Fazer um carro zero-quilômetro chegar da fábrica à concessionária sem avarias acrescenta uma variável à operação das carretas-cegonha: as condições das rodovias. Buracos, desníveis, pavimento deteriorado e até vegetação que avança sobre as pistas aumentam a exposição dos veículos transportados a danos e também afetam equipamentos, motoristas e prazos de viagem.
A questão ganha dimensão diante do volume movimentado pela indústria automotiva. O Brasil produziu 1,372 milhão de autoveículos no primeiro semestre de 2026, alta de 8,8% sobre igual período do ano passado, segundo a Anfavea. Para o ano, a entidade projeta produção próxima de 2,8 milhões de unidades, crescimento de 5,8%.
Parte significativa desses veículos depende do transporte rodoviário para deixar fábricas e portos e chegar aos centros de distribuição e concessionárias. Diferentemente de outras cargas, porém, os automóveis seguem expostos durante boa parte do percurso nas estruturas abertas das carretas-cegonha.
“Estamos levando uma carga de alto valor, que precisa chegar ao destino nas mesmas condições em que saiu da fábrica. Quanto melhor a estrada, melhores são as condições para realizar esse trabalho com segurança, previsibilidade e eficiência”, afirma José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg).
Pavimento também pesa nos custos
Os efeitos das condições das estradas não se restringem ao transporte de veículos. A Pesquisa CNT de Rodovias estima em R$ 99,7 bilhões os investimentos necessários para reconstrução, restauração e manutenção dos pavimentos avaliados pelo levantamento.
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) calcula ainda que as condições dos trechos classificados como regular, ruim ou péssimo provocaram o consumo adicional de 1,184 bilhão de litros de diesel por caminhões e ônibus.
No caso das cegonhas, além do consumo e do desgaste dos equipamentos, há o risco de danos à própria carga. Árvores, galhos e outras vegetações que avançam sobre a rodovia são uma preocupação adicional devido à altura e às características desses veículos.
“Uma pista ruim aumenta o desgaste do equipamento, exige mais do motorista e eleva o risco para a carga. No transporte de veículos zero-quilômetro, uma avaria pode comprometer a operação e afetar economicamente o frete”, afirma Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg.
O sindicato, no entanto, não apresentou dados sobre a quantidade de automóveis novos avariados durante o transporte em razão das condições das rodovias nem estimativas do custo desses danos para transportadores, montadoras ou seguradoras.
Concessões ampliam investimentos
A discussão ocorre durante a ampliação do programa federal de concessões rodoviárias. A carteira apresentada pelo Ministério dos Transportes reúne projetos em corredores como BR-116/SP/PR, BR-116/376/PR e BR-101/SC, BR-153/SP, BR-116/392/RS e BR-101/RJ, além de trechos nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
Parte desses corredores conecta grandes mercados consumidores, áreas industriais e acessos portuários, tornando a qualidade da infraestrutura relevante também para a distribuição de veículos.
Para os cegonheiros, a expectativa é que os investimentos previstos nos contratos se traduzam em melhores condições de pavimento, conservação e segurança. O resultado dependerá, porém, da execução das obras e dos serviços previstos em cada concessão.
O Ministério dos Transportes mantém uma carteira de 35 novos projetos de concessões rodoviárias, dentro de um conjunto de oportunidades estimado em R$ 396 bilhões em quatro anos. O programa inclui tanto novos contratos como processos de otimização de concessões existentes.
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