O projeto brasileiro JAQ H2 prepara a instalação de um sistema para testar a produção de hidrogênio a bordo a partir da água do mar, combinando diferentes fontes de energia. Idealizada pelo Grupo Náutica, a embarcação de 50 metros deverá começar a receber os equipamentos em janeiro de 2027, com expectativa de operação até o fim daquele ano. O objetivo é desenvolver tecnologias que poderão ser aproveitadas em outras embarcações, inclusive no transporte de cargas.
Em entrevista à Agência Transporte Moderno, Eduardo Colunna, presidente da Acobar, entidade que representa os fabricantes de barcos, explicou que o projeto será uma plataforma de pesquisa e desenvolvimento, sem a pretensão de produzir todo o hidrogênio necessário à operação. A eletricidade para a produção do combustível poderá vir de fontes solares, eólicas e do fornecimento em terra, quando o barco estiver atracado.
“Não se pretende que ele seja autossustentável na produção de hidrogênio”, afirmou. Embora o anúncio apresente uma operação sem emissões de carbono como objetivo, Colunna explicou que o desempenho ambiental dependerá dos sistemas utilizados e das condições de navegação.
Apresentado no São Paulo Boat Show, o JAQ H2 deverá reunir captação e dessalinização da água do mar, produção de hidrogênio por eletrólise, armazenamento e utilização do combustível em sistemas de geração de energia.
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Como funcionará
O JAQ H2 deverá combinar diferentes sistemas de produção e utilização de energia, dando continuidade à experiência do JAQ H1. Na primeira embarcação, uma célula a combustível utiliza hidrogênio para gerar eletricidade destinada à hotelaria — os serviços e equipamentos de bordo. Já os motores que movimentam o barco combinam diesel e hidrogênio, segundo Colunna.
O avanço previsto para o JAQ H2 é a produção de hidrogênio na própria embarcação. A água do mar será captada e dessalinizada antes de passar por um eletrolisador, equipamento que utiliza eletricidade para separar suas moléculas em hidrogênio e oxigênio. Segundo o projeto divulgado pelo Grupo Náutica, o hidrogênio produzido alimentará uma célula a combustível, gerando eletricidade para os sistemas de bordo e para os motores elétricos de propulsão.
A eletricidade necessária à produção do hidrogênio deverá vir de uma combinação de fontes. Colunna citou geração solar, aproveitamento da energia dos ventos e fornecimento em terra quando o barco estiver atracado. A embarcação também contará com baterias e outros sistemas de geração que atuarão de forma complementar.
O projeto prevê ainda geradores com motores bicombustíveis, combinando hidrogênio com diesel ou HVO, combustível renovável conhecido como óleo vegetal hidrotratado. A integração dessas tecnologias e seu desempenho serão avaliados durante os testes.
Colunna descreveu a iniciativa como uma plataforma de pesquisa e desenvolvimento voltada à transição energética, cujas soluções poderão ser aproveitadas separadamente em outras embarcações. “Cada um, no futuro, vai poder utilizar alguns desses sistemas isoladamente”, afirmou.
Tecnologias para outras embarcações
Questionado sobre a aplicação no transporte aquaviário de cargas, Colunna considerou a possibilidade viável, mas condicionada à capacidade dos fornecedores e às características de cada embarcação.
O custo do hidrogênio também permanece como obstáculo. Colunna reconheceu que o combustível ainda representa uma despesa maior em relação ao diesel convencional e aposta na expansão da infraestrutura para melhorar sua competitividade. “Claro que o hidrogênio ainda tem um valor elevado, mas isso também é questão de tempo”, disse.
Engenharia reúne parceiros
O desenvolvimento envolve empresas responsáveis por diferentes etapas do sistema. Segundo o Grupo Náutica, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) dará apoio ao desenvolvimento, à integração e à validação da produção de hidrogênio embarcada.
A Quanthus responde pelo eletrolisador e pelas soluções de armazenamento e utilização de hidrogênio por meio de hidretos metálicos. A WEG fornecerá motores elétricos de propulsão, alternadores dos geradores e integração das rotas energéticas.
Também participam a GWM Hydrogen, a MAN Motores, com motores dual fuel para os geradores, e a MWM, com soluções de combustão HVO-hidrogênio aplicadas a sistemas navais. Na entrevista, Colunna acrescentou que o Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) está entrando no projeto.
Segundo ele, a embarcação que receberá os equipamentos já existe. A próxima etapa será a instalação, seguida de testes, validação e procedimentos de classificação. Embora a meta seja operar até o fim de 2027, o executivo também mencionou um prazo de um ano a um ano e meio, a depender do andamento dos trabalhos.
O desenvolvimento foi financiado até agora com recursos próprios da empresa responsável, conforme Colunna. Segundo Colunna, o projeto foi submetido à Finep e aguarda a obtenção de apoio financeiro.
Pesquisa oceanográfica
Além dos testes energéticos, o JAQ H2 foi projetado para apoiar pesquisas oceanográficas. A infraestrutura prevê operação de veículos submarinos controlados remotamente, conhecidos como ROVs, apoio a atividades de mergulho profundo e coleta de dados hidrográficos.
A iniciativa dá continuidade ao JAQ H1, embarcação de 36 metros apresentada na COP30, em Belém, que já está navegando. O primeiro barco utiliza hidrogênio abastecido em terra e dispõe de uma célula a combustível para atender aos serviços e equipamentos de bordo, além de motorização bicombustível. Conta também com auditório para 50 pessoas, destinado a atividades de pesquisa, ciência e educação.
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