A MSC, maior armadora de contêineres do mundo, amplia sua aposta em navios de grande capacidade apesar do um momento ser de alerta sobre o crescimento da oferta no transporte marítimo internacional. A companhia é apontada pela consultoria Linerlytica como responsável por uma nova encomenda de 20 porta-contêineres de 24 mil TEUs ao estaleiro chinês Hengli Heavy Industries, operação que poderá acrescentar 480 mil TEUs à sua capacidade futura.
A informação foi divulgada pela imprensa marítima especializada, incluindo Seatrade Maritime e Ship2Shore. Embora as publicações tratem a operação como contratada, a MSC não anunciou diretamente os detalhes comerciais da encomenda.
Nesta segunda-feira (26), o Hengli informou ter fechado contratos com diferentes armadores para a construção de 52 porta-contêineres de grande porte. O pacote compreende 20 embarcações de 24 mil TEUs, 12 de 22 mil TEUs e outras 20 de 19 mil TEUs, todas previstas com propulsão dual fuel a gás natural liquefeito (GNL).
O estaleiro não identificou individualmente os compradores de cada grupo de navios. Segundo a Seatrade Maritime, as 20 unidades de 24 mil TEUs correspondem à encomenda atribuída à MSC.
A nova operação reforçaria o programa de expansão da armadora no Hengli, que já possui contratos anteriores para a construção de megacontêineres. De acordo com a Linerlytica, a carteira da MSC no estaleiro alcançaria 62 embarcações com capacidade superior a 20 mil TEUs.
21,5% da capacidade mundial
A dimensão da encomenda ganha relevância diante da posição da MSC no transporte marítimo internacional. Segundo o ranking da Alphaliner atualizado em outubro, a armadora opera 1.018 navios, com capacidade conjunta de aproximadamente 7,46 milhões de TEUs, o equivalente a 21,5% do mercado mundial.
A distância em relação às concorrentes é expressiva. A Maersk ocupa a segunda posição, com 4,72 milhões de TEUs e participação de 13,6%, seguida pela CMA CGM, com 4,49 milhões de TEUs e 12,9% do mercado.
A MSC também possui uma das maiores carteiras de encomendas do setor. O levantamento da Alphaliner registra 183 embarcações contratadas, com capacidade conjunta de 3,38 milhões de TEUs, volume equivalente a 45,3% da frota atualmente operada pela companhia.
Encomendas mundiais atingem maior proporção desde 2009
O avanço da MSC acompanha uma nova onda de investimentos em construção naval, apesar das incertezas sobre o comportamento da demanda por transporte de contêineres.
Segundo dados da Linerlytica divulgados pela Seatrade Maritime, a carteira mundial de encomendas alcançou 16,2 milhões de TEUs, o equivalente a 46,5% da capacidade da frota em operação. Trata-se da maior proporção registrada desde 2009.
O indicador mostra que quase metade da capacidade atualmente disponível no transporte marítimo de contêineres corresponde ao volume adicional previsto nos contratos de construção de novos navios.
A expansão não ocorrerá de uma só vez, já que as entregas estão distribuídas ao longo dos próximos anos. Ainda assim, o volume contratado aumenta a preocupação com a possibilidade de crescimento da oferta acima da demanda.
A baixa retirada de embarcações antigas de operação também contribui para esse cenário. Quando as entregas de novos navios superam significativamente a capacidade desativada, a frota mundial continua crescendo, mesmo que parte das embarcações substituídas seja deslocada para outras rotas.
Capacidade deverá crescer 9% em 2027
As perspectivas para o próximo ano reforçam o contraste entre os investimentos das armadoras e o comportamento esperado do mercado. A BIMCO, associação internacional do setor marítimo, estima que a capacidade mundial de transporte de contêineres crescerá 4,6% em 2026 e 9% em 2027.
Na avaliação da entidade, a expansão da frota poderá superar o crescimento da demanda, enfraquecendo o equilíbrio entre oferta e procura por transporte marítimo.
Um dos fatores decisivos será a normalização das rotas afetadas pelos conflitos no Oriente Médio. Os desvios pelo Cabo da Boa Esperança aumentaram as distâncias percorridas e, consequentemente, a quantidade de embarcações necessária para transportar o mesmo volume de cargas. Essa situação ajudou a absorver parte da capacidade adicional incorporada à frota mundial.
Caso as operações pelo Canal de Suez retornem aos padrões anteriores às interrupções no Mar Vermelho, a demanda por navios poderá diminuir em relação à capacidade disponível.
Em um dos cenários analisados, a BIMCO estima que a oferta de capacidade poderá superar a demanda por embarcações em até 10%. A projeção, entretanto, depende da normalização das rotas e das condições do comércio internacional.
Nesse contexto, a continuidade das encomendas de megacontêineres indica que as grandes armadoras seguem investindo em escala, mesmo diante do risco de maior pressão competitiva nos próximos anos.
Navios maiores exigem adaptação dos portos
A expansão da frota de megacontêineres também amplia os desafios para a infraestrutura portuária.
Embarcações com capacidade próxima de 24 mil TEUs exigem canais de acesso e berços com profundidade e dimensões adequadas, além de portêineres capazes de alcançar as fileiras de contêineres distribuídas ao longo de grandes larguras.
A movimentação de volumes elevados em uma única escala também exige capacidade de armazenagem, equipamentos de pátio e conexões eficientes com os modais terrestres.
O crescimento dessa categoria de navios tende, portanto, a concentrar operações em terminais preparados para recebê-los, reforçando a importância dos investimentos em dragagem, modernização de equipamentos e acessos portuários.
Para os portos brasileiros, a tendência representa um desafio de competitividade no longo prazo. Entretanto, não há informação de que as embarcações atribuídas à nova encomenda da MSC serão destinadas às rotas que atendem o país.
Propulsão a GNL integra programa de expansão
Além da capacidade de transporte, a tecnologia de propulsão é outro componente da expansão anunciada pelo Hengli. O estaleiro chinês informou ter fechado contratos com diferentes armadores para a construção de 52 porta-contêineres equipados com sistemas dual fuel, capazes de utilizar gás natural liquefeito (GNL) ou combustíveis marítimos convencionais.
Desse total, 20 embarcações de 24 mil TEUs são atribuídas à MSC pela consultoria Linerlytica. O estaleiro, entretanto, não identificou oficialmente os compradores de cada lote, nem esclareceu se os contratos incluem alterações em encomendas anteriores.
A tecnologia pode reduzir determinadas emissões atmosféricas e, dependendo das condições de operação e abastecimento, diminuir a intensidade de carbono em comparação com sistemas convencionais.
O uso de GNL, porém, não elimina as emissões de gases de efeito estufa. Seu desempenho ambiental depende de fatores como a emissão de metano ao longo da cadeia de abastecimento e durante a operação dos motores.
A opção por embarcações de grande porte com propulsão dual fuel combina, assim, dois movimentos observados no transporte marítimo internacional: a busca por maior escala operacional e a diversificação das tecnologias de combustível.
Para os embarcadores, a ampliação da frota mundial poderá representar maior disponibilidade de espaço nos próximos anos. Isso, entretanto, não significa redução automática dos fretes.
Os preços continuarão condicionados ao crescimento do comércio internacional, à distribuição dos navios entre as rotas, aos custos operacionais e às decisões das armadoras sobre a capacidade efetivamente oferecida ao mercado.
A expansão da MSC ocorre justamente nesse ponto de inflexão: enquanto as maiores companhias continuam contratando embarcações de grande porte, o setor se prepara para um período em que administrar a oferta poderá ser tão importante quanto ampliar a frota.
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