A Vports, concessionária responsável pela administração dos portos de Vitória, Vila Velha e Barra do Riacho, em Aracruz (ES), prepara a primeira revisão dos parâmetros de seu contrato de concessão, prevista para 2027, com a perspectiva de incorporar novos investimentos em infraestrutura.
Entre os projetos em estudo está a ampliação da capacidade do canal de acesso ao Porto de Vitória, com investimentos estimados entre R$ 150 milhões e R$ 180 milhões para permitir a entrada de navios maiores e ampliar a competitividade do complexo portuário.
A revisão ocorrerá cinco anos após a transferência da administração portuária à iniciativa privada, em setembro de 2022, e permitirá reavaliar indicadores de desempenho e discutir intervenções não previstas originalmente no contrato. O processo deverá considerar as necessidades de expansão das operações, as mudanças no perfil das cargas e as exigências de eficiência e sustentabilidade.
A companhia projeta encerrar 2026 com movimentação de aproximadamente 9 milhões de toneladas. Durante o 2º Encontro Mulheres a Bordo, realizado em Brasília, a diretora Jurídica e Regulatória da Vports, Adriana Pessotti, apresentou a perspectiva de alcançar 15 milhões de toneladas até 2030, crescimento de cerca de 67% em relação ao volume esperado para este ano. Para 2057, último ano do prazo original da concessão, a projeção é atingir 20 milhões de toneladas.

A meta de 15 milhões de toneladas supera a projeção de 13 milhões de toneladas para 2030 divulgada anteriormente pela companhia, indicando uma perspectiva mais ambiciosa de expansão das operações.
Canal de acesso é prioridade
Um dos principais desafios para o crescimento da movimentação está nas condições de acesso marítimo. Atualmente, o Porto de Vitória opera com calado de 12,5 metros, e a concessionária estuda elevar esse limite para pelo menos 13 metros. Paralelamente, pretende ampliar de aproximadamente 32 para 38 metros a largura máxima dos navios autorizados a utilizar o canal.
Os estudos contam com a participação da Log-In, responsável pela operação do Terminal Portuário de Vila Velha (TVV), e buscam identificar a combinação mais eficiente entre profundidade e largura do canal, considerando as limitações naturais da Baía de Vitória e as características das embarcações atendidas.
Em declarações divulgadas pela imprensa capixaba, o CEO da Vports, Pedro Benevides, afirmou que a definição do projeto precisa conciliar as necessidades operacionais com a viabilidade financeira.
“Não adianta aprofundar demais, já que temos limitação natural para o aumento da boca, e também não pode ser de menos. Queremos entregar um investimento que seja eficiente sob o ponto de vista técnico e financeiro”, explicou o executivo.
O orçamento preliminar para a ampliação da capacidade de acesso varia entre R$ 150 milhões e R$ 180 milhões. Uma das alternativas em discussão é utilizar recursos atualmente destinados ao pagamento da outorga ao governo federal, estimada entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões anuais, para financiar parte das intervenções. A proposta ainda depende de negociação e das autorizações necessárias.
A ampliação das dimensões permitidas no canal poderá reduzir restrições operacionais e melhorar as condições de atendimento a embarcações de maior porte, especialmente nas operações de contêineres e cabotagem. O projeto também poderá contribuir para a atração de novas escalas e o aumento da capacidade de transporte por viagem.
Investimentos contratados somam R$ 1,6 bilhão
A preparação para a revisão ocorre após um ciclo de modernização da infraestrutura portuária. Em balanço divulgado em 2025, a Vports informou que os investimentos realizados pela concessionária e empresas parceiras desde setembro de 2022 haviam alcançado R$ 580 milhões.
Entre as intervenções executadas estão a revitalização do ramal ferroviário interno, a reforma de armazéns, a recuperação de estruturas de armazenagem e melhorias nos berços de atracação, nos sistemas de segurança e nas operações.
Mais recentemente, a companhia informou ter consolidado uma carteira de R$ 1,6 bilhão em investimentos contratados desde o início da concessão. O montante inclui projetos da própria Vports e de empresas parceiras, não representando integralmente recursos já desembolsados.
Entre os empreendimentos previstos estão a construção de um terminal de líquidos para combustíveis, a ampliação da infraestrutura ferroviária, a automação do terminal de contêineres e projetos destinados às operações industriais e offshore.
A expansão da movimentação também exigirá melhorias na integração com os modais terrestres. Além das intervenções ferroviárias, a concessionária avalia soluções para organizar o fluxo de caminhões e reduzir os impactos do crescimento das operações sobre os acessos portuários.
Revisão poderá atualizar indicadores de desempenho
O contrato da Vports, pioneiro na concessão de uma autoridade portuária pública à iniciativa privada no Brasil, prevê revisões quinquenais dos parâmetros regulatórios. O mecanismo permite avaliar o desempenho da concessionária e discutir ajustes necessários à evolução das operações ao longo dos 35 anos de concessão.
Entre os instrumentos previstos estão o Índice de Qualidade dos Serviços Prestados (IQS) e as metodologias de cálculo dos fatores regulatórios Q e X. A revisão deverá observar os procedimentos estabelecidos no contrato, incluindo avaliação e audiência pública.
A companhia também pretende discutir indicadores que considerem aspectos além do volume movimentado, incorporando critérios relacionados à eficiência operacional, à sustentabilidade ambiental e aos impactos sociais.
“Um contrato de infraestrutura não consegue prever tudo o que pode acontecer em 35 anos de concessão. Por isso, existem mecanismos de revisão dos parâmetros, que permitem aperfeiçoar o contrato e buscar novas oportunidades de desenvolvimento”, afirmou Adriana Pessotti durante o encontro em Brasília.
A incorporação de novos investimentos, entretanto, não ocorre automaticamente com a revisão quinquenal. Projetos que impliquem alterações nas obrigações contratuais ou nas condições econômico-financeiras da concessão deverão observar os procedimentos regulatórios aplicáveis.
Captação de recursos amplia capacidade financeira
A Vports também avançou na estruturação de instrumentos de financiamento para sustentar seus projetos. A companhia realizou duas emissões de debêntures que somam R$ 500 milhões, sendo a primeira de R$ 400 milhões, com vencimento em 2038, e a segunda de R$ 100 milhões, com vencimento em 2031.
Em novembro de 2025, a Fitch Ratings reafirmou a classificação nacional de longo prazo AAA(bra) da concessionária, com perspectiva estável. A avaliação representa a categoria mais elevada na escala nacional da agência de classificação de risco e reflete sua análise da capacidade de cumprimento das obrigações financeiras.
Segundo Pessotti, os primeiros anos da concessão também foram marcados pelo aprimoramento dos padrões de governança, pela obtenção de certificações internacionais e pelo fortalecimento dos mecanismos de integridade corporativa.
“O contrato de concessão é o coração da empresa. Temos o compromisso de cumprir o que foi estabelecido e, ao mesmo tempo, buscar melhorias para que o porto seja cada vez mais eficiente, dinâmico e sustentável”, destacou.
Descarbonização integra nova fase
A agenda de sustentabilidade também deverá fazer parte das discussões sobre o futuro da infraestrutura portuária. Entre as alternativas em avaliação está a implantação de sistemas de fornecimento de energia elétrica para navios atracados, tecnologia conhecida como onshore power supply (OPS).
O sistema permite que embarcações compatíveis utilizem energia fornecida pela infraestrutura terrestre durante sua permanência no porto, reduzindo a necessidade de funcionamento dos motores auxiliares. A solução pode contribuir para diminuir emissões atmosféricas e ruídos nas áreas portuárias, embora sua implantação dependa de adaptações na infraestrutura elétrica e nos próprios navios.
A concessionária também estuda medidas para aumentar a eficiência energética e reduzir os impactos ambientais das operações.
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