O comércio eletrônico latino-americano deve movimentar US$ 215,31 bilhões em 2026, mas a expansão para outros países exige dos vendedores brasileiros mais do que presença nos marketplaces. Integrar estoques, calcular fretes e tributos, cumprir regras aduaneiras e organizar devoluções são etapas que podem comprometer a margem da operação.
A projeção integra estudo da Endeavor com o Mercado Livre. O setor cresce na região em ritmo 1,5 vez superior à média mundial, enquanto Brasil, México e Argentina concentraram quase 85% das vendas latino-americanas em 2025.
O levantamento mostra ainda que 84% das compras digitais são feitas por celulares. A facilidade de acesso, porém, não garante fidelidade: quase metade dos consumidores deixaria uma plataforma após uma experiência negativa, principalmente em entregas e devoluções.
Vender fora exige mais que uma vitrine
Os marketplaces reduzem barreiras ao oferecer audiência, meios de pagamento e, em alguns casos, serviços logísticos. Isso não elimina as obrigações de uma exportação. Classificação da mercadoria, documentação, conversão cambial, prazo de entrega e regras tributárias e sanitárias do país de destino interferem no custo final.
O Portal Único Siscomex informa que a operação pode exigir a Declaração Única de Exportação (DU-E) e o cumprimento das normas alfandegárias aplicáveis. As remessas menores podem ser enviadas pelos Correios ou por empresas de transporte expresso, mas o vendedor continua responsável pelas informações comerciais e aduaneiras.
A conta inclui frete internacional, coleta, seguro, desembaraço, tributos no destino, comissão do marketplace, publicidade e atendimento em outros idiomas. Em caso de devolução, trazer a mercadoria de volta ao Brasil pode custar mais do que o próprio produto. O vendedor precisa definir antecipadamente se fará o retorno, o reembolso sem recolhimento ou o descarte no destino.
Segundo o estudo da Endeavor e do Mercado Livre, 75% dos consumidores valorizam preços e políticas apresentados com clareza. Menos de um terço considera a personalização essencial, indicação de que custo, prazo e confiabilidade podem pesar mais na escolha da plataforma.
Integração reduz falhas de estoque
A venda simultânea em vários canais acrescenta o risco de oferecer a mesma unidade mais de uma vez. Se a atualização não ocorrer rapidamente, a operação pode gerar cancelamentos, atrasos e punições aplicadas pelos marketplaces.
Sistemas de integração conectam os canais de venda aos programas de gestão, atualizando estoques e encaminhando os pedidos para faturamento e expedição. “Ficou mais fácil chegar ao consumidor, mas muito mais difícil administrar manualmente tudo o que acontece antes e depois da compra”, afirma Claudio Dias, CEO da Magis5, fornecedora de tecnologia para marketplaces.
A automação, contudo, não substitui o planejamento comercial e logístico. A empresa ainda precisa escolher os mercados, formar preços, contratar o transporte e definir como atender clientes e processar devoluções.
O crescimento regional também leva as grandes plataformas a investir em capacidade logística. O Mercado Livre anunciou R$ 57 bilhões em investimentos no Brasil em 2026, 50% acima do ano anterior, principalmente para expandir logística, marketplace e crédito.
Para pequenos e médios vendedores, a alternativa passa por operadores logísticos, serviços de fulfillment e sistemas que concentrem a gestão dos canais. Sem controle de frete, comissões, câmbio, tributos e devoluções, a expansão internacional pode elevar o faturamento sem produzir o mesmo efeito sobre o lucro.
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