Falta de rotas e infraestrutura limita avanço da multimodalidade no Brasil, diz entidade

Estudo da ABOL mostra que nenhum modal recebeu nota acima de 6 dos operadores logísticos; ferrovias e hidrovias tiveram as piores avaliações

Redação

A falta de rotas, infraestrutura e integração entre os diferentes meios de transporte limita o avanço da multimodalidade no Brasil, segundo levantamento com operadores logísticos. O estudo mostra que nenhum dos modais recebeu nota superior a 6, em uma escala de zero a dez. As piores avaliações foram dadas às infraestruturas ferroviária, com média de 3,2, e hidroviária, com 3,4.

O Perfil dos Operadores Logísticos no Brasil 2026, encomendado pela Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL) ao Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), foi divulgado em setembro e é realizado a cada dois anos. A pesquisa aponta que os problemas não estão apenas na quantidade de ferrovias, portos, hidrovias ou rodovias, mas também na dificuldade de conectar esses sistemas.

A falta de opções de rotas é o principal problema nas combinações que envolvem hidrovias. Entre os entrevistados, 62% apontaram esse entrave na integração entre rodovia e hidrovia, enquanto 60% citaram a dificuldade na ligação entre cabotagem e hidrovia.

Na combinação entre rodovia e ferrovia, a principal reclamação é a indisponibilidade de infraestrutura, mencionada por 53% dos operadores. Quando a questão é a qualidade das estruturas existentes, a maior dificuldade aparece na conexão entre ferrovias e hidrovias, apontada por 60%.

As barreiras também aparecem na regulamentação. Na integração entre transporte aéreo e rodoviário, 45% dos entrevistados consideram as exigências regulatórias um obstáculo. A baixa integração entre sistemas é outro problema recorrente e aparece com maior intensidade na combinação entre cabotagem e transporte hidroviário, citada por 50% dos participantes.

Os terminais também apresentam restrições. Entre os alfandegados, como portos secos e Centros Logísticos e Industriais Aduaneiros (CLIAs), 71% dos operadores apontaram exigências regulatórias como um problema. Nos terminais aéreos, o percentual chega a 61%.

A oferta de instalações é outro gargalo. Para 55% dos entrevistados, há pouca disponibilidade de terminais ferroviários. No caso dos terminais hidroviários, essa percepção chega a 70%.

O resultado ajuda a explicar a concentração do transporte de cargas no país. As rodovias respondem por 63% do TKU (tonelada-quilômetro útil) movimentado no Brasil, contra 50% nos Estados Unidos, 29% na China e 24% na União Europeia.

Para Marcella Cunha, diretora executiva da ABOL, a ampliação da multimodalidade depende de uma combinação de infraestrutura, integração dos sistemas e coordenação entre os setores público e privado.

“A multimodalidade no país depende de infraestrutura e sistemas conectados, regulação coordenada e planejamento de longo prazo. É preciso criar condições para que os diferentes modais se complementem e para que o setor privado consiga planejar suas operações com mais previsibilidade”, afirma.

Segundo ela, o tema precisa ser tratado como uma política de Estado, e não de governo, para garantir continuidade aos investimentos e ao planejamento do setor.

Uso combinado ainda é restrito

Apesar dos gargalos, parte dos operadores já trabalha com mais de um meio de transporte. De acordo com o levantamento, 31% das empresas oferecem serviços multimodais. A maior parte, porém, utiliza apenas duas modalidades na mesma operação: 17% dos operadores fazem esse tipo de combinação, enquanto apenas 3% conectam três modais.

O porte da empresa também influencia a adoção. Entre os grandes operadores, 44% oferecem serviços multimodais. O percentual cai para 29% entre as empresas médias e 19% entre as pequenas.

Para 88% dos entrevistados, o avanço da multimodalidade exige maior coordenação entre governos e iniciativa privada, com combinação de políticas públicas, recursos financeiros e capacidade de execução.

A maior previsibilidade é apontada por 52% dos operadores como fator capaz de ampliar o uso combinado dos modais. Outros 39% citam a necessidade de melhorar a conexão entre os diferentes sistemas de transporte, enquanto 36% defendem o aprimoramento das rodovias.

A lógica, segundo a ABOL, não é substituir o transporte rodoviário, mas utilizar cada modalidade de acordo com a distância, o tipo e o volume da carga, além de prazo, custo e nível de serviço.

“Multimodalidade se decide com dados de origem/destino, tipo de carga, prazo, custo, risco, nível de serviço. Precisamos tirar do rodoviário aquilo que outros modais podem fazer melhor em determinadas geografias, rotas, distâncias e volumes”, afirma Marcella.

Setor movimenta R$ 247 bilhões

O estudo também dimensionou o peso econômico dos operadores logísticos. Em 2025, o setor registrou Receita Operacional Bruta de R$ 247 bilhões, alta de 18% em relação a 2023. O valor equivale a quase 2% do PIB brasileiro e a cerca de 20% dos gastos nacionais com transporte e armazenagem.

O número de empresas também cresceu. O levantamento estima que o país tenha atualmente cerca de 1.500 operadores logísticos, 15% a mais do que na edição anterior da pesquisa. Desde 2022, 64% das empresas ampliaram sua área de atuação.

O setor emprega diretamente 983 mil pessoas. Quando considerados os empregos indiretos e as atividades relacionadas à cadeia, o número chega a 2,8 milhões de trabalhadores, equivalentes a 2,7% da população ocupada no país.

Em tributos e encargos, os operadores geraram R$ 57 bilhões em 2025. Desse total, R$ 8,5 bilhões foram relacionados às empresas associadas à ABOL.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Aviso de reprodução Este conteúdo pode ser compartilhado com responsabilidade

Este conteúdo pode ser reproduzido, desde que seja citada a fonte com link: Agência Transporte Moderno. Respeitar a autoria e indicar a origem da informação contribui para fortalecer o bom jornalismo e a produção de conteúdo confiável.