Em menos de um ano, o comércio eletrônico passou a responder por quase 20% do faturamento da Buzin Transportes. A participação já se aproxima daquela mantida pela siderurgia, segmento que chegou a concentrar 100% da operação da empresa e hoje representa cerca de um quinto da receita.
O avanço do e-commerce faz parte de uma estratégia de diversificação adotada pela transportadora para reduzir a exposição às oscilações de setores específicos e ampliar sua capacidade de deslocar veículos entre diferentes operações. Atualmente, a empresa atua também nos mercados petroquímico, agrícola, de alimentos e bebidas, papel e celulose, construção civil, saúde e bem-estar, além do transporte de contêineres.
“Viemos da siderurgia. Há cerca de 30 anos, esse setor chegou a representar 100% da operação. Com o crescimento da empresa, fomos pulverizando a atuação para não ficar tão dependentes de um único setor ou cliente e, assim, diminuir o risco”, afirma Leonardo Busin, CEO da Buzin Transportes.
A estratégia ganha relevância em um ano marcado por desempenhos distintos entre os setores atendidos pelo transporte rodoviário de cargas. No primeiro semestre de 2026, a produção brasileira de aço bruto somou aproximadamente 16,3 milhões de toneladas, queda de 1,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto Aço Brasil. A fabricação de laminados recuou 4,4%, enquanto as vendas ao mercado interno caíram 0,2%.
No comércio eletrônico, o movimento foi inverso. As vendas online movimentaram R$ 208 bilhões entre janeiro e junho, crescimento de 16,9%. O número de pedidos chegou a 756 milhões, avanço de 34,8%, segundo levantamento da Confi, por meio da Neotrust e da Aftersale, em parceria com o E-Commerce Brasil.

E-commerce ganha espaço
A Buzin iniciou sua operação voltada ao comércio eletrônico em outubro de 2025. Para ingressar no segmento, ampliou a frota e incorporou aproximadamente 200 caminhões e implementos destinados inicialmente às transferências de longa distância entre centros de distribuição.
A empresa não realiza, nesse contrato, a entrega final ao consumidor, conhecida como última milha. Sua atuação está concentrada no chamado line haul, que envolve o transporte de grandes volumes entre armazéns e centros de distribuição.
“Começamos faturando pouco no primeiro mês, depois dobramos e dobramos novamente. Foi uma operação que ganhou tração muito rapidamente e hoje já representa quase 20% do faturamento”, diz Busin.
O executivo atribui o crescimento às perspectivas de expansão das compras online e à menor oscilação dos volumes, especialmente em períodos de maior consumo, como Black Friday, Natal e datas promocionais.
A entrada nesse mercado, entretanto, exigiu mais do que a aquisição de veículos com baú. A operação do e-commerce trabalha com prazos mais rígidos, alta frequência de viagens, monitoramento constante e menor tolerância a atrasos.
Para acelerar a adaptação, a Buzin contratou profissionais com experiência em empresas que já atuavam no segmento. De acordo com Busin, foram necessários entre um e dois meses para ajustar os processos e incorporar a nova dinâmica à cultura da companhia. “O e-commerce é mais regrado e exige que a operação siga os processos com bastante precisão. Isso também ajuda a empresa a melhorar o atendimento aos demais clientes”, afirma.
Equipamentos facilitam migração entre cargas
A diversificação também influencia a escolha dos equipamentos. A Buzin procura adquirir implementos que possam ser usados em mais de um tipo de operação, reduzindo o risco de manter caminhões parados quando a demanda diminui em determinado mercado.
Os rodotrens da empresa, por exemplo, possuem estrutura para o transporte de bobinas e contêineres. Dessa forma, podem atender cargas dos setores siderúrgico, petroquímico e agrícola ou ser transferidos para operações conteinerizadas. “Se o serviço na siderurgia diminuir, podemos migrar o equipamento para contêineres, para o petroquímico ou para outro segmento. Não ficamos reféns de uma única aplicação”, explica o CEO.
A possibilidade de diversificar aumentou à medida que a transportadora ganhou escala. Com uma frota pequena, segundo Busin, é mais difícil distribuir os veículos entre diferentes contratos. Atualmente, com 630 caminhões, a empresa consegue destinar grupos de veículos a várias operações sem comprometer a eficiência.
A frota reúne veículos com sider, baú e diferentes configurações de carretas e rodotrens. A companhia também atende diretamente grandes empresas dos setores em que atua, sem intermediação de operadores logísticos.
Novas compras ficam para 2027
Depois do ciclo de aquisições realizado em 2025, a Buzin não prevê novas compras relevantes de caminhões neste ano. A prioridade agora é consolidar a utilização dos veículos incorporados e ampliar a participação de transportadores terceiros conforme a entrada de novos contratos.
“Os caminhões que temos já estão rodando e alocados. Agora vamos crescer com terceiros e, depois, avaliar o próximo passo para uma nova compra. Para este ano, não devemos adquirir mais veículos”, afirma Busin.
Os caminhões usados no e-commerce são movidos a diesel. Segundo o executivo, a eletrificação ainda não atende às necessidades da operação, que envolve rotas de longa distância, como o trajeto entre Porto Alegre e São Paulo, além de prazos rígidos de entrega.
A companhia afirma que praticamente toda a sua frota é formada por veículos Euro 6, fabricados a partir de 2023. Telemetria e acompanhamento do consumo são utilizados para reduzir o gasto de combustível. De acordo com Busin, o diesel representa aproximadamente 30% do faturamento da empresa, abaixo da referência de 37% a 38% considerada pela transportadora para operações comparáveis.
Diesel ainda pressiona fluxo de caixa
Apesar do crescimento dos volumes transportados, a elevação do preço do diesel pressionou a rentabilidade e o caixa da empresa em 2026. Busin afirma que a companhia enfrentou um período mais difícil entre março e maio, quando precisou negociar o repasse do aumento aos clientes, ao mesmo tempo que lidava com mudanças relacionadas ao piso mínimo do frete e ao cadastramento da operação de transporte.
“O diesel é pago praticamente à vista, enquanto o cliente paga o frete em 30, 60 ou até 90 dias. Essa diferença provoca um descasamento importante no fluxo de caixa”, explica.
Na avaliação do executivo, o piso mínimo de frete acabou favorecendo empresas com frota própria, uma vez que alguns embarcadores passaram a dar preferência à contratação direta de transportadoras frotistas diante do maior custo da subcontratação.
Mesmo com juros elevados, incertezas econômicas e pressão sobre os custos, Busin afirma que a empresa não registra redução da demanda. Os volumes dos clientes continuam crescendo, embora o cenário exija maior esforço comercial e controle financeiro.
“Tudo no Brasil é transportado por caminhão. De um jeito ou de outro, serviço haverá. Pode ficar mais fácil ou mais difícil, exigir mais trabalho do time comercial, mas precisamos estar preparados para nos adaptar”, conclui.
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