem avançar para operações de média distância, como rotas entre fábricas e centros de distribuição. Esse salto depende de ganhos tecnológicos, sobretudo na redução do tempo de recarga.
Mesma bateria dos automóveis?
É nesse contexto que ganha força a principal aposta tecnológica para a próxima geração de veículos. Embora a montadora não confirme oficialmente, segundo apuração da Agência Transporte Moderno, os caminhões que devem chegar ao mercado brasileiro tendem a incorporar a bateria Blade, tecnologia adotada como padrão nos veículos elétricos e híbridos plug-in mais recentes da marca, com foco em segurança e durabilidade.
No Brasil, essa bateria já equipa modelos como BYD Dolphin Mini, BYD Dolphin, BYD Seal, BYD Yuan Plus e BYD Tan, além de estar presente em veículos mais recentes da companhia no exterior.
A possível adoção dessa tecnologia nos caminhões é vista como um passo-chave para ampliar o uso dos elétricos em operações mais exigentes. Segundo fonte ouvida pela reportagem, a expectativa é que esses veículos possam ser carregados em cerca de dez minutos com sistemas ultrarrápidos — o que tende a alterar de forma relevante a lógica operacional do transporte de carga.
Apesar dos avanços, o mercado brasileiro ainda é incipiente. A empresa vendeu cerca de 60 unidades do modelo T18 no país até agora, enquanto os demais veículos ainda não registraram volumes relevantes. “O mercado não estava maduro quando a BYD chegou. Agora a gente começa a ver esse amadurecimento”, disse Paiva.
O ritmo de crescimento, no entanto, segue condicionado a fatores externos. A possível elevação das alíquotas de importação a partir de 2026 é vista como um risco relevante, com impacto direto nos preços e na previsibilidade da demanda.
Ao mesmo tempo, a concorrência começa a se intensificar, com a chegada de fabricantes chinesas como Foton, Sany e XCMG, além da movimentação de outros grupos no segmento elétrico. Nesse cenário, a disputa deve ir além do preço, envolvendo qualidade de produto e capacidade de pós-venda — área que a BYD pretende reforçar como parte de sua estratégia.
A instalação de uma fábrica de caminhões no Brasil segue em estudo, mas ainda sem definição. Segundo a empresa, a decisão depende de escala e de maior previsibilidade de demanda. Para a montadora, o momento atual representa apenas o início de uma transformação mais ampla no setor. “Estamos vendo a foto agora, mas o filme ainda vai rodar. Nos próximos cinco anos vamos entender quais produtos vão se consolidar”, afirmou Paiva.
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