L’Oréal expande operação com caminhões a biometano para RJ e ES

Companhia prepara corredor de abastecimento para ampliar rotas; projeto já reduziu em 33% as emissões do transporte e evitou mais de 2,2 mil toneladas de CO₂

Valeria Bursztein

A L’Oréal está ampliando o uso de biometano em sua operação logística no Brasil e prepara a expansão das rotas para Rio de Janeiro e Espírito Santo, ao mesmo tempo em que trabalha no desenvolvimento de um corredor de abastecimento capaz de levar o combustível a distâncias maiores.

A estratégia é o próximo passo de um projeto iniciado em 2024 que, segundo a companhia, já reduziu em 33% as emissões de carbono relacionadas ao transporte rodoviário abrangido pela iniciativa e evitou mais de 2,2 mil toneladas de CO₂.

Os resultados e os próximos passos do projeto foram apresentados por Juliana Fleming, diretora executiva de Operações da L’Oréal, durante o Fórum ILOS, em São Paulo. A companhia já consegue realizar entregas com biometano para clientes na Região Sul e conta com infraestrutura de abastecimento no Rio de Janeiro. O avanço para o Espírito Santo e a ampliação da cobertura no Rio fazem parte da nova etapa.

O principal desafio agora é aumentar a disponibilidade de abastecimento ao longo das rodovias para permitir que os veículos percorram distâncias maiores. A L’Oréal quer incentivar a formação de um corredor de pontos de biometano, reunindo fornecedores de combustível, transportadoras e outros embarcadores.

Juliana Fleming, diretora executiva de Operações da L’Oréal, durante o Fórum ILOS / Foto: OTM EDITORA / Valeria Bursztein

“Nosso grande desafio hoje está nesse corredor de pontos de biometano que queremos construir em parceria não só com a Gás Verde, parceira ligada ao biometano e à infraestrutura de abastecimentomas com várias outras empresas. E, para isso, a gente precisa de demanda”, afirmou Juliana.

A limitação aparece especialmente nas rotas de longa distância. “Eu não consigo subir para o Nordeste, por exemplo, ainda com biometano”, explicou.

Mais da metade das emissões regionais no Brasil

O peso do transporte rodoviário na distribuição brasileira ajuda a explicar por que o País ocupa posição central na estratégia de descarbonização da companhia. Segundo Juliana, a operação brasileira responde por mais de 50% das emissões de carbono da L’Oréal na América Latina.

A geografia amplia o desafio. O centro de distribuição está localizado em Jarinu, no interior de São Paulo, enquanto o cliente mais distante citado pela executiva fica em Roraima, a cerca de 5 mil quilômetros. Aproximadamente 90% da distribuição da companhia no País é realizada por caminhões, mantendo a operação fortemente dependente do diesel.

Ao mesmo tempo, a L’Oréal Brasil registra crescimento de dois dígitos há mais de cinco anos, o que significa que a redução das emissões precisa ocorrer enquanto o volume da operação aumenta.

“Além de ter que descarbonizar, precisamos mitigar o crescimento do Brasil. E nem pensar em não crescer para poder descarbonizar. Essa não é nem uma negociação”, afirmou.

O desafio ganha dimensão diante das metas estabelecidas pela companhia. Até 2030, a L’Oréal pretende reduzir em 57% as emissões dos escopos 1 e 2 e em 28% as do escopo 3. No horizonte de 2050, o compromisso é alcançar uma redução de 90% das emissões de carbono.

Estratégia começou pelo redesenho da logística

A descarbonização da distribuição começou antes da adoção do biometano. Até 2022, a L’Oréal mantinha um centro de distribuição no Rio de Janeiro, enquanto sua fábrica estava em São Paulo. Como cerca de 60% dos clientes estão no Sudeste, essa configuração provocava deslocamentos adicionais e, consequentemente, mais emissões.

A companhia decidiu aproximar o centro de distribuição da fábrica e instalá-lo em Jarinu. Juliana destacou que a localização foi definida com base em critérios logísticos, de eficiência e sustentabilidade, e não prioritariamente em benefícios tributários.

Foi a partir desse redesenho que a empresa começou a procurar alternativas ao diesel. Em 2023, instalou, em parceria com a Gás Verde, um ponto de abastecimento de biometano próximo ao CD. A operação com os caminhões começou efetivamente em 2024, com a participação da Reiter Log, transportadora parceira e responsável pelos veículos/tecnologia.

A primeira etapa concentrou-se no fluxo inbound, atendendo aos movimentos entre fábrica, centro de distribuição e o centro de nacionalização dos produtos importados pela companhia.

Eficiência operacional ajudou a fechar a conta

A viabilidade econômica foi uma das primeiras barreiras enfrentadas pelo projeto. Quando a operação começou, o biometano tinha custo superior, o que levou a L’Oréal a buscar ganhos de produtividade para compensar a diferença. A solução passou pelo redesenho dos fluxos, maior utilização dos veículos e redução de viagens vazias, até que a companhia conseguisse, segundo Juliana, equalizar o custo da operação.

“Toda vez que falo disso, o que vem na cabeça de todo mundo é: ‘Ah, mas e o preço?’. A gente fez a nossa logística eficiente e valeu muito a pena”, afirmou.

A executiva destacou ainda que a equação econômica não depende apenas do preço do combustível. A produtividade do caminhão tornou-se determinante para sustentar o modelo, razão pela qual a empresa passou a combinar diferentes fluxos em uma mesma viagem. O veículo pode, por exemplo, levar uma carga do centro de distribuição até uma transportadora e seguir para a fábrica para retornar carregado, evitando percursos vazios.

Na etapa seguinte, a L’Oréal passou a utilizar os veículos também na primeira perna das cargas fracionadas, levando mercadorias do CD até as transportadoras. A mudança permitiu reduzir viagens vazias: o caminhão entrega a carga à transportadora, segue para a fábrica, carrega novamente e retorna ao centro de distribuição.

O modelo mostra que, na estratégia da companhia, a redução das emissões não depende apenas da substituição do diesel. Ocupação dos veículos, quilometragem improdutiva, tempo de ciclo e produtividade também entram na equação.

“O impacto é real. Conseguimos ter uma logística super eficiente, diminuir a emissão de CO₂ e o custo é competitivo. Agora, temos que expandir”, afirmou Juliana.

L’Oréal garante demanda; Reiter Log investe na frota

A parceria com a Reiter Log permitiu avançar no uso dos veículos dedicados. Juliana explicou que a transportadora já vinha discutindo alternativas de descarbonização com a L’Oréal desde a avaliação de caminhões elétricos e posteriormente avançou para o biometano.

O modelo adotado distribuiu o investimento entre os parceiros de uma forma diferente da aquisição direta de veículos pelo embarcador: a L’Oréal ofereceu previsibilidade e volume de carga, enquanto a Reiter Log investiu nos caminhões e na tecnologia. “Investimos dando para eles a demanda e eles investiram no caminhão e na tecnologia”, resumiu Juliana. Segundo a executiva, a operação conta atualmente com 14 veículos dedicados.

A estratégia ajuda a explicar por que a companhia procura atrair mais embarcadores para o biometano. Quanto maior a demanda disponível, maior a possibilidade de justificar investimentos das transportadoras em veículos e dos fornecedores na infraestrutura de abastecimento.

A L’Oréal também passou a solicitar que outras transportadoras apresentem alternativas com biometano em suas negociações.

‘Green Carpet’ dá prioridade à descarga

A necessidade de garantir produtividade aos veículos chegou também aos clientes da L’Oréal. Para evitar que caminhões dedicados à operação de menor emissão permaneçam parados aguardando recebimento, a empresa passou a negociar um sistema que chama de “Green Carpet”.

Na prática, os veículos a biometano recebem prioridade na descarga, respeitadas a programação e as condições operacionais dos destinatários. “Quando o meu caminhão chega, ele precisa ser o primeiro a ser descarregado, porque precisamos manter a eficiência da minha logística para que o custo valha a pena no final das contas”, explicou Juliana.

A executiva citou negociações com Raia, Amazon e Mercado Livre. A sustentabilidade também passou a fazer parte das reuniões comerciais anuais com grandes clientes por meio do chamado Green JBP, que incorpora indicadores ambientais à relação entre fornecedor e varejista.

Segundo Juliana, o movimento ocorre nos dois sentidos. Assim como a L’Oréal passa a exigir práticas de menor emissão de seus fornecedores, seus grandes clientes também estão aumentando as exigências ambientais sobre a cadeia de suprimentos.

Corredor depende de escala

A infraestrutura de abastecimento tornou-se agora uma das principais barreiras para a expansão.

Questionada durante o evento sobre a possibilidade de outras transportadoras utilizarem o ponto de biometano associado à operação da L’Oréal em São Paulo, Juliana afirmou que existe capacidade e que o acesso pode ser negociado com a Gás Verde. “Há espaço e didsponibilidade. Na verdade, queremos que mais empresas transportadoras utilizem esse ponto de abastecimento”, afirmou.

A abertura para outras frotas faz parte da lógica de criação do corredor. Para a L’Oréal, a expansão depende de um círculo virtuoso: mais embarcadores geram demanda; a demanda estimula transportadoras a investir em veículos e fornecedores a ampliar os pontos de abastecimento; com maior infraestrutura, torna-se possível incorporar novas rotas.

Elétricos ficam com parte do last mile

O biometano, porém, não é tratado como solução única para todas as operações. No last mile, principalmente nas entregas urbanas mais pulverizadas, a L’Oréal utiliza veículos elétricos. É o caso de parte da operação da divisão de produtos profissionais, que realiza entregas porta a porta para salões de beleza.

Já grandes varejistas e marketplaces recebem principalmente cargas fechadas, permitindo outro desenho operacional. A companhia trabalha, portanto, com diferentes tecnologias conforme distância, volume e perfil de entrega.

“Se o objetivo é diminuir a emissão de gás carbônico, é preciso olhar para onde está a sua maior emissão”, afirmou Juliana.

Atualmente, a matriz de transporte ainda combina biometano, veículos elétricos e diesel, enquanto a empresa busca aumentar gradualmente a participação das alternativas de menor emissão.

Cabotagem entra na rota do Nordeste

A dificuldade de levar caminhões a biometano para algumas regiões também levou a L’Oréal a estudar mudanças na própria matriz de transporte. Uma das alternativas é ampliar o uso da cabotagem nas cargas destinadas ao Nordeste.

Segundo Juliana, as análises realizadas pela companhia indicam que a utilização do modal pode acrescentar cerca de dois dias ao lead time, diferença que pode ser compensada pelo ganho na redução das emissões. “Cabotagem é um modal para o qual estamos olhando e expandindo”, disse.

A ferrovia também foi estudada, mas a companhia considera que, nas condições atuais, a disponibilidade da infraestrutura e a necessidade de atender aos prazos exigidos pelos clientes dificultam sua utilização. “É muito difícil a gente usar a ferrovia para onde a gente tem que chegar nos nossos clientes. A gente já estudou, mas não é um transporte viável”, afirmou.

A executiva ressalvou que o cenário pode mudar com a evolução da infraestrutura brasileira. A questão central é compatibilizar o ganho ambiental com outro indicador crítico para a operação: o lead time.

Frete aéreo doméstico foi zerado

A revisão dos modais já provocou outra mudança significativa. Segundo Juliana, a L’Oréal zerou o uso de frete aéreo em sua logística doméstica no Brasil. No transporte internacional, apenas 0,8% das cargas são movimentadas por avião, enquanto quase 99% seguem pelo modal marítimo.

A redução do aéreo foi uma das primeiras iniciativas adotadas pela companhia em sua estratégia de descarbonização, devido à intensidade das emissões associadas ao modal.

O avanço da cabotagem pode representar uma nova etapa dessa estratégia: em vez de concentrar a descarbonização apenas na tecnologia utilizada pelo caminhão, a empresa combina combustíveis alternativos, transferência modal e redesenho da operação.

Projeto precisou vencer resistência interna

A implantação do biometano também enfrentou resistência dentro da própria multinacional. Juliana contou que foram necessários anos para explicar à matriz francesa o processo de produção do combustível a partir de resíduos e demonstrar a segurança, a regulamentação e o potencial da solução brasileira.

“Imagina eu contando para o meu chefe lá na França que a gente estava pegando combustível do lixo”, brincou. O processo incluiu visitas e apresentações até que o projeto brasileiro ganhasse espaço na estratégia global de sustentabilidade da L’Oréal.

Agora, depois de comprovar a aplicação do combustível em sua própria logística, a companhia tenta ampliar a escala. Para isso, o desafio deixa de estar apenas dentro da L’Oréal: será necessário conectar produção de biometano, postos de abastecimento, transportadoras, embarcadores e clientes.

É essa equação que o corredor de biometano pretende resolver. A expansão para Rio de Janeiro e Espírito Santo representa o próximo passo de uma estratégia que, para chegar a rotas mais longas e reduzir ainda mais a dependência do diesel, precisará avançar para além dos limites da operação de uma única empresa.

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